A trilogia do caos

Confesso-vos que, diariamente procuro (com obsessiva minúcia) aspetos positivos do nosso quotidiano que, irradiando algo bom e otimista, possam contribuir para a reabilitação do modo como todos olhamos a atualidade e o futuro próximo.

A realidade porém, assume sistematicamente formas de difícil aceitação, em que a sua negação se torna impossível e irresponsável.

Com o prolongamento da crise financeira que grassa no planeta, os sintomas de pânico individual e/ou generalizado são por demais evidentes, forçando-nos a analisar conscientemente o que ainda estará para vir.

Um pouco por todo o lado, e com a visibilidade instantânea que a comunicação social propicia, ocorrem atos avulsos e/ou continuados que nos levariam a pensar que está tudo louco.

Mas a verdade é que o medo e o desespero chegaram para ficar, levando a que a sociedade globalizada se veja obrigada a trocar um sonho romanceado do eldorado ocidental (leia-se Europa e América do Norte) por uma busca insana pelo inimigo mais próximo, mesmo que este se veja forçado a representar tal papel...

Este fenómeno torna-se por demais abrangente e opressivo que, desde a família (elemento nuclear da sociedade atual), aos governos e às inúmeras fações extremistas, pseudo-religiosas e por vezes transnacionais (Estado Islâmico / DAESH, Boko Haram, …), quase que diariamente nos dão conhecimento de atos de pura barbárie para com familiares diretos (mulheres, maridos, filhos, pais,…), vizinhos (por partilharem de religiões distintas) ou por serem diferentes, pura e simplesmente porque é importante encontrar um bode expiatório para o desnorte que avassala o quotidiano.

Este conjunto de atitudes que, em defesa de líderes fracos e sem noção do rumo a tomar, vem colocando o homem contra o seu igual, numa luta fratricida de que todos sairemos a perder, definem um verdadeiro estado de guerra que não devemos e não poderemos ignorar.

Vejam-se os resultados da instabilidade instalada por todo o Magreb, onde as múltiplas convulsões governativas, instigadas por variados interesses mais ou menos obscuros, levaram a que o poder tenha literalmente caído na rua, dando vantagem à instalação territorial de verdadeiros bandos de criminosos que, encapuçados por alegadas crenças religiosas, espalham o terror e a morte.

Não bastando a precariedade e a fome que se vinham sentindo nesses territórios, foi-lhes ainda adicionado o medo.

Em resultado deste, assistimos diariamente a notícias de naufrágios em pleno Mediterrâneo que, dando provas de um verdadeiro êxodo magrebino com destino à Europa, nos confronta com inúmeros mortos por afogamento (que nos últimos três meses e meio já rondarão os cinco milhares).

Mas nem só de grandes conflitos sofre o mundo!

Um pouco por todo o lado, vamos tomando consciência de múltiplos atos de violência indiscriminada, crimes passionais, ações vingativas sobre menores, atos perpetrados por alegados tresloucados inimputáveis,... que provocando a dor e por (demasiadas) vezes a morte, provam claramente que a nossa sociedade está moribunda e que tem forçosamente de mudar de atitude.

Chegou a hora, sob pena de sermos forçados a enfrentar um novo conflito generalizado, de alterar os conceitos basilares dos nossos projetos de vida, substituindo a omnipresente riqueza material por ideias básicas como a da sustentabilidade do planeta e a defesa (e partilha) das reservas naturais disponíveis (água, combustíveis fósseis, alimentos,...).

Lembremo-nos que o planeta nunca foi tão povoado como na atualidade e que o permanente crescimento exponencial e desmedido do consumo não será nunca viável.

Restar-nos-á escolher entre a guetização do globo, entrincheirando as zonas ricas, defendendo-as dos territórios pobres e a abolição da destruição fratricida entre iguais, forçando-se claramente uma gestão coerente e responsável dos parcos recursos disponíveis.

O que faltará, para que numa das muitas reuniões dos “donos disto tudo” (G7, G8, G20, G...) se decida, de uma vez por todas, pela sobrevivência do que ainda somos e conhecemos?

 

O elefante branco…

Por vezes torna-se necessário o recurso a chavões para se tentar desconstruir as “verdades absolutas” e os populismos sempre convenientes em certos períodos político-partidários do nosso quotidiano.
Incomodo-vos mais esta vez, para convosco refletir sobre um novo equi­pamento cultural, o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, que foi recentemente inaugurado na Ribeira Grande.

O que se sabe é que o Governo Regional dos Açores adquiriu, há menos de uma década, um enorme complexo industrial edificado (e em ruínas), onde já se verificavam ocorrências nada elogiosas para o local excecional onde se insere e nada seguras para quem habitava em proximidade. O mesmo conjunto edificado que está hoje classificado como “Imóvel de Interesse Público”.
Recorrendo-se da legislação em vigor, foi contratualizada entre o anterior governo açoriano e os gabinetes do Arqtº João Mendes Ribeiro e do Ate­lier Menos é Mais ( Arqtª Cristina Guedes e Arqtº Francisco Vieira de Campos) um projeto que, reconvertendo a pré-existência e dotando-a das condições programáticas necessárias ao novo programa de índole cultural, transformou uma chaga urbana da cidade da Ribeira Grande, numa peça arquitetónica de inegável qualidade, conforme atesta o destacado lugar a que chegou, na definição do prémio de arquitetura Mies Van der Rohe - 2015.

Se pensarmos que somente 2 projetos portugueses chegaram à “short-list” de 40 (entre mais de 400 propostas iniciais) que antecederam a atribuição deste galardão, teremos que admitir que um primeiro e enorme passo foi dado, ao reconverter-se um equipamento fabril obsoleto e em ruínas (antiga fábrica de álcool), transformando-o num equipamento de exceção que, desde o início do ano, ficou sinalizado à escala global pela sua justificada qualidade arquitetónica.

Realizado o necessário concurso público para a execução da empreitada de construção do futuro A-CAC, e após inúmeras “tempestades” que a obra foi enfrentando na travessia de grande parte da anterior legislatura e no início desta, eis que chega ao fim todo um conjunto de reconstrução da pré-existência e construção de componentes assumidamente novas, materializando um conceito que não se enquadra no conhecido e espartilhado conceito de museu, mas dá forma a uma nova “geração” de equipamentos culturais que, dispensando espólios bilionários e vocações rígidas e restritivas, torna possível a fruição do fazer, sentir e conhecer, em áreas tão dispares como dança, escultura, vídeo-art, teatro, pintura, performance,…
Se nos dermos ao cuidado de conhecer os objetivos prévios que suportaram o programa funcional submetido a concurso, concluiremos que o pretendido engloba a vocação expositiva, a capacidade criacional (permitindo a realização de residências artísticas), a interação com agentes culturais locais, regionais, nacionais… (fruto das condições excecionais de que dispõe e que deverá oferecer a terceiros [leia-se: autarquias, associações culturais, agentes culturais, artistas...]) e, assumidamente como motivação mais ambiciosa, atribuindo-lhe um papel de motor social, turístico e económico para o meio onde se insere, numa reivindicação consciente da centra­lidade cultural que sempre esteve ao nosso alcance.
Para quem (encapotando a qualidade do conceito, do projeto e do seu produto final) se refugia no custo faraónico da obra, nunca será demais referir que a comparticipação comunitária (de no mínimo 85% do valor contratual global) só esteve ao nosso alcance por se direcionar para um equipamento deste tipo, tornando-se a verba residual, no que concerne ao capital próprio da Região (num máxi­mo de 15%), um valor claramente baixo para solucionar, de um modo que roça o brilhantismo, o problema anteriormente existente que colocava a segunda maior cidade de S. Miguel a conviver com (ou deveria dizer: recear?) uma gigantesca ruína no seu seio, para a qual não existia função que a reabilitasse.

