Página 2 - 01pagina

Versão HTML básica

OPINIÃO
2
29 DE MAIO DE 2015 | JORNAL REGIÃO ECONÓMICA AÇORES
Para a semana há mais
Inês Teotónio Pereira
Umminuto de amor
Emanuel Areias
Havia
sempre
alguém
na
carruagem, ao mesmo tempo que
ele entrava, pela hora de ponta,
carregando às costas o saber que
tinha vindo beber para cá. Lisboa
sabia-o pela dificuldade em não
ver calma na face dele. E ele sabia
perfeitamente que na carruagem
do metro arriscava-se perder tudo
para o medo, menos a decência
de poder gostar. Via milhares de
pessoas no mesmo dia, sempre
com o mesmo som de fundo:
o sinal do fecho das portas e as
portas a fecharem-se com força
severa. Num minuto amou. No
outro perdeu.
Sabia que nunca podia estar só
numa carruagem e ficar nela dias
seguidos à espera daquele minuto.
Quando pensou nos olhos do
minuto, à frente dele, não surgiu
se não uma velhinha a pedir para
se sentar. A recordação do amor
fugaz fugiu-lhe da possibilidade
de vivê-lo uma hora, um dia, a
vida inteira ou então só mais um
minuto.
Repetia a mesma rotina fazia 20
dias e nada de amar o mesmo
minuto, que residia num perfeito
rosto que se tivera sentado bem
junto dele naquele frio dia de
janeiro. A carruagem era sempre
a mesma. Tinha-a marcado na
mente e sabia todos os horários. Na
hora marcada, sentava-se no banco
que tivera sido dele naquele dia de
janeiro, esperando com os olhos,
que no banco em frente se sentasse
o minuto, que lhe tinha feito amor
correr pelas veias. A paranóia não
era elemento certo na mente dele,
porque amar fugazmente nunca é
ser paranóico. Muito menos, é-se
doido quando se procura voltar
a reviver a felicidade sentida no
antes de agora.
Aquele minuto do dia frio de
janeiro, na carruagem do metro
que ia do Rossio para o infinito da
vida dele, nunca mais havia de se
repetir porque tivera fugido dele
para outro qualquer relógio que
não o seu, que não a sua vida.
O minuto de amor era a mulher
que o tinha marcado o olhar
e loucamente o tinha feito um
maníaco, na procura incessante
de a rever e de voltar a viver a
oportunidade de amar. A dúvida
de não voltar ao dia frio de janeiro,
fê-lo acreditar que o amor existia.
Mas esqueceu completamente que
algum tinha gostado pelo fugaz
azar de ter ficado imóvel quando
viu. No ato de esquecer, esteve o
recuperar da esperança perdida no
espírito dele.
Depois de perder para a vida a
loucura de rever pela força de
forçar o destino a dar-lhe o que
queria, viu-a. Não no banco da
carruagem do minuto do dia
frio de janeiro, mas no banco
da carruagem do minuto do dia
quente de agosto: e foi minuto para
a vida.
Fazendo
Paulo Vilela Raimundo
forma o comportamento dele e da
mãe. Existe um contexto – sem-
pre o contexto. Apesar do contex-
to, fizeram-se juízos e fizeram-se
juízos sem qualquer dificuldade
em interpretar quadros psicológi-
cos, comportamentos, perceber
fundamentos ou dilemas morais.
Há sempre alguma coisa para dizer.
Escreveu-se muito sobre isto.
Um polícia abraça o menino que
assistia à tareia que outros polícias
davam ao pai. A CMTV filmou.
Está lá tudo. Não está o som, mas
isso não interessa – e não interessa
mesmo. Chocante, emocionante.
Pediu-se a cabeça do comando, do
superintendente, da ministra. Exi-
giu-se justiça rápida. A fotografia
do polícia a abraçar o menino é
linda – vai ser a fotografia do ano.
Entrevistou-se a mãe do polícia que
abraçou o menino e que confirmou
a bondade do polícia bom. Está
tudo nas imagens: o polícia mau,
o polícia bom, o pai, o menino
desesperado e o bastão. Podemos
deixar entrar a indignação. Quere-
mos a cabeça dos responsáveis pelo
polícia mau. E queremos o nome,
a morada, a matrícula do carro do
polícia mau. Escreveu-se muito so-
bre isto.
Em Guimarães, imagens sem som
revelam pessoas a roubar coisas
do armazém do estádio de Gui-
marães. Roubam calmamente, sem
pressa, sem adrenalina nenhuma.
Um roubo sem emoção. Não havia
polícias a guardar o armazém cheio
de coisas que se podem roubar. Um
telemóvel filmou tudo. Onde estava
a polícia? Como não havia polícia,
deve ser de graça. Analisou-se o
caso: o roubo e a polícia que não
estava. O que é que isto diz do
país e das pessoas? Do Benfica, do
futebol e dos adeptos? Do mundo
e dos tempos? Escreveu-se muito
sobre isto.
