O melhor jogador da minha vida

A brincadeira acabava sempre com a minha tristeza e comigo a dizer: “a bola foi para o cerrado”. Lembrei-me hoje de recordar uma das brincadeiras que tinha com o meu pai: jogar futebol. Eu ia sempre à baliza, porque não conseguia chutar a bola com a intensidade correta, muito menos entusiasmar os momentos com os famosos chapéus ou golos à craque como o meu pai experimentava e quase sempre conseguia. Ele chutava forte, mas devagar o suficiente, para eu tentar fazer sempre a defesa e transbordar alegria por ter conseguido anular um golo daquele que eu achava ser o melhor jogador da minha vida.

Tirava-o do sofá e íamos para a frente da casa. Chutávamos longos minutos. Não tinha nada de especial, mas era um momento único. Começava a imitar guarda-redes do futebol mundial, desde o Casillas ao Buffon. Relatava o que se passava ali. Dava nomes ao meu pai, dos jogadores que mais gostava. Embarcávamos para os grandes estádios, em sonhos que só eu tinha naquela idade.

Ali à tardinha, no calor de Verão, não havia melhor do que experimentar jogar futebol desta forma tão adorável. A minha irmã tentava mostrar os seus dotes, mas a bola teimava a fazer movimentos estranhos e ia parar mais cedo ao lado do vizinho. Eu era quase sempre o azarado porque tinha de ir buscar a bola ao outro lado para que continuássemos a poder rematar. Era o mais pequeno e o que, no fundo, mais queria jogar.

Cada remate do meu pai era amor pelo ar, que eu abraçava, ao agarrar a bola.

São estes os momentos que guardo do meu pai. Não tenho um único mau.

Para mim, ele era o melhor jogador de todos.

 

O Reencontro

Dizia-me hoje o meu vizinho que eu tinha de falar sobre ele como humilde senhor que era e como banal poeta popular que foi. No seguimento, de um convite especial, para que eu falasse dele a pessoas antigas que o conhecem há mais tempo do que eu, mas mesmo assim eu aceitei. Convite feito para a apresentação de seu livro. A poesia do que vem da terra brota dela e recria-se num jogo infinito de beleza estética. De doçura sapiente. De simplicidade sagaz. No meu entender, o vizinho da minha canada, é o exemplo do poeta que deambula pelos atalhos das suas hortas, fazendo poesia no íntimo, e mostrando-a sem ninguém a ver. E ele nem sabe a poesia que faz, nem a plenitude que alcança a sabedoria incutida em folhas lidas pelo vento que lhe passa no palheiro.

Choravam os meus amigos velhinhos, pela falta que fazia nas nossas longas conversas de sábado à tarde, à beira da estrada da Canada da Fonte. Sabia que não se riam por eu não estar na ilha, mas recordavam-me na amizade que lhes tinha, em que a maneira de exteriorizar, era pela lágrima pequena. Fiquei contente por tê-los visto hoje. Iguais estão. O tempo passa, a velhice continua, mas não mata. De ficar orgulhoso, por regressar e ver vivos os vizinhos, com quem eu aprendo mais do que em muitos anos na escola.

O que direi eu, no dia de falar sobre o homem? Escrevo o que digo ou digo o que penso? O homem é importante para mim, por muito que seja esquecido pelas ruas onde passou e pelas pessoas que o acompanharam outrora. O homem, que me chama senhor doutor à chegada e à partida, vê-me como sabedor nato de tudo. E eu ignorante falo da ignorância que tenho. O poeta das hortas, que cava fundo na poesia, reencontrou-me hoje.

Bom foi o reencontro com os meus amigos velhinhos da canada.

 

História a minha ciência

Poderia relativizar os factos que nem dou conta do relativismo incutido em cada pensamento pensado, em cada frase escrita ou dita. O facto é tão relativo e subjetivo, que penso até, não haver objetividade que valha e que possa combater a subjetividade. Eu estudo História. História é um conjunto de factos. Mas mais do que isso: é feita todos os dias, com base em reflexões nossas, acerca dos tais factos. História não é uma ciência do passado, mas do presente e do futuro, que busca no passado a compreensão dos factos presentes e futuros. Eu não gosto do ensino, em História.