Sabendo-se do princípio universal da ação-reação, têm-se multiplicado nos últimos dias opiniões setoriais (e partidáriamente identificadas) que, tentando ofuscar a qualidade do projeto e da obra, reagem à recente inauguração do A-CAC (que há muito aguardava por esse dia) acusando os seus promotores de despesismo autista e de insensibilidade social face aos reais problemas da sociedade envolvente...
...e é aqui que a memória recente me cria problemas existenciais e desperta vontades de justas pela cidadania:
Serei só eu que me lembro de uma intenção/promessa da então líder do maior partido da oposição que, na qualidade de presidente da câmara de Ponta Delgada, defendia (e alegadamente chegou a contratualizar) a construção de um museu de arte contemporânea em S. Miguel?
O mesmo que inicialmente seria para edificar junto à marina, para depois ter sido “transplantado” para o parque urbano da cidade, como se de um projeto-tipo de museu se tratasse (recordam a semelhança com o já existente em Espanha?), da autoria do arquiteto brasileiro Óscar Niemeyer.
Provavelmente também se estaria perante a perspetiva de maior afluxo turístico (que hoje temos, pelo menos em S. Miguel..., pela mão das empresas aéreas low-cost) e na expectativa de poder ocorrer nos Açores o já conquistado/confirmado em Bilbau (com o Museu Guggenheim), no Porto (com a Fundação de Serralves), em Lisboa (com o Centro Cultural de Belém),...e com inúmeros equipamentos culturais que, arrastando turistas e integrando as sociedades envolventes, se tornam nos motores económicos e sociais de que por cá tanto necessitamos.

Até entendo as motivações de quem, denegrindo o caminho percorrido, teima em desejar a morte do “nosso elefante branco”. Mas, sendo verdade que o dinheiro despendido era de todos nós, não será mais consciente e responsável zelar pela “sua vida” e potenciar os benefícios que a todos dignificariam?

 

Depois do rei Sol… a paz

A crua verdade é que assim reza o ditado: “Há males que vêm por bem!”

…e de um modo respeitador pelo ocorrido no passado dia 18 de março, em que mais de duas dezenas de pessoas foram mortas no Museu do Bardo, na capital tunisina, por terroristas do autoproclamado Estado Islâmico, quero desafiar-vos a refletir sobre o fenómeno do turismo e sobre a importância que essa atividade poderá ter para a nossa região Açores.

Considerando-se que a atividade turística se instituiu na antiguidade, desde que os gregos se começaram a deslocar sazonalmente para assistir às olimpíadas e os romanos de posses se deleitavam com o desfrute das águas termais em termas como as de Caracalla, somente em meados do século XIX, e com o crescimento económico exponencial resultante da revolução industrial iniciada no Reino Unido, se globalizou a prática do turismo, tornando-se numa das atividades comerciais de maior atratividade das últimas décadas.

Ocupando o lugar das motivações anteriores, os destinos de praia tornaram-se inequivocamente a vertente mais lucrativa de todas, massificando culturas, descaracterizando regiões e …, quer queiramos, quer não, esgotando um filão que muitos danos colaterais foi acumulando.

Este atentado recente, justapondo-se a outros aspetos nefastos associados à exposição excessiva ao sol, constitui um rude golpe nos destinos de férias em que o fator sol é impositivo e quase que exclusivo, na oferta turística disponível.

Nesse grupo de destinos prováveis e que, porque massificados, se tornam económicos, encontram-se a Tunísia, Argélia, Egito e Marrocos que se defrontam atualmente com os riscos do extremismo islâmico, repelindo na prática milhares de potenciais turistas que procurarão tendencialmente outros destinos de férias.

É pois esse público alvo que estará ao nosso alcance, redirecionando, concertadamente e laboriosamente, uma estratégia que não se cinja à oferta de novo destino, mas que complementarmente ofereça (lucidamente) um novo pacote de produtos que num contexto pacífico e de qualidade, se propicie cultura, natureza, família, hospitalidade natural… enfim, o destino Açores no verdadeiro sentido da palavra.

Dir-me-ão que as férias e a “venda” dos pacotes comercializados pelas bolsas mundiais de agências de viagens se realizam com grande antecedência! Mas, a verdade é que esta conjuntura verificada nos países do Médio Oriente, reforçada pelo desencanto pelo Sol, vieram para ficar.

Encontramo-nos como tal, perante um nicho de mercado que obrigatoriamente ganhará terreno face a outros. Pelo que se torna obrigatório equacionar o regime de complementaridade turística, cultural e de natureza, que num universo insular e/ou arquipelágico, potencie o que temos de qualidade através de redes de interesses partilhados, do usufruto em rede de pequenas e médias empresas (porque não micro empresas familiares...) de vocações distintas e não obrigatoriamente concorrenciais, permitam a “comercialização” da identidade azórica, sem filtros e/ou outros conteúdos ficcionados.

Contrariando o nosso passado recente, onde imperou e impera a total permissividade face a orientações exteriores (NATO, UE, Toika, ...), seremos nós capazes de construir e comercializar um modelo de turismo de PAZ, fortalecendo através dele o tecido económico e social do arquipélago?

 

O meu Presidente da República

Como sempre acontece quando nos querem distrair do essencial, atravessamos mais um “tesourinho deprimente” nacional, onde uns (poucos e com tiques algo monárquicos) se envolvem na definição do perfil “adequado” para o próximo Presidente da República e outros (também minoritários e com ambições presidenciáveis) se contorcem para se enquadrar nesses questionáveis jargões.

Também desta vez, a classe política se esquece da abrangência e representatividade do cargo a preencher por sufrágio de dez milhões de portugueses, não se inibindo de “publicamente” se arrogarem ao papel de líderes sem mandato, enxovalhando ainda mais o lugar que ocupam.

Tudo isto me leva a pensar no que eu quero e no perfil do meu futuro Presidente.

Antes de me debruçar sobre o seu hipotético perfil académico, profissional e/ou as suas experiências publicas e privadas, começaria por procurar alguém em que (finalmente) pudesse confiar e que durante o seu mandato dignificasse essa confiança por mim depositada e, cumulativamente, o país a que honrosamente pertencemos.

Este hipotético cidadão nacional, deverá assumir a defesa da generalidade dos cidadãos nacionais contra todos os lobbies setoriais minoritários que, distorcendo a realidade social e o conceito de nacionalidade, enfraquecem o nosso País e envenenam o nosso futuro.

Com uma postura suprapartidária, não deverá, mesmo que dissimuladamente, tomar atitudes partidárias ou partidarizadas, assumindo claramente uma atitude salomónica, exclusivamente baseada na legislação em vigor.

Esse meu representante, ao assumir o papel de símbolo nacional, não compactuará com ilegalidades, irregularidades, esquecimentos e/ou outras nuances de recurso dos “assíduos e recorrentes frequentadores dos salões do poder”, defendendo por mérito próprio o orgulho de se ser português e exigindo (escorado na sua representatividade) o respeito de países terceiros.

Como primeiro defensor desta réstia atlântica, resistirá às tentações centralistas, confiando e reforçando as autonomias insulares, tudo fazendo para que no todo nacional se sinta um verdadeiro patriotismo tolerante e solidário, tendo em vista a erradicação definitiva do bairrismo serôdio onde só prolifera a inveja e o fracasso.

A credibilização do cargo (tão necessária em todas as áreas da representatividade político-governativa) será conquistada pelo conhecimento profundo do país real, pela coerência das declarações e das atitudes e, fundamentalmente, com humildade e sem tiques de superioridade ou de singular clarividência.

Ninguém consciente negará a necessidade de formação académica específica, conhecimento profundo dos sistemas políticos vigentes e noção clara do mundo em que (sobre)vivemos. No entanto, parece-me condição essencial ser merecedor do respeito da maioria (demonstrado nas urnas de voto) e dedicado defensor da totalidade dos portugueses.

Como em tudo na vida, e sempre que de uma estrutura hierarquizada se trata, terá de ter sempre em conta a “pedra de toque” que o obrigará a confiar para usufruir da confiança.

Para que tal missão possa ser dignamente cumprida contará connosco, eleitores, que vivendo num sistema republicano e (tendencialmente) democrático, não abdicaremos do nosso dever de escolher o futuro que queremos para nós e para os nossos.

Será que quando chegar “a hora” encontrarei o meu candidato?

 

Tocar a rebate

Ultrapassadas as miragens paternalistas e adversidades várias, a ilha Terceira e os seus habitantes deparam-se com um cenário negro para os anos que se avizinham.

Adicionando-se à conjuntura nacional e internacional, eis que surgem no horizonte as nuvens premonitórias do fim das quotas leiteiras, da redução drástica dos efetivos militares americanos da Base das Lajes e dos empregos civis que (nesta) davam emprego a centenas de terceirenses.

