Os caprichos do centralismo micaelense

Para que a SATA esteja centralizada em São Miguel, é este o cenário dos voos inter-ilhas nos Açores:

Por oposição, se o Governo Regional decidisse compensar os Terceiren­ses pelo abandono dos  americanos da Base das Lages e centralizasse as operações da SATA Regional na Terceira, mais  central, este seria o mapa das rotas: 

Assim podemos concluir que os caprichos da centralização em São Miguel tornam a gestão da SATA mais cara e substancialmente mais complexa. Além de prejudicar algumas ilhas e favorecer outras.
Tendo em conta que é o Governo Regional que gere a Base das Lages, a decisão de instalar a SATA Regional na ilha Terceira só depende da vontade política deste Governo. O que me preocupa, dado o histórico de acções para boicotar a ilha Terceira mostrar que essa decisão será, com certeza, contra os interesses dos Terceirenses - e dos Açorianos em geral.
Desinvestir numa ilha tão central quanto crucial para a economia Regional é desinvestir nos Açores, deixando-os empobrecer sob o cinismo da centralização da SATA numa ilha limítrofe, com um aeroporto medíocre, como São Miguel.
Para corroborar a afirmação de que há efectivamente um boicote à centralidade da Terceira, apresento a distribuição da gestão dos aeroportos Açorianos, divididos pelas 3 entidades res­ponsáveis:

Somente a Base das Lages é gerida pelo Governo Regional, sendo que a autorização de aterragem de aeronaves na ilha Terceira é dada pelo INAC, um instituto que regula o tráfego de avionetas e aviões telecomandados nos aeródromos do continente. Devo todavia salientar que este instituto é sobejamente conhecido por ser mais um tacho para os muitos incompetentes que passaram pela política nacional.
Daí a pergunta: por que razão somente a Terceira é que é gerida por esta entidade? E como pode esta entidade gerir um aeroporto Açoriano, estando localizada no continente?
A justificação de que é por causa dos Americanos é falsa. Primeiro, porque eles nunca se opu­seram a um uso intensivo da Base das Lages pelos Portugueses e segundo, porque eles foram embora.

 

Boicote aos terceirenses

A analise das relações mercantis entre as ilhas é importante para compreender até que ponto existe, ou não, uma articulação das respetivas economias e se alguma das ilhas desempenha um papel polarizador no Arquipélago. 

Na Consulta da Junta Geral de Angra, de 1855, pede-se uma embarcação para fazer a ligação entre as ilhas, porque se passam três a quatro meses sem comunicações.
As comunicações inter-ilhas e com o continente passam a ser realizadas pela Empresa Insulana de Navegação, de Bensaúde & Cia. Quanto o contrato entre o Estado e a empresa é renovado, em meados da década de 1890, vários jornais publicam artigos contra os preços, considerados exorbitantes, e os lucros fabulosos da Companhia.
O Imparcial defende o aumento do numero de vapores de dois para três.
A crítica aos serviços prestados pela empresa estendem-se às atitudes preferenciais que demonstra em relação a outras ilhas, em desfavor da Terceira. O frete de carga para esta ilha é mais do dobro do que para S. Miguel e ainda o ano passado o frete do cereal aumentou, por uma vingança mesquinha, 20%. A empresa é subsidiada pelo Governo e, como tal, tem por dever e por obrigação respeitar os interesses de todos, não preferindo a carga de uma ilha em prejuízo de outra, nem contemplando qualquer exportador em detrimento de muitos outros.
Nenhum porto açoriano concentra um trafego suficientemente destacado dos outros para indicar a existência de um papel polarizador do comercio regional. O porto de Ponta Delgada movimenta somente 19% da tonelagem total e o de Angra 16%.
Esta conspiração contra a Terceira começou com o ciclo económico da laranja, durante o séc. XIX. E mesmo com o empobrecimento geral do Arquipélago, resultante da aposta em grandes propriedades exportadoras, ao mesmo tempo que S. Miguel boicotava a ilha Terceira, nunca esta ilha perdeu a sua importância.
É inquietante a atualidade desta análise...


Rodrigo Oliveira

 

Parar para pensar...

Tenho alguma dificuldade em entender porque razão não se deve misturar “Base das Lages” e “HUB” na mesma discussão. Se o HUB que se pretende construir na Praia terá restrições motivadas pela “Base das Lages” e/ou porto militar, não aparenta um certo autismo o facto de não considerar tamanho constrangimento na discussão de um projeto desta envergadura?