Pensava eu: faz sentido ensinar a missa ao padre? Faz sentido ensinar o pescador a pescar ou faz sentido ensinar o cirurgião a operar? Penso que não. É como querer responder a uma pergunta de um professor universitário, que é sabedor por excelência sobre aquilo que está a ser tratado, e não dizer nada que ele não saiba. Nada do que fazemos em História parte do decorar factos. Do querer saber tudo sobre o que passou antes de nós termos consciência histórica. Do saber todas as datas possíveis e imaginárias. História é perfeita pela reflexão que fazemos e não por causa de um conhecimento imposto, assimilado à força.

Hoje conheci a parte da História mais interessante, mas também aquele lado que é menos importante: o da suposição histórica. No estudo factual de algo, que por ser factual é porque é daquela maneira e não há que supor outra veracidade que não seja a verdadeira, o “se” é inútil. Para mim nada melhor do que um “se” para fazermos reflexões mais corretas e honestas. É na vida até, que o “se” se assume relevante. Aquilo que se chama História alternativa é a tipologia histórica mais engraçada porque nos leva a assumir pensamentos absurdos e até mesmo rocambolescos.

É impossível saber História. No mínimo, é possível compreendê-la.

 

Onde anda a educação

Os velhos são velhos. Não há que ofuscar a realidade permanentemente. Embaciam-se os termos ditos e escritos, para ofensas serem imediatamente evitadas. Se as palavras saírem mais cedo da boca, num suposto desrespeito a quem é mais antigo, pelo simples uso do velho como associação clara à idade avançada, rotulados ficamos por sermos malcriados. Julga-se a velhice pelo seu lado velho. E o seu lado novo? É o início da vida. A vida começa quando somos velhos da cabeça, e teimosamente, velhos do corpo. O chamar velho a quem o é, é má educação de facto. Sê-lo-á também, uma enorme falta de respeito, chamar canalha a um adulto ou crianças, a jovens crescidos. 

Senhor ou senhora, antes do nome próprio de cada pessoa, é mais uma das formas de tratamento que se aproximam dos limites da educação de cada um de nós. Esgoto em mim, as incertezas dos outros, bem como os desejos de quem se dá comigo. Por certeza, que essa é minha, a quem me é mais velho, imponho o rótulo de senhor ou senhora. Manifestam-se os que não querem ser velhos, pela minha educação exagerada.

No entanto aquilo que se acha ser educação hoje, não era, nem nunca seria possível ser a educação dos dias de ontem. O desrespeito vive em pleno convívio com a infância das crianças. Talvez por falta de bom senso ou impreparação de quem educa. Cingimo-nos à análise de quem é criança hoje e vê-se num mundo estranhamente esgotado. Nasce tecnológico. Vive tecnologicamente. A criança de hoje vicia-se mais cedo. Não brinca bem. Não conhece um aranhão no joelho ou no braço. Não parte membros. Não respira ar na rua, só o de casa. A criança de hoje vê desenhos animados sem serem falados, sem moral inerente ao final de cada episódio. A criança de hoje manda, ordena e acomoda-se bem, depois da chantagem ao pai ou à mãe. Onde andam aquelas brincadeiras de rua? Onde andam as pedrinhas que faziam de postos, para um jogo de futebol de final de tarde? As brincadeiras nas recordações orais. As pedrinhas no chão, sem serem lembradas pela criatividade.

Onde andas tu, passado?

O ser velho não é passado. O chamar senhor ou senhora a todas as pessoas que são mais velhas do que eu não é coisa do passado. Passado é a educação, não severa, mas minimamente exigente. É sentido de criação, cultivado pelos pais. É embalo conjunto e aconchego doce de quem é responsável por quem é ingénuo. Ser do tempo passado, é ser criativo e original, e nunca parar, sem brincar.

Onde andas tu, passado?

Onde anda a educação?

 

Eu sou poeta

Eu sabia que não era, quando ela disse que eu era. Nem sabia do que se tratava ou se aquilo que ela me acabava de chamar existia. Fiquei surpreendido com a intitulação repentina. Intitularam-me de poeta, sem que eu fosse um. Depois veio a justificação. Eu não era um normal. Não rimava nem fazia poemas. Não tinha o dom. Não tinha noção da métrica. Não via na poesia uma fonte de sabedoria.

Mas para aquela mulher eu continuava a ser poeta. Teimava, dentro de mim, que não podia ser uma coisa que não era. A natureza fez-me para a prosa, só que nunca para a poesia. E não havia quem escrevesse prosa em forma de poesia ou poesia em forma de prosa. Não sabia se isso existia. Eu sabia que não era autor de uma prosa poética. A mulher disse que sim e por segundos pensei que tinha havido uma inversão dos termos. Tinha confundido um poeta com um escritor.