Tudo isto já vinha sendo verbalizado como certo mas, numa postura muito nossa, foram-se empurrando os problemas “com a barriga”, dizendo para os nossos botões que depois se veria…

Pois já se vê! …e mais, já se começa a sentir.

Estando a “casa arrombada” muitas têm sido as iniciativas públicas, associativas ou simplesmente de cidadania que têm vindo a terreiro demonstrar a sua discordância no desenrolar dos factos, esquecendo que somos apenas, e pouco mais de, cinquenta mil almas atlânticas, sem qualquer impacto político ao nível nacional e internacional.

Nem é necessário repetir que os americanos, após sete décadas de permanência na ilha, fazem as malas e zarpam cheios de empáfia e sobranceria.

Também não é difícil entender que o próprio governo da república, venha discutindo este assunto sem acautelar os interesses açorianos e/ou trocando-os por outras maiores valias mais a contento do Terreiro do Paço.

A verdade é que chegou a hora de por as rivalidades e invejas de paróquia para trás das costas e unirmo-nos em torno do que é realmente importante: a sobrevivência digna de uma população e um futuro para todos os terceirenses e para os vindouros.

Não creio que existam soluções milagrosas que, em tão curto espaço de tempo, materializem alternativas eficazes de emprego e/ou substituam (numa sociedade insular de tão reduzida dimensão) a monocultura da vaca e o eldorado do “cerrado grande”.

Por muito que o desejemos não me parece realista pensar que o governo regional dos Açores poderá assumir financeiramente (e sozinho) todo um conjunto de medidas de substituição que compensem os nefastos ventos da atualidade.

A governo regional não se poderá exigir que “dê o peixe”, mas sim que, recorrendo à máquina administrativa que possui no terreno e aos técnicos conhecedores de inúmeras áreas multissetoriais, “nos ensine a pescar”.

Basta de insistirmos em sistemas de monoculturas e/ou monoatividades que nunca funcionaram no passado, nem irão funcionar no futuro.

Chegou a hora de enfrentarmos definitivamente a necessidade de diversificar, numa lógica de complementaridade insular e/ou regional, com o claro objetivo de sustentabilidade e autossuficiência para um horizonte de curto/médio prazo.

Urge por fim aos tiques de novo-riquismo e consumir locar, numa entreajuda solidária para com o nosso vizinho, fixando na região as maiores valias e fortalecendo o sistema (tendencialmente débil) do nosso meio.

 

“Quem julgam eles ser?”
“Quem julga ele que é?”

… em pleno século XXI, e embora inseridos numa democracia algo jovem, é deste modo que, amiúdes vezes, nos vemos caracterizados, pelos poucos que se julgam mundividentes e insubstituíveis.
Passado mais de um século sobre o fim da monarquia portuguesa e, teoricamente, dos direitos e benefícios determinados em função do “berço”, continuamos ainda hoje a viver numa sociedade estratificada (o que parece normal e inevitável) mas sem pontes de contato entre os respetivos níveis de governação e da própria sociedade (o que me parece contrário à unicidade nacional e perigoso no que diz respeito à representatividade das nossas elites com funções governativas e/ou gestionárias).
A diferentes níveis do nosso quotidiano deparamos com situações em que o fenómeno do “quero, posso e mando” é por demais frequente e transversal, sem que se tenha plena consciência dos efeitos nefastos que essa postura acarreta.
Desde que o homem se habituou a viver em sociedade que os lideres existem, desempenhando múltiplas funções, fundamentadas num papel de capacidade, competência e representatividade, que conferem ao mandatado a obrigação de ouvir, informar e decidir.
É por demais frequente que esses gestores, após a tomada de posse na função, se esqueçam (mesmo nas alegadas democracias) do papel a desempenhar, “divorciando-se” dos seus representados e partirem para uma estratégia de decisões pessoais, justificadas pelo mandato que lhes foi conferido e sem que por estas sintam a necessidade de dar justificações.
Acontece que os mandatos vêm sendo atribuídos na sequência de compromissos prévios (eleitorais ou outros) que nem sempre (...e infelizmente, raramente!) são cumpridos, deixando os eleitos na posse de uma verdadeira “carta em branco” para fazerem o que bem entendam.
A preservação deste sistema só é possível enquanto a sociedade, constituída por um conjunto finito de indivíduos, se mantiver apática quanto ao seu futuro e submissa perante esses alegados “altos funcionários do Estado”.
Não quero com isto dizer que todos teremos as mesmas capacidades e conhecimentos para, de um modo horizontal e na “praça pública”, discutirmos todas as matérias, entendermos todas as nuances e decidirmos corporativamente todas atitudes e medidas que o dia a dia nos exige. Mas, considero que nos deverá incomodar o estatuto de menoridade que diariamente nos é imposto, sem que tal provoque reações de maior.
O objetivo deste texto é tão só provocar, em cada um dos hipotéticos leitores, uma sensação de “dejá vu” recorrente e (desejavelmente) incómoda, ao ponto de nos alertar para a necessidade de diariamente, nos empenharmos em defender o nosso direito individual e inalienável de opinião pessoal e o dever de informação, justificação e cumprimento de compromissos prévios que, os por nós eleitos, devem garantir a todo o tempo.
Basta de decisões palacianas e não justificadas, que tomadas a partir de inacessíveis salões virão a condicionar, e por vezes prejudicar, o futuro da maioria.
Será de bom senso para todos os intervenientes (leia-se eleitos e eleitores ou, governantes e governados) que as decisões sejam tomadas por quem se encontra habilitado para tal, como fruto da sua formação, conhecimento e mandato público; e aceites e entendidas pelos que neles devem confiar, reconhecendo-lhes as necessárias credibilidade e confiança que caracterizam as nações socialmente coesas.
Se nem ao recusar um gelado aos nossos filhos estamos isentos de justificar o motivo da decisão, como é que diariamente consentimos em que se tomem medidas que nos afetam (individual e familiarmente) sem que façamos nada para sermos esclarecidos.
A culpa é só nossa, pois tudo isto se passa perante a passividade e permissividade de todos nós, auto convencendo-nos de que outros nos substituirão na defesa dos nossos interesses.
Será que temos a consciência do nosso papel na sociedade atual e assumimos conscientemente as nossas obrigações de cidadania?
Talvez seja condição “sine qua non” respeitarmo-nos primeiro a nós próprios, para que os outros o façam!

 

O grito

Bom seria que este tema viesse a propósito da obra-prima do norueguês Edvard Munch, que datada de 1893, representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial.
Torna-se, porém, curioso pensar nesta obra e sentir o paralelismo entre ela e o resultado das eleições gregas do passado domingo, onde toda a Europa se viu confrontada com um resultado eleitoral que, retumbantemente, dá a vitória ao Syriza em prejuízo dos (até aqui) partidos do “arco da governação”.
O verdadeiro “sismo” expectável que assolou a Grécia, está a abanar com as suas réplicas todo o sistema político-partidário da Comunidade Europeia, forçando a uma reflexão profunda sobre o modo como lida com os seus eleitores, preterindo sistematicamente estes em prole dos poderosos grupos de poder financeiros internacionais.
Dificilmente acreditaremos que este resultado se tornou possível porque o manifesto eleitoral do partido vencedor dava maiores garantias de futuro, mas a verdade é que a escolha foi tomada entre a continuação de uma governação opaca, manietada pelo eixo Berlim/Bruxelas e sem efeitos práticos favoráveis à maioria da população e o fim de um sistema subserviente e distante da realidade grega, que como bónus propicia a devolução da esperança no futuro (mesmo que esta seja realisticamente efémera).
Como todos sabemos, o que se passou na Grécia não é tão diferente do que se poderá vir a passar a curto prazo nos demais países (ditos pobres) do sul que, como que por coincidência, se encontram todos em situações político-financeiras idênticas e enfrentando o nascimento e/ou regeneração de forças partidárias, à esquerda e à direita, até aqui marginais no espectro do poder, mas que poderão colar-se ao fenómeno de dizer NÃO.
Enquanto os nossos vizinhos ibéricos se veem a braços com as investidas do novel partido Podemos, que já lidera as sondagens e prenuncia a mudança, um pouco por toda a Europa se reage contra este sistema de oligarcas poderosos, que fazendo uso de um discurso inconsequente, por demais falso e em muitos casos criminalizável, manipulam os seus eleitores em defesa de políticas centralistas traçadas em Berlim.
Isto já não vai lá com “papões” intimidatórios e todos sabemos que chegou a hora dos nossos políticos o entenderem como tal.
Os gregos escolheram a incerteza e a esperança de David, menosprezando a certeza do desemprego, da pobreza, das assimetrias sociais em crescendo, da alocação da riqueza a um número cada vez menor de pseudoeleitos, … virando as costas ao Golias germânico e aos seus apaniguados europeus.
Se nem chega a ser surpresa, pergunto-me: se todos sabíamos que isto correria mal, porque não arrepiámos caminho, alterando o sistema, substituindo uma gestão político-financeira ultra liberal e autista, por um modelo mais consentâneo com um sistema social responsável e equilibrado?
Porque teimam os governos, governantes e demais responsáveis políticos numa linguagem hermética onde ninguém se revê, numa governação palaciana injustificada (e por vezes injustificável) e insistindo em atitudes de aparente impunidade face à legislação vigente?
Passadas algumas horas, e ainda “a quente”, já se ouviram vozes de altos dirigentes europeus a abrandar a tensão no garrote grego.
Ainda irão a tempo?...