Por partes:
Base das Lages: e que tal se os americanos nos pedissem desculpa? Por termos cedido o palco para a declaração de guerra mais ridícula da história da humanidade. Afinal, quem não se lembra de Colin Powell, nas Nações Unidas, a abanar um frasquinho com um pó branco e a mostrar evidences atrás de evidences sobre fábricas ambulantes de armas de destruição maciça? No entanto, a única evidence que os americanos nos deixam são milhões de refugiados, milhões de mortes inocentes e um Iraque completamente devastado pela invasão anunciada na nossa Base das Lages. Resumindo, as únicas evidences que Powell nos deixou foi sangue nas nossas mãos e uma vontade exacerbada de dar um raspanete aos americanos, tal qual se faz na escolinha ao brat mal comportado e mentiroso.
HUB da Praia: a notícia do momento nas principais praças asiáticas é, efetivamente, o HUB da Praia, que fica a caminho da Europa, vindo pelo canal do Panamá. Os orientais estão excitados com a possibilidade de poderem usar os Açores como plataforma de distribuição marítima. E com razão: de facto, os Açores ficam muito mais próximos de Cabo Verde, das Canárias e da Gronelândia, do que o porto de Roterdão, para dar um exemplo. Um navio que parte da costa oriental da Ásia, cruza o oceano Pacífico, atravessa ou contorna o Canal do Panamá e continua a cruzar o Atlântico em direção à Europa. Depois de navegar 22.000km, esse navio pára às portas da Europa, porque prefere o HUB da Praia ao de Amesterdão?! Isto é ridículo! Faz lembrar o paciente que foge do hospício, salta 99 barreiras e, quando chega à última, farta-se e volta para trás. Mas por mais idiota que esta ideia possa parecer, ela é uma repetição: Sines, Lisboa, Leixões e Viana do Castelo foram todos injetados com euros emprestados para se tornarem em portos de referência. Nenhum destes projetos resultou, não porque esses portos ficavam próximos ou distantes do centro da Europa, mas simplesmente porque os custos operacionais eram muito mais elevados, o que os torna inúteis para as grandes rotas comerciais. O HUB da Praia terá custos operacionais e utilidade prática para as companhias comerciais marítimas? Não, claro que não. No entanto, sejamos autistas e finjamos que estas questões não existem. Assim, podemos construir mais um elefante branco e assim continuar a imagem do Portugal esbanjador e fútil dos últimos anos.
Aproveitemos o último quadro comunitário, não para construir ligações frequentes e fiáveis entre as ilhas, mas sim para construir enormes plataformas logísticas que jamais serão úteis para os açorianos. Aproveitando a última tranche de dinheiros, vamos construir uma casa começando pelo telhado, não considerando dúvidas pertinentes e abstraindo-nos do objetivo inicial. Provavelmente acontecerá como as obras na Baía de Angra e - surpresa das surpresas - atrasar-se-á indefinidamente. Provavelmente nunca ficará pronto. Mas isso não interessa. O que interessa é a intenção, e essa é boa.
E para quem acha realmente estúpido falar de barcos que vêm da China para parar nos Açores, abanando o trunfo Free Trade Agreement entre a Europa e os Estados Unidos, peço-lhe que reflita um pouco e pondere se realmente haverá alguma diferença...


Rodrigo Oliveira

 

Cidade de Angra: Património de Obras

Nestes últimos anos marcados pela crise, o turismo na Região cresceu consideravelmente. Apesar de termos somente 3 meses de sol para o tipo de turismo mais óbvio, não temos bungalows suspensos sobre praias de areia branca; o que temos são paisagens únicas e um contexto de arquipélago com particularidades distintas. Umas férias nos Açores parecem mais completas quando saltamos de ilha em ilha para descobrir o que de melhor cada uma tem. São Miguel tem um pouco de tudo, o Pico tem as adegas, o Faial a sua marina, a Terceira a sua cidade histórica, património mundial, e assim sucessivamente.

Então se o turismo, em tempo de crise, traz uma receita apreciável aos açoreanos; e se a Terceira tem, como ex-libris, a sua cidade património mundial… porque razão, ano após ano, Angra do Heroísmo está em obras?! 

As desculpas são mais que muitas e todas elas têm o seu fundamento, mas questiono-me: não haverá mesmo solução? Repare-se: as obras na Baía de Angra começaram em Dezembro. Em Março já era óbvio que não estariam concluídas no verão. E o que se fez em relação a isso? Nada. Como autistas, continuaram os planos de trabalho. Quando se tornou evidente a bronca de apresentar a Baía em obras, adoptou-se um plano de emergência. Esse plano não foi apressar as obras, mas sim seccioná-la. Desta forma, no pico da época alta, os turistas terão meia Baía para contemplar.

Bem bom! Antes metade que nada.

E reconforta-me saber que o mau cheiro no Pátio da Alfândega fica para outras núpcias. Talvez para o ano que vem. Talvez no verão…

Rodrigo Oliveira