Há uns dias também se escreveu
sobre as raparigas que bateram
no miúdo e sobre a menina de 12
anos violada pelo padrasto que fez
um aborto. Mas já passou. Não há
tempo para tudo. Já não se escreve
muito sobre isto.
É moda. É moda assistir, partilhar
e explorar cenas das misérias hu-
manas e escrever prosas filosóficas
sobre cada uma e sobre o facto de
assistirmos, partilharmos e ex-
plorarmos essa mesma miséria
humana. Somos assim. Somos es-
pecialistas emocionais com razão e
noção de justiça.
E isto quer dizer o quê? Quer di­
zer que cada caso deixou de ser um
caso, que os casos explicam multi-
dões. Explicam que as mães não
protegem os filhos, que os polícias
batem nas pessoas com bastões de
aço e que as pessoas roubam. Que
o mundo está perdido, que os jo­
vens já não são o que eram. Tudo
isto quer dizer que precisamos de
casos para ter opinião. Que a nossa
moral é empírica, relativa e vai-se
formando conforme os casos. Sem
casos, vivíamos na solidão do pen-
samento abstracto que dita princí-
pios, valores e religiões. Sem casos,
não teríamos princípios ou valores,
e sem a televisão ou as redes sociais
seria mesmo impossível.
Mas esta semana foi boa: esta se­
mana não gostámos do polícia
mau, somos o polícia bom da mes-
ma forma que já fomos Charlie e
temos um dilema moral: não temos
a certeza se gostamos da mãe que
preferia que o filho fosse a vítima e
não o assassino. Para a semana há
mais.
É moda assistir, partilhar e explorar
cenas das misérias humanas e es-
crever prosas filosóficas sobre cada
uma e sobre o facto de assistirmos,
partilharmos e explorarmos essa
mesma miséria humana. Somos
assim.
Uma mãe vem a público, através
do Facebook, afirmar que preferia
que o seu filho estivesse no lugar
da criança que ele matou. Ou seja,
que preferia ter um filho morto
a ter um filho assassino. Sobre o
caso, opiniões: uma mãe não devia
pensar e sentir o que disse e muito
menos dizê-lo; por outro lado, é de
louvar a coragem e verticalidade
da mãe por ter posto a justiça à
frente das emoções e do amor de
mãe. O filho já tinha sido refe­
renciado, o que atenua de alguma
Fazendo – O boletim do que por
cá se faz.
Esta publicação, de promoção cul-
tural comunitária, não lucrativa e
independente, viu a luz do dia no
primeiro dia do mês de outubro
de 2008, com periodicidade quin-
zenal, assumindo, sob a direção
de Jácome Armas e Pedro Lucas,
a função de “plataforma de divul-
gação do que por cá se faz”.
Passados quase sete anos, e após
mudanças várias, continua vivo e
interventivo, tendo alargado a sua
abrangência a várias ilhas do ar-
quipélago dos Açores, insistindo
na valorização da qualidade, da
criatividade e da originalidade dos
criadores, no seu sentido lato e sem
tiques de regionalismos serôdios.
Amiúdes vezes vem sendo ignora-
do o seu verdadeiro papel de índole
cultural, a partir do qual se vêm
criando pontes intergeográficas
e intergeracionais, chegando-se a
temer a sua extinção por falta de
apoios financeiros.
Como demonstração de esperança
e como fruto da motivação dos
atuais mentores da Associação Cul-
tural Fazendo (dirigidos resistente-
mente por Aurora Ribeiro e Tomás
Melo), os escolhos monetários vêm
sendo contornados (com recurso a
crowdfunding), atingindo-se assim
a notável fasquia do nº 100.
Fica assim comprovado o papel de
divulgação das mais variadas áreas
de intervenção artística e cultural,
valorizando-se os autores/criadores
e as suas obras, sem que para tal
se tenha sentido a necessidade de
“vender a alma” de um projeto que
sobrevive até hoje com os ideais
programáticos do primeiro dia.
É pois coerente e obrigatório
reconhecer a vontade e a necessi-
dade contida neste projeto, elogi-
ando os verdadeiros ativistas cul-
turais do nosso quotidiano azórico,
com votos de:
Venham lá mais cem!
A verdadeira epopeia que vos tra-
go demonstra-nos que, mesmo em
tempos de nuvens negras e negati­
vismos vários, existem provas de
que o idealismo na ação e o otimis-
mo nos objetivos podem dar certo.
A prova ser-nos-á dada no próximo
dia 2 de junho, com a publicação
do centésimo número do jornal
PÚB.