 

Será que é desta?

Sente-se epidermicamente que muito está a mudar e que o mundo que todos conhecemos necessita de algo realmente importante para se renovar, reaprendendo a ter esperança.

Paris, como bastião incontornável da realidade/sociedade dita ocidental, já anteriormente tinha assumido o papel pioneiro de rompimento com o passado e de, a partir de manifestação da cidadania anónima, reivindicar a mudança do amanhã.

Os atentados verificados esta semana na capital francesa, e as dezassete vítimas mortais daí resultantes, em muito potenciados pelo facto de ter sido atingida uma das “vacas sagradas” da atualidade (leia-se: comunicação social/Charlie Hebdo), desencadearam de imediato reações condenatórias à escala global, que até agora conseguiu reunir povos, religiões e ideologias, disso dando prova com uma manifestação que contou com a presença física de mais de um milhão de pessoas e entre as quais estiveram presentes vários líderes mundiais do presente status quo.

Já na última década do século XVIII, os franceses, liderados pelas suas elites revolucionárias de então, promoveram o fim de um regime monárquico absolutista, caracterizado como corrupto e decadente, substituindo-o por uma república tendencialmente respeitadora dos ideais da liberdade, igualdade e fraternidade, que veio a influenciar toda a humanidade e a acelerar o fim de inúmeras monarquias europeias, em prole da democracia republicana.

Também com o designado “maio de 68”, o mundo foi forçadamente acordado pela revolta dos jovens e estudantes que, mais uma vez, a partir das margens do Sena, se transformou num dos acontecimentos mais importantes do século XX, na caminhada para o progresso da humanidade, e que não se cingindo a uma camada restrita da população, compaginou uma insurreição popular que superando barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe, se bateu (mais uma vez) por uma rotura com a "velha sociedade", contrapondo ideias avançadas sobre a educação, a sexualidade e o prazer.

Talvez estejamos hoje perante uma nova oportunidade de, em homenagem aos que tombaram, potenciarmos o clima de união de valores e as pontes efémeras criadas para, fortalecendo esses laços ainda ténues, consolidarmos o respeito e o direito à liberdade e opinião dos nossos semelhantes, mesmo que estes possuam diferente nacionalidade, professem de outra religião os sejam apologistas de ideologia diversa da nossa.

No respeito ao próximo, e apelando ao tão falado bom senso, não só deveremos ter presente que nada justifica a barbárie, como deveremos entender que a desconstrução da realidade através do humor (goste-se ou não se goste) não deixa de enquadrar-se no âmbito do nosso direito individual de opinião e da nossa obrigatoriedade de, em verdadeira liberdade, equacionarmos permanentemente o mundo que nos rodeia, identificando construtivamente o que pode (e deve) mudar no nosso quotidiano social.

Incomoda-me claramente que os atos cometidos nos últimos dias possam encontrar conforto naqueles que, de entre nós, verbalizam máximas como “…eles estavam a pedi-las!”

Numa primeira fase, e porque quem assim pensa mora na nossa rua, é nosso colega de trabalho ou é membro da nossa família, deveremos (sem paternalismos ou privilégios opinativos…) fazer-lhes entender que o risco de se justificar a barbárie com alegadas profanações de tabus, arrastar-nos-á coletivamente para um gueto de medo e de terror, que em vez de nos levar a um futuro construído em torno de valores primeiros como a liberdade, igualdade e fraternidade entre indivíduos, povos e religiões, se tornará tendencialmente num círculo de trevas onde a paz dará lugar ao ódio e o futuro cederá perante o medo.

Será que “…à terceira é de vez!” e é desta que aprenderemos a respeitar os nossos iguais e a poder contar com o mesmo tipo de direitos e ambições?

 

O mito dos super-heróis

Eu, tal como muitos da minha geração, cresci acompanhado de pequenos livros de banda desenhada profusamente povoados por super-heróis.

Estes, injustificadamente vestidos de fatos de lycra de duvidoso gosto, enfrentavam todos os males que assolavam o planeta, vencendo sistemáticamente todos os maléficos criminosos e solucionando garbosamente todos os cataclismos a que este estaria sujeito.
Passadas algumas décadas os "livros de quadradinhos" quase que desapareceram, tornando-se peças de coleção, que só interessam a colecionadores e a outros seres algo exóticos.
Curiosamente somos sempre surpreendidos  pela necessidade que a nossa sociedade demonstra, perante o sentimento de orfandade e de impotência, face aos múltiplos perigos que, desta feita, assolam o nosso país.
Aos super-heróis da atualidade, que trocando os fatos de lycra por negras togas, reinam nos tribunais nacionais, exige-se que corrijam todos os vícios inibidores do progresso nacional e que prendam todos os prevaricadores que denegrindo os simbolos nacionais põem em causa a imagem internacional desta nação de oito séculos de existência, mantendo-nos todos nós no papel de simples espectadores, sem que para tal nos seja exigido qualquer tipo de intervenção ou alteração de conduta.
Talvez fruto da idade que vou tendo, despertam em mim dúvidas e reticências face a determinado tipo de esperanças ou de coincidências.
Constato que na península ibérica se replicam os mesmos ritos e se partilha da mesma fé.
Se os "nuestros hermanos" podem contam com o super-juiz Baltazar Garzón, logo fomos encontrar um sósia luso de nome Carlos Alexandre que, qual D. Quixote, está mandatado por todos nós para, unicamente  e só, assumir todos os casos inerentes a crimes de "colarinho branco" que coincidentemente invadiram os nossos tribunais e as nossas vidas (por especial favor dos orgãos de comunicação social).
Não sei se esta série de casos tornados públicos, que florescem quase que semanalmente, e a publicitação imediata de detalhes que em teoria deveriam manter-se em segredo de justiça, são pura coincidência ou se revelam, como já se diz, um aflorar iceberguiano de tensões e conflitos generalizados entre os variados atores e grupos de influência e de poder com interesses em Portugal.                                                                  
A verdade é que, se a legislação em vigor não mudou e os vícios e excessos de poder se vêm mantendo, torna-se estranha tamanha atividade das entidades policiais e judiciais, nesta saga de aparente dignificação do estados e dos seus agentes, logo após décadas de impunidade afrontosa e cumplicidades multiplas aos olhos de todos.

Sem por em causa a capacidade técnica e a coragem do juiz Carlos Alexandre, ressoa-me na cabeça o ditado popular que aconselha a “não por os ovos todos no mesmo cesto”.

Será que dentro dos quadros judiciais deste país não existirão mais magistrados competentes e com coragem para acompanhar estes processos?

Será que com toda a afluência de processos recentes atribuída ao mesmo magistrado não se estará a contribuir que tudo se mantenha na mesma?

Será que não nos estão a dar um presente natalício antecipado, na forma de um fogo de artifício de escandalos palacianos, para dispersarem as atenções sobre lutas intestinais pelo poder?