Na altura não me fez sentido. Perdi-me na ignorância de não saber o que era um poeta. Para mim, poeta era aquele que fazia poemas. Estava enganado. Aquela mulher fez-me acreditar que eu era um poeta, sem poemas nos meus cadernos. Sem sabedoria poética. Sem nada que me fizesse um.

Eu era. Eu sou. Poeta é aquele que leva a vida a pensar poeticamente. Não vive emergido na racionalidade extrema, de não querer ser um poema vivo. Eu, poema vivo, escrevo as poesias da minha vida em prosa. E sou da prosa, sendo poeta.

Declarei-me, ao amor, a quem é poeta (não poetisa, mas poeta só), e fui poeta nessa declaração. Escrevi amor de forma poética, em prosa.

Sou poeta. Não tanto como quem o é. Mas sou à minha maneira.

 

Janeiro de 2015 um mês atípico ou sinais de mudança

O ano entrou com acontecimentos quentes a pairarem na atmosfera do Homem, pondo em evidência sinais claros do declínio civilizacional. O mês de Janeiro de 2015 completou-se com uma abrangência quase caricata de momentos sujos, que mancham o bom nome do homem e a sua dignidade. Como se houvesse mais alguma coisa no mundo de mau, que não fosse o homem assumir os seus defeitos e ativá-los nas suas vivências, porque de facto é ele o responsável pelos males que assolam toda a humanidade. Magoa-se a si. Pisa-se a si. Mata-se a si.

- O jornal

Não foi em vão que os extremistas acabaram com a liberdade de expressão de um jornal que obviamente exagerava na crítica, no humor e na ironia. O jornal matou-se. Sem que o radicalismo seja uma forma de justificar um ataque sem precedentes, choca-me o uso de chavões como o “Je suis Charlie” como forma de mascarar a realidade do que fomos, somos e seremos. O terrorismo mostrou-se forte e a diplomacia continua a ser o caminho escolhido pelo Ocidente. Ser-se Charlie foi para muitos, ser-se hipócrita.

- O Estado Islâmico

            Mostrou-se imbatível. Espalhou o medo. A expansão do EI, que nem é espacial, acontece pelo meio da intimidação. Pela difusão da insegurança, da ameaça e pelas demonstrações de força. Os seus membros nada têm a perder, quando se trata de defender a fé e a crença. A Europa da cristandade peca pela complacência para com a imigração abundante de gentes que não aceitam a vida como uma dádiva, mas como uma forma de limitar a vida aos outros com justificações inúteis, em nome da fé. A Europa sangra por dentro.

- Os americanos

            Com um discurso ornamentado e justificador das políticas tomadas, Obama espalha esperança pelo seu país e pelo mundo. Mas os americanos cultivam o colonialismo moderno, do usar e deitar fora. Do dar a importância que querem, e quando se fartem, o desprezo é o caminho seguido. 2015 foi o ano que marcou o descontrolo nas relações diplomáticas, Portugal-EUA. A BASE das Lajes foi como deitada ao lixo pelos americanos. O que pode Portugal contra a superpotência do mundo? E gritam os pobres terceirenses por atenção. Somos 60 mil sem importância para o mundo. Nem importância temos para o nosso país.

- O SYRIZA

            Nunca as eleições gregas tiveram tanto relevo em Portugal. A comunicação social esforçou-se por mostrar aos portugueses que a Grécia é um horror de país, de caos social e de insustentável controlo das finanças públicas. José Rodrigues dos Santos constatou a situação real do país, a verdadeira tragédia social, e foi como atacado pela opinião pública portuguesa, de esquerda. A complacência pela esquerda é eterna. A extrema-esquerda venceu e coligou-se com a direita nacionalista (algo surpreendente). O Syriza é o partido do momento, e por consequência, Tsipras é o homem mais falado na Europa. A esperança da esquerda europeia num partido radical? No mínimo risível. Vê-se pela implosão do partido socialista grego (PASOK). Vê-se pela baixa relevância que o PSOE (partido socialista espanhol) está a ter nas sondagens. E um PS que se serve da situação, e que queria tanto que o PASOK não fosse o partido irmão na Grécia, mas sim o Syriza.  O Syriza no poder é o populismo a ser espremido. Irá ser a constatação factual de que o extremismo não funcionará. Pensa o Podemos que é a oportunidade de subir ao poder, na Espanha. E a Frente Nacional, na França. E nós com o socialismo a voltar e a levar-nos para o buraco que tínhamos saído. Oxalá, nada disso aconteça.