Eu falo por mim: gostaria de passada a tempestade recuperar a confiança no meu País, nos simbolos nacionais (e organismos que o representam) e no futuro de todos nós!

Terra-Chã, 27 de novembro de 2014

Paulo Vilela Raimundo

 

Oh castradora trilogia!...

Já nem chega a ser novidade quando manchetes negativas e condenatórias invadem generalizadamente os meios de comunicação social nacional, relembrando-nos os motivos que nos levaram ao ponto (aparentemente) sem retorno em que se depara o nosso país.

Recentemente fomos confrontados com um bloqueio da globalidade do sistema judiciário, como resultado de uma reforma judicial precipitada e de um malfadado programa de gestão processual centralizado (Citius), que durante mais de um mês suspendeu, como num limbo, processos a decorrer nos tribunais nacionais, criando obrigatórios constrangimentos e prejuízos múltiplos que assolaram todo o território português, sem exceção.

Numa tentativa frustrada de dissimular a irresponsabilidade política pelas (más) decisões tomadas e de manipulação pública (como alguns defendem), prontamente se procuraram bodes expiatórios (nas pessoas de dois elementos da Polícia Judiciária requisitados pelo Ministério da Justiça para desempenhar funções na área da informática) envolvendo-os num processo de inquérito-crime por alegada sabotagem que, sendo encerrado pelo Ministério Público por falta de fundamento, acabou por incendiar, mais uma vez, as relações da governante da tutela com a Ordem dos Advogados e demais segmentos profissionais envolvidos na polémica.

Pouco tempo depois, e com enormes riscos humanos ao nível da saúde pública, desencadeou-se na principal área metropolitana nacional (no concelho de Vila Franca de Xira) um dos maiores surtos de Legionella de que há memória no globo.

Fruto de desleixo industrial algo generalizado, acobertado por prováveis estratégias economicistas e como resultado da negligência de uns poucos, assistimos nos últimos dias à contaminação de uma vasta área territorial, provocando a contração de uma doença que afetou gravemente o sistema respiratório de mais de três centenas de nossos concidadãos, dos quais já morreram perto de uma dezena.

Como se não bastasse, eis que surge nas últimas horas um novo sobressalto criminal, desta feita associado ao deslumbramento de novo-riquismo conhecido entre nós como os vistos Gold, a que terão acesso os cidadãos estrangeiros que possam comprar (ou fingir comprar) os direitos de livre circulação no Espaço Schengen.

Num processo (algo kafkiano) de corrupção ao mais alto nível do estado português, e como consequência da mega operação “Labirinto”, assistimos atónitos à prisão de onze suspeitos por múltiplos crimes de “corrupção, branqueamento de capitais, tráfico de influência e peculato”, entre os quais se encontram o diretor do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), o presidente do Instituto dos Registos e Notariado (IRN), a secretária-geral do Ministério da Justiça, a secretária-geral do Ministério do Ambiente (e sócia do Ministro da Administração Interna e do ex líder do PSD Luís Marques Mendes) e alguns outros… a que surpreendentemente se associam “colaborações amigas” de personalidades (e/ou serviços do Estado) como o responsável máximo do SIS e de funcionários na sua dependência na limpeza de alegado lixo informático que, protegendo (?) os suspeitos, dificultaram o esclarecimento integral da verdadeira dimensão desta rede e das consequências dos atos criminosos eventualmente cometidos.

Tudo isto num país que se diz democrático, respeitador do direito instituído e empenhado numa recuperação rápida e eficaz da situação intolerável em que se encontra…

Muitos de nós pensarão: Em que raio é que poderei confiar?

Não existindo respeito e confiança nos símbolos nacionais e nos múltiplos (e muitas vezes tentaculares) segmentos do Estado, nem real alternativa exigida frontalmente por toda a sociedade civil, seremos forçosamente obrigados a concluir que, deste modo não chegamos lá!

Terra-Chã, 15 de novembro de 2014

Paulo Vilela Raimundo

 

Mais um Dia Mundial desperdiçado…

No dia em que esboço esta reflexão escrita comemora-se o Dia Mundial da Poupança.

 

Esta efeméride, que foi instituída durante o primeiro Congresso Internacional de Economia, que decorreu em Milão no ano de 1924, teve como objectivo “sensibilizar os consumidores para a necessidade de disciplinar gastos e de amealhar alguma liquidez, de forma a evitar situações de sobre endividamento”.

O problema português e, de algum modo, global é que actualmente não há como poupar, pelo simples facto da retribuição normal do trabalho não ser suficiente para cobrir as despesas obrigatórias das famílias.

Com o “acordar forçado” a que generalizadamente fomos obrigados pelo crash financeiro de 2008, deparamo-nos com uma imposição anticonstitucional ficcionada, materializada à custa de medidas legais avulsas e de duvidosa temporariedade, que reduziram as contrapartidas remuneratórias dos trabalhadores no ativo, cortaram nas reformas de quem trabalhou toda a vida (para garantir o seu futuro no ocaso da vida) e, mais grave do que tudo, vem hostilizando o trabalho de um modo, no mínimo, irresponsável.

Numa sociedade que, fruto de estratégias castradoras e massificantes, vive condicionada e formatada para “sonhar” com subsídios e só demonstrar alguma iniciativa em função de alegados incentivos regionais, nacionais e/ou comunitários, teimamos sistematicamente em negligenciar a única fonte geradora de riqueza que é o trabalho.

O “roubo” da iniciativa individual e privada, levado a cabo pela dependência tentacular dos financiamentos “dos outros”, o desemprego que (mesmo com o decréscimo percentual recentemente conhecido) ainda ronda os 13,6% da população ativa e a ânsia persecutória de cobrança de impostos em setores que, sem retorno fiscal significativo, sempre foram o garante complementar de algum conforto financeiro para as famílias, fazem com que estas fiquem inibidas de poupar e, mais grave do que isso, se encontrem há vários anos a consumir as parcas poupanças que (hipoteticamente) tinham acumulado.

Se é opinião generalizada e “politicamente correta” dizer-se que o envelhecimento do país, as competências e as qualificações da população e a crónica falta de capital das empresas constituem o principal desafio da actualidade portuguesa, não poderá descartar-se a obrigação de, dignificando o trabalho (e o direito de através deste se melhorar o futuro de cada um de nós), criar condições político-financeiras para que cada um de nós, pela via do trabalho, possa contribuir na geração de riqueza e na valorização/construção do futuro.

Muito se tem criticado a banca nacional e internacional pelo facto desta se vir recusando a financiar a economia portuguesa, neste período de elevados riscos de insolvências e falências, mas a verdade é que (mesmo sabendo que foi essa mesma banca, pela sua ganância que nos arrastou para este abismo) dependerá sempre (e somente) de nós a sobrevivência da nossa família e do nosso país.

Chega de nos querermos enganar, interiorizando que alguma coisa ou alguém fará alguma coisa em nosso benefício. Tal não acontecerá!

Resta-nos exigir a devolução do direito à iniciativa individual e a reposição da legislação que, cumprindo a Constituição da República Portuguesa e demais legislação anteriormente instituída, deixe de coartar a livre iniciativa e o “suado” bem-estar das famílias.

Tudo será diferente se o lema passar a ser trabalho, em substituição da fixação autista do imposto (como garante único e obrigatório da máquina estatal)!

 

Branco ou Preto?

Confesso-vos que já não posso ouvir falar em crise, conjunturas internacionais, mentiras continuadas e outros quejandos.

 

Talvez por não ser o único se replicam, no nosso quotidiano, estratégias individuais ou de grupo que, oscilando entre um conservadorismo artificialmente congelado e uma abertura de horizontes que põem em causa todo o conhecimento tido como adquirido, nos vão levando a refletir sobre o nosso papel na atualidade e sobre o nosso passado coletivo.

Se bem que a História sempre teve nuances nacionalistas, nem tudo o que se aceita como verdade será obrigatoriamente falso, podendo porém ocorrerem episódios reveladores de informações complementares que poderão corrigir algumas conclusões institucionalmente validadas.

Muito se tem discutido sobre a possibilidade de, anteriormente ao povoamento português dos Açores (Séc. XV), terem ocorrido em algumas destas ilhas desembarques de humanos, fruto das capacidades de navegação, já comprovadas, de alguns povos da antiguidade (Fenícios, Cartagineses, etc..).

Nesta fase tão lusa de discussão de possibilidades, ou de negação destas, veio até nós Sir Barry Cunliffe, professor emérito de arqueologia e súbdito da coroa britânica de renome internacional que, numa conferência proferida nos Paços do Concelho do município angrense, afirmou que esses eventuais contactos poderão ter ocorrido, face ao que hoje se conhece da capacidade de navegação em oceano aberto desses povos.

Referiu porém um aspeto que aponta para a necessidade de comprovar as teorias do possível com investigação aprofundada e, caso tal seja possível ou necessário, procedendo-se a prospeções arqueológicas que as comprovem.

O cerne da questão parece-me estar aqui!

Independentemente do equacionar de possibilidades arqueológicas, e não pondo em causa a credibilidade dos pensadores e o seu empenho na investigação documental, a verdade é que até esta data não existem quaisquer artefactos conhecidos ou documentos de reconhecido mérito histórico que atestem sinais de ocupação das ilhas atlânticas portuguesas anteriores ao povoamento luso iniciado no século XV.

Paralelamente, e segundo julgo saber, não têm sido solicitados os necessários (porque legalmente instituídos) pedidos de autorização para realização de prospeções arqueológicas ao departamento do Governo Regional dos Açores que tutela as matérias de cultura, o que demonstra algum desinteresse ou indisponibilidade para, cientificamente, comprovar ou rejeitar essas mesmas hipóteses.

Consciente das potencialidades que o conhecimento histórico e aprofundado teriam num território que se pretende afirmar como destino turístico cultural, (e envolvendo neste exercício de investigação a Universidade dos Açores, o Governo Regional dos Açores, as autarquias e os investigadores interessados) será de evitar que a insistência numa discussão extremada nos afaste da busca do verdadeiro conhecimento.

Eu e a assembleia interessada, da passada quarta-feira, fomos confrontados com uma verdade universal: a noção de realidade passa obrigatoriamente pela comprovação inequívoca de uma teoria, por muito sólida que esta seja.

Queremos conhecer o passado ou ficar-nos-emos pela discussão coloquial das hipóteses?

 

Olhando em redor 55

O perigo é ter MEDO

Se quisermos parar um pouco e pensar, concluiremos que “o medo é a emoção primária fundamental” (Manuel Castells/sociólogo brasileiro) que vem condicionando toda a nossa história coletiva.

Tem sido por demais recorrente o recurso à exploração/cultivo do medo nas camadas menos informadas da população, para através da construção artificial de mitos e fantasmas, continuar a gerir o futuro coletivo como um feudo, propriedade de uns poucos.

Não sendo segredo que, os melhores antídotos contra o extremismo são o diálogo e a cultura, a verdade é que o fanatismo e a subserviência medram especialmente em meios em que o termo liberdade não possui tradução prática, permitindo o crescimento dos extremismos através da manipulação pelo medo.

Se todos conseguimos “apontar o dedo” aos casos extremos ditatoriais, como o da Coreia do Norte ou do mais recente fenómeno do Estado Islâmico (EI), onde se cultivam ódios generalizados contra todos aqueles que não concordam com uma visão única e simplista do mundo contemporâneo, a verdade é que também nas nações alegadamente democratas se recorre ao cultivo da apreensão e à chantagem para, propiciando a desorientação e a angústia, inibir a busca de opinião individualizada face ao futuro que há que construir.

Em Portugal, como um pouco por todo o mundo ocidental, dito democrático, assistimos a um distanciamento excessivo entre os detentores do poder político-administrativo e a população que deveria servir e defender que, segundo indicadores recentes do Eurobarómetro, leva a que a quase totalidade dos portugueses não confiem nos partidos políticos e nos políticos de um modo geral.

Embora com contornos variados e intensidades distintas, teima a sociedade contemporânea em esquecer o que nos foi ensinado pela Grécia antiga que, ao associar a democracia e a filosofia, constituiu a primeira sociedade baseada na verdade e na justiça.

A persistência na instilação do medo, demonstrada claramente pela classe política, estando a matar a credibilidade dessa alegada elite que deveria conduzir os destinos das nações, encobre um profundo e impune jogo de irresponsabilidades, levando através de uma “espiral de ressentimento difuso que leva os homens a combaterem pela sua servidão, como se tratasse da sua salvação” (Baruch Spinoza).

Contrariando o conhecimento (académico e social) adquirido, e em prejuízo da estabilidade económica e das políticas inclusivas, continuamos a demonstrar uma incapacidade gritante na produção de reformas institucionais eficazes e na erradicação dos tiques não-republicanos (quase diria: de monarcas absolutistas…) dos nossos gestores públicos.

O parcelamento de setores estratégicos da economia nacional e a sua alienação a multinacionais e/ou a grupos de poder, associado a uma promiscuidade excessiva entre o poder e a comunicação social, tem facilitado a consolidação do corporativismo, ao descrédito e consequente enfraquecimento do funcionalismo público e a uma verdadeira corte de eleitos que partilham privilégios nas cúpulas do poder.

De tudo isto resulta a ineficiência provocada dos serviços públicos, a impunidade cínica perante a corrupção, a justiça diferenciada em função do estatuto social, … e a paralisação do país pelo medo.

O afastamento estratégico dos temas ditos fraturantes, que os partidos do chamado “arco da governação” usam e abusam, vem afastando da agenda política tudo o que é realmente importante, deixando a gestão da rés pública no marasmo da não opinião. Com esse alheamento estamos a destruir os pilares de uma sociedade que se desejaria saudável, em benefício de poucos e em prejuízo do todo.

Mesmo sabendo-se tão lusa a tendência de reclamar longe do local adequado e de omitir opinião, por medo das consequências que daí poderão advir, não poderemos esquecer que “estamos todos no mesmo barco” e que a omissão de hoje poderá levar ao “naufrágio” de amanhã.

Parece-me óbvio, urge convocar a esperança e, em conjunto, enfrentar o medo.

 

Em busca de um qualquer oásis

Todos nós cultivamos a busca da sobrevivência e nos tempos que correm, com todas as informações negativas que polvilham o nosso quotidiano, torna-se muito difícil continuar a caminhar, sabendo que à nossa volta um extenso deserto negro nos envolve.
Ciclicamente e ininterruptamente somos agredidos com indicadores com maior ou menor abrangência que nos dizem o que não gostaríamos de ouvir:
Que, independentemente da evolução da medicina, continuam a morrer anualmente 1 milhão de crianças no seu primeiro dia de vida e 2,8 milhões no primeiro mês (conforme relatório recente da UNICEF).
Que, segundo o relatório sobre insegurança alimentar no mundo, recentemente divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), uma em cada nove pessoas passa fome no mundo.
Que, não bastando todo esse sofrimento infligido a quem não tem sequer esperança, grassa um pouco por todo o globo focos de instabilidade propiciadores do regresso dos cavaleiros do apocalipse.
Como que comprovando os conceitos taoistas Yin e Yang, que justificam a dua­lidade universal como “duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas”, descobrimos surpreendentemente o projeto filantrópico Giving Pledge.
Este projeto, iniciado em 2010 pelos bilionários Warren Buffett, Bill e Melinda Gates, começou por ser direcionado aos cerca de 400 dos norte-americanos mais ricos, detentores de fortunas pessoais que no seu conjunto totalizam um montante equivalente a dois triliões de dólares, evoluindo para uma abrangência planetária, que em maio deste ano já contava com 127 bilionários associados, disseminados pelos cinco continentes.
O objetivo deste grupo de eleitos cinge-se ao compro­misso pessoal de cada um deles, em doar (para efeitos de combate à pobreza, doença e demais vertentes que promovam o desenvolvimento), no mínimo, metade das suas fortunas para que o futuro se mostre mais risonho e tolerável para os menos favorecidos, justificando o que já é considerada como a era dourada da filantropia.
Em alguns casos, como no respeitante a Warren Buffett, essa percentagem atingirá os 95%, ficando ao critério dos doadores a seleção da(s) causa(s) que pretendem financiar.
Recorde-se que, fruto da disponibilidade financeira de alguns dos membros do Giving Pledge, já se comprova um retrocesso de algumas doenças graves que assolam partes do globo, como por exemplo a poliomielite que se encontra praticamente erradicada, em resultado do esforço financeiro desenvolvi­do pelo casal Bill e Melinda Gates.
Não deixa de ser curioso e motivador, o desprendimento demonstrado por pessoas que dedicando a sua vida ao acumular de riqueza, para agora se disponibilizarem a doar grande parte desse património aplicando-o em causas meritórias e potenciadoras de um futuro melhor para a Humanidade.
Em período em que os governos não conseguem garantir a defesa dos interesses e dos direitos dos seus concidadãos serão sempre bem-vindos os gestos altruístas que, combatendo males e colmatando insuficiências, nos devolvem alguma esperança no devir.
É sempre bom ver alguma luz no fundo do túnel!