 

O casaco das memórias

Quando escolhemos um casaco do armário, que já nem vestimos há tempos, estamos quase sempre condenados a descobrir indícios que nos forçam a memória. Meter a mão na algibeira, leva-nos a descobrir coisas que nem a recordação imediata faz lembrar. É ver o passado dentro do casaco, sem fazermos esforços. Ficam sempre papéis, bilhetes, pulseiras ou guloseimas.

Depois de mais uma noite de café e de passeio pelas ruas amplas da minha zona, meti a mão no casaco. Num antigo. Usei-o numa das noites da minha ilha, daquelas frias, mas amorosas. O casaco tinha Açores em si. No bolso direito tinha uma daquelas pastilhas de morango, apertada, angustiada pelo sofrimento de não sair do plástico que a cercava. No bolso esquerdo um bilhete para assistir a fados. E tinha lá escrito, para bem do meu nome, pois engrandecia mais o “Emanuel Areias”, um “Sr.”. Eu fui senhor sendo menor. Na altura, a minha idade impedia-me de ser capaz juridicamente. Nem podia magoar o fígado com sangria nem com cerveja. Tinha 17, e curiosamente, escreviam-me em bilhetes, “senhor Emanuel Areias”.

A pastilha elástica já não prestava para ser mascada. Ficou num caixote de lixo da cidade. O bilhete ficou pelo caixote de lixo seguinte. Ao menos fique senhor de Lisboa, no lixo. Moraram durante meses seguidos no mesmo espaço e foram abandonados no mesmo dia.

O que a memória foi buscar com os vestígios do passado…

O casaco ao menos foi memória construída, sem violar a cabeça com o passado do passado. A pastilha, lembro-me agora, foi comprada numa daquelas vendas de freguesia. O bilhete dos fados serviu para assistir a mais uma exibição magistral do meu fadista preferido.

Já nem sabia que tinha vivido o que vivi.

 

A grandeza do nosso umbigo

Nesta época, regozija-se o senhor pelo pouco bem que fez num ano. E a senhora, de bom grado, sorri por ter dado uma manta e uma refeição a um daqueles mendigos da rua. É só o regalo do corpo. Mas também é a humilhação do espírito. Nesta época, somos uns demagogos interiores, e agimos em virtude de datas e dos cheiros natalícios. Ficaria feio não ser mais humano nesta época do ano que chamam Natal. Mas o que é Natal? É a mentira sorrateira da boa ação humana. Acho que em pleno mês de Dezembro, tornamo-nos mentirosos. Saímos à rua, abraçando o nosso melhor amigo, sem despender um bom abraço ao nosso melhor inimigo.

São só sorrisos de momento, para dar feição positiva à quadra natalícia. Há que respeitar o nascimento de Jesus, pensam os cristãos praticantes e não praticantes. Interessa sempre ser mais humano no Natal, nem que para isso seja preciso enveredar pelo caminho do teatro social. Nestes dias, os maus da fita e aqueles que são ruins, tornam-se bonzinhos demais. É de desconfiar. Passa o dia 1 de Janeiro do novo ano, e a máscara cai. Os valores verdadeiros da maldade e da inveja subtil apoderam-se das cabeças das gentes e tem de se esperar um ano inteiro por um novo grito de falsidade de espírito.

Os rostos sorridentes dos viciados consumistas fazem crescer as receitas dos grandes centros comerciais e das lojinhas de lembranças. Cresce a economia, baixa a dignidade humana. Cresce o consumismo, baixa o amor e a amizade. Cresce a falsidade, baixa a verdade. Neste termómetro do bom e do mau, cresce o acessório, baixa o que é útil. Perde-se a humanidade para o cobarde orgulho social. Perdem-se valores para a presunção.

De ano para ano, o Natal assume-se uma objeção da vida humana. Uma época criada pelo capitalismo, que só destrói carteiras. De que vale haver um tempo específico para dar mais, para agradecer mais, para amar mais ou para ser mais amigo ou amiga dos outros. O nosso próximo que passa dificuldades no Natal é aquele que passa 365 dias do ano com as lágrimas no canto do olho sem comida e com as contas por pagar. Mas faz-se tudo por ele no Natal só porque fica bem.