 

Olhando em redor 51

Zelar ou postergar?

No rescaldo do IV Encontro Técnico da Rede de Proteção e Valorização dos Centros Históricos, promovido pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e acolhido pelo município angrense, proponho-vos, em termos de revisitação, a análise da nossa responsabilidade coletiva e indeclinável no estudo, preservação, manutenção e (re)utilização  do património edificado, como único garante de futuro para o que chegou até aos dias de hoje.

Terminado, desde meados de 2012, o inventário do património imóvel dos Açores, encontram-se reunidas todas as condições para que o aprofundado trabalho desenvolvido seja valorizado pela reanálise da lista dos imóveis da região, com vista a uma melhor consciencialização dos valores e dos riscos que estes acarretam.

Entre os imóveis estudados encontra-se a Fortaleza de S. João Baptista (também referida como Castelo de São João Baptista, Castelo de São Filipe, Fortaleza de São Filipe ou simplesmente Fortaleza do Monte Brasil), localizada em posição dominante sobre o istmo da península do Monte Brasil, no lado ocidental da baía de Angra (Imóvel de Interesse Público, Decreto nº 32 973, DG, 1.ª série, n.º 175, de 18 agosto 1943 / Incluído na Zona Central da Cidade de Angra do Heroísmo).

Iniciada a sua construção durante a dinastia Filipina (1580-1640), sob projeto do italiano Tiburcio Sapnochi (1590), chega aos nossos dias como uma das maiores fortalezas militares atlânticas, que tendo sido edificada com o intuito de proteger os navios vindos das Índias e das Américas, manteve a sua importância militar, estratégica e política até 1939 (ano em que o Comando Militar dos Açores foi transferido para S. Miguel).

Como muitos saberemos, a Fortaleza de S. João Baptista é hoje ocupada/utilizada pelo Regimento de Guarnição nº1, dependendo diretamente do Ministério da Defesa, do Governo da República.

No seu interior existe (ainda…) a igreja de S. João Baptista que foi a primeira igreja a ser construída em Portugal depois da Restauração (1645), mandada erigir pelo rei D. João IV logo após a rendição das tropas espanholas.

…e é sobre esta igreja que vos gostaria de chamar à atenção!

Como poderão constatar, e embora tenha sido reconstruída com alguma profundidade após o sismo de 1980, verifica-se que esta enferma atualmente de graves fragilidades estruturais que, nada se fazendo rapidamente, poderão levar à sua ruína.

Fruto da erosão salina, e de eventuais negligências na sua “recuperação/reconstrução”, a verdade é que a degradação dos elementos pétreos exteriores já não pode ser ignorada, tendo afetado variados elementos estruturais e/ou decorativos (cunhais, lintéis, etc.), obrigando a que os militares (e bem) já venham condicionando a circulação nas sua envolvente, face ao risco real de derrocada eminente.

É nestes casos, em que o interesse coletivo diverge das estratégias político-partidárias ou das agendas setoriais do poder instituído, que nos devemos unir em torno do que é realmente importante, ultrapassando os meandros kafkianos das responsabilidades e exigir a preservação do nosso passado coletivo.

Perante um conjunto edificado de inegável importância arquitetónica e histórica, que claramente extravasa a dimensão simplesmente nacional, e que justificadamente deveria forçar a análise de uma possível reclassificação como monumento nacional, não poderemos permitir que se mantenham as condições de degradação de uma das suas principais componentes.

Sendo verdade que “não há futuro sem memória”, desafio-vos a defender a Igreja de S. João Baptista.

 

Em vossa casa levam o carro para a sala?

O sol, o calor e as férias são propícios a passeios a pé, a um abandono físico de “lagartixa” pelos bancos de jardins e esplanadas... enfim, permitindo-nos fazer um ajuste de contas merecido com o nosso corpo e mente.

Ao arquipélago, que gene­ralizadamente reverenciamos, acorrem inúmeros turistas e viajantes que, não conseguindo resistir a essas benesses sazonais, se juntam aos locais no usufruto dessa paz e equilíbrio que o astro rei e a natureza nos oferecem.
Só que, como não existe belo sem senão, a omnipre­sença do automóvel tende em afrontar todo esse ambiente idílico, invadindo passeios e praças, jardins e zonas balneares, como se o instrumento que nos deveria conferir maior qualidade de vida tivesse tomado a dianteira, subjugando-nos à sua obrigatória adoração.
Bem sei que este fenómeno não ocorre apenas nos Açores, nem sequer unicamente em Portugal, mas o que me parece apropriado (quando unanimemente se fala em turismo e qualidade de vida na Região) é que cada um de nós, recorrendo aos resquícios de civismo que deveremos ter inseridos no nosso ADN, nos sujeitemos a dar alguns passos, estacionando o nosso carro em local apropriado, deixando as zonas pedonais e de lazer para a função que lhes foi atribuída.
Se nos colocarmos no papel de quem nos visita, gostaríamos de almoçar numa esplanada inserida em local idílico, envolvida em cenário marítimo (marina, barcos, gaivotas,...), de onde afinal não se consegue usufruir da paisagem pelo facto desta se encontrar entrincheirada de carros no seu redor?
Como se sentiriam se, ao passear a pé pelas vilas e cidades açorianas, tivessem de amiúde caminhar pela estrada, devido ao facto do passeio estar obstruído por carros aí estacionados?
Imaginam o que significa querer usufruir de um miradouro fabuloso e tal não ser possível, pois alguém (porque tinha alegadamente pressa) decidiu saltar o lancil e estacionar a sua viatura junto à vedação para gozar a vista do seu interior?
Enfim, é essa a nossa realidade e é sobre ela que temos de trabalhar.
Assumindo que pequenas deslocações a pé até fazem bem ao nosso organismo, e que não podemos recorrer ao argumento de que pode chover (num período em que essa probailidade é reduzida), talvez tenha chegado a hora de assumir a diferença e demonstrarmos a nós próprios que sabemos valorizar o que é nosso, respeitando esse recurso e respeitando o próximo.
E que tal darmos os primeiros passos?

Paulo Vilela Raimundo

 

A nossa noção de RISCO

Desde que o mundo é mundo que existem fatores de risco associados ao meio onde vivemos e que, em caso de ocorrência, interferem profundamente com o nosso quotidiano.
Em vários pontos do globo a estratégias dos seus povos passa por, antevendo as fragilidades potenciadoras do risco, acautelarem antecipadamente os seus efeitos, minorando assim os eventuais prejuízos que daí podem advir.
Para nós tudo é diferente!
Interiorizámos que se não pensarmos nos assuntos eles deixam de existir e que a sua probabilidade de ocorrência se esfuma no ar.
Nesta região, e à semelhança do que deparamos na generalidade do nosso país, fenómenos como a sismicidade vulcânica, as infestações de térmitas, … a doença e a morte são tendencialmente ignorados, pela simples razão que não queremos que aconteçam.
Deparamos à nossa volta que, mais depressa se inicia uma remodelação interior de uma cozinha ou quarto de banho, do que se reforça a estrutura intrínseca dessa habitação, de modo a dotar essa construção de características antissísmicas que garantam a sua solidez em situação de ocorrência de sismo.
Não bastando os casos recentes dos sismos de 1980 (Terceira, S. Jorge e Graciosa) e de 1998 (Faial e Pico), que em segundos destruíram o labor de várias gerações, continuamos alegremente a esquecer que grande parte das construções existentes na Região, incluindo uma longa lista de imóveis classificados, não possuem características que os façam resistir aos sismos que, em caso de ocorrerem, poderão levar á erradicação definitiva de grande parte desse património construído e herdado dos nossos antepassados, arrastando com eles eventuais vidas humanas.
No respeitante a pragas, como as infelizmente famosas térmitas, constata-se que embora o fenómeno já seja do conhecimento generalizado da população açoriana (há mais de uma década), pouco ou nada se tem feito com vista ao acautelamento de bens e ao controle da propagação destas.
Embora o conhecimento académico tenha sido aprofundado, e bem, pelos cientistas ligados à Universidade dos Açores (cumprindo-se assim o papel de uma universidade proactiva em defesa do seu universo natural e arquipelágico) e a legislação regional aplicável já exista (em versão melhorada face a regulamentos anteriores), a verdade é que, também desta vez, pouco ou nada se tem feito.
A legislação disponível não foi implementada por motivos vários e os responsáveis/proprietários dos bens imóveis e móveis passiveis de infestação continuam a nada fazer, nos campos do tratamento e da prevenção.
Também desta o risco é enorme, assemelhando-se sobremaneira ao dos sismos anteriormente abordados.
Termino o raciocínio com algo incontornável para qualquer de nós: a doença e a inevitável morte.
Sendo a morte uma inevitabilidade incontornável, todos nós poderemos adotar procedimentos e condutas mais cautelosas e preventivas.
Em período de férias onde, independentemente da nossa capacidade financeira, nos é dada a possibilidade de fazer uma pausa e reequacionar o que queremos da nossa vida, talvez fosse ajuizado olharmos de frente os riscos que se nos avizinham, acautelando os nossos e o que é nosso, para o bem de todos.
É esse o repto que vos lanço, com votos de umas boas férias!

Paulo Vilela Raimundo

 

O Preço da Paz

Três faces da mesma moeda

Num mundo em permanente convulsão, e com a proximidade que a atual comunicação social nos proporciona, somos surpreendidos negativamente no nosso quotidiano pleno de voyeurismo indolor e inconsequente, por realidades dolorosas e aparentemente irresolúveis que, nos deveriam alertar para os riscos a eles associados e às motivações que realmente os fundamentam.
Os casos que abordarei em seguida constituem por si só exemplos de situações onde interesses setoriais acabam por prejudicar gravemente a gene­ralidade das populações que, em alguns casos, se arrastam ao longo de várias gerações.
Se os jogos de poder político-financeiro sempre foram uma constante da nossa História, a verdade é que, os riscos atuais, reforçados pela globalização do capital e pela subjugação dos governos ao interesse desse poder indefinido mas sempre presente, são cada vez mais pe­rigosos por criarem verdadeiros focos de contágio belicista numa aldeia global onde muitos de nós apenas tentam sobreviver.

Conflito
israelo-palestiniano

Desencadeados após a queda do império Otomano, e com especial incidência desde a criação unilateral do estado de Israel (1948), que os conflitos no Médio Oriente se arrastam, não por motivos religiosos (como se pretende fazer acreditar), mas esencialmente por uma questão de recursos hídricos, uma vez que as maiores reservas de água da região se encontram localizadas sob os famigerados Montes Golan.
O estabelecimento de um lar judeu na Palestina, como compensação do sofrimento vivido pelos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, é quando do Holocausto, foi a solução encontrada, em 1947, pela então recém-fundada ONU, sem que préviamente fossem ouvidos os povos árabes da região, provocando um novo foco de tensões que hoje ainda subsiste.
Ao longo de já seis décadas que os israelitas, contando com o apoio político e financeiro dos paises ocidentais (EUA, Reino Unido e demais aliados da 2ª Guerra Mundial), se impõem na região, travando um verdadeiro confronto de “Sansão contra Golias”, onde os palestinianos recorrem às pedras (Intifada) para lutar contra um potencial bélico, muitas vezes, de última geração.
Os desiquilibrios políticos resultantes da redução dos fluxos monetários que ao longo do passado recente vêm financiando ambas as partes, provocam sistemáticamente um agravamento das tensões, arrastando os dois países para um confronto fronteiriço que nos últimos dias já provocou a morte a centenas de civis palestinianos.
Sabendo-se que em guerra exis­tirão sempre os chamados “danos colaterais”, a verdade é que neste caso estão a ser bombardeadas áreas residenciais sem qualquer infraestrutura militar que justifique o “erro”, matando-se civis (homens, mu­lheres e crianças) como estratégia de isolamento e desmora­lização das posições do Hamas.

Ucrãnia
País charneira entre blocos

Com o fim da Gerra Fria e a dissolução do antiga URSS temos vindo a assitir a um enfraque­cimento evidente da Rússia e do seu poder financeiro e geo-estratégico no globo.
O acentuar da crise financeira mundial vem empurrando os decisores do Kremlin para estratégias de saudosismo imperialista que, pacificando internamente os seus eleitores com o recurso a sonhos ficcionados de reconstrução do poderio anterior à Glasnost, contrapõem uma ascendência arrogante dos EUA (e dos seus parceiros da EU) na condução dos destinos do planeta.
Nesta triste história, a Ucrãnia acaba por se tornar num país localizado no sítio errado, na época errada, com a agravante de ter uma série de insuficiências energéticas e financeiras que a tornam sempre dependente de interesses externos e numa verdadeira “terra de ninguém”, onde os direitos dos seus ha­bitantes se diluem face aos inte­resses desse território fronteira entre o ocidente (UE) e a região do Báltico (Rússia).
Face a um “namoro interesseiro” da União Europeia, e a uma hipotética integração na NATO, a Rússia recorrendo a estratégias separatistas e fraticidas instigou uma situação de verdadeira guerra civil, com clara ingerência contra os poderes instituídos, na forma de apoio direto aos grupos separatistas pró-russos, que culminou no caso mediático o abate do avião comercial da Air Malásia, que nos vem mantendo colados aos televisores.
Instantaneamente se levantaram múltiplas vozes, com discursos contraditórios e sempre algo falaciosos que, tentando justifi­car a “realidade” ficionada, com argumentos que cruzados com outros, induzem à conclusão que ninguém se entende e que a verdade simplesmente não existe.
Configura-se neste caso mais um país “à venda, enquanto se aguarda a clarificação e a origem da melhor oferta (se a Rússia com o gás natural e demais prebendas ou a EU/EUA com as promessas de integração no eldorado ocidental), se arrastará um conflito que atingirá diretamente as populações civis (residentes e em trânsito), destruindo a sua identidade como povo, os seus sonhos e a sua realidade social.

Timor Leste

Sob a égide da visita de altos dignitários portugueses à ex-colónia de Timor, veio a lume uma preocupação que tende a materializar-se e que poderá levar ao reacender de conflitos tribais e de lutas de poder que, não sendo travados atempadamente poderão levar ao fim deste jovem país remoto, onde ainda se fala (pouco) o português.
Diz-se agora que o decréscimo das receitas provenientes do petróleo e do gás natural, que até aqui foi direcionado para comprar vontades e manutenção de uma paz podre no território timorense, associado a um provável afastamento de Xanana Gusmão da gestão dos destinos nacionais, poderá causar um vazio de poder e uma nova si­tuação de guerra civil.
Depois da miragem que foi globalmente difundida, segundo a qual se garantia a autossuficiência financeira deste pequeno país através das reservas petrolíferas existentes nas suas águas territoriais, acordam-nos agora bruscamente informando que o fundo do petróleo está a acabar e que os proventos da efémera exploração não foram aplicados na economia e sim nos barões do poder e nos seus apaniguados.
Mais uma vez somos forçados a pensar que: “A paz é um assunto demasiado importante para ser entregue apenas aos políticos.”
Longe vão os tempos em que as resoluções das pendencias políticas entre povos se resolviam com o confronto físico dos seus líderes. Porém, não é admissível que sejam os inocentes a pagar com os seus bens e a sua vida a ambição do poder.
Estarão os governantes dos G8, BRIC, G20 e demais lobies de poder mundial conscientes do caldeirão de tensões atualmente existentes no globo terrestre?
Nas condicionantes que estes “senhores da guerra” valorizam e veneram, estarão incluidos os povos que por cá habitam?
Em período de resseção e de escassez monetária global, até quanto se manterão simplesmente regionais os conflitos que tendem a generalizar-se, recriando uma nova abertura da “Caixa de Pandora”?

Paulo Vilela Raimundo