Cada vez mais importa a grandeza do individual em detrimento do coletivo. Unem-se mãos por obrigação temporal e não por gosto. O nosso umbigo conjuga em si a total antipatia para com os outros umbigos. Embebeda-se na sua soberba e aproveita as festas para se divertir e sorrir muito aos olhos das pessoas.

Natal é família? Foi.

 

Terceira no Coração

Mantive-me calmo no dia em que descobri que não era português. Não sou um dos normais e partilho essa característica com cerca de 247 mil pessoas. Orgulho-me de fazer parte destes anormais portugueses. Sim, nós não somos portugueses de primeira porque em primeiro somos açorianos. É essa característica que falta aos outros cidadãos nacionais: o ser açoriano. Se eu não tivesse nascido no meio do Atlântico, nunca saberia o que era ter vivências reais no imaginário dos sonhos. Ter Açores ao peito, e honrar a bandeira e cada ilha, é ser grato aos antepassados que nos permitiram ser de lá. Nascemos no mar e na terra porque o merecemos. Porque somos distintos e únicos. Porque não somos uns mimados, que encontram tudo facilmente, sem penarem um bocadinho como nós. E o nosso esforço é sempre maior. E o nosso espírito é superior. E a nossa ânsia vencedora é enorme.

Se é fantástico ter cravado no coração, os Açores, ter a Terceira como mãe é ter colo doce. É ser repreendido nas horas do erro e ser acarinhado nas horas do virtuosismo puro. É ser dotado de dons porque a mãe transmite-nos pelo sangue. E quem nasce lá, morre cheio de orgulho por ter sido um filho afagado demais. Um filho que nas horas boas e más, teve carinhos do mar e da terra. Se a mãe é a ilha, o pai é o mar. Se do namoro entre ilha e mar, entre a mãe e pai, nascem filhos, então nós, terceirenses, somos filhos de ambos. O coração é marítimo, a razão é terrena. O corpo é uma confluência entre o mar e a terra. E nós, vivemos os nossos pais com tal alegria e entusiasmo, que nem nos lembramos das nossas mágoas. O pai serve sempre para os choros dos filhos. E quando precisamos de pensar, o melhor conselheiro é a figura paternal, e vamos para as rochas, e sentados, falamos com ele. Para o ar, as palavras são atiradas, e ele ouve-nos. As respostas são as ondas, que acalmam. A terra dá-nos tudo. É fonte de vida. Ama-nos de forma incrível. É onde vivemos. Este bocadinho de terra, esta mãe pequena e amável, chamada Terceira, flui amor por todos os seus poros.

Filhos somos de pai e mãe lutadores. Não temem terem vivido na sombra do Continente. Não temem o seu reduzido tamanho. São grandes em alma.

Que a minha saudade do pai e mãe, do mar e da ilha, e que a minha saudade dos pais reais, e que a minha saudade do verde e do azul, e que a minha saudade do natural, e que a minha saudade dos meus irmãos, e que todas estas saudades, sejam o reflexo do crescimento deste filho, que embarcou para fora, amando sempre e sempre, mar, ilha, pai, mãe, o verde e o azul, a natureza e tudo o resto que é muito para ser descrito.

Não falemos em adeus nem em saudade por preencher que não se resolve com imagens. Um terceirense que olha para lá, de fora, ama mais. Vive mais aquilo que lá está. Chora mais. Ri mais quando chega lá. Morre por dentro quando abandona de novo e ganha vida quando regressa ao calor da mãe. E adeus não é palavra de terceirense. Até já é. Saudade por ser saudade, é palavra tão feia para mim, que prefiro perder a humanidade que tenho, do que sentir isso. E é impossível não sentir, por isso sou saudosista eterno, que ama a terra e o mar. Tal como os loucos vivem a demência de não conseguirem ser normais, eu vivo a demência de não me conseguir desapegar daquilo que existe ali, no meio do oceano.

Eu sou um grande anormal por só me identificar com aquele pedacinho de terra. Um demente feliz. Um terceirense de sempre, que sempre o será.

 

Homens versus Mulheres

Numa recente discussão que tive acerca do que é ser machista e feminista, cheguei a uma conclusão: a mulher não quer igualdade perante o sexo masculino, quer sim uma espécie de superiorização, que se assenta na vingança real por elas pensada e efetivada. É perigoso agir a partir de um pretexto vingativo em relação ao coitado do homem. Partilho uma ideia semelhante à mulher. Realmente, o homem foi um grande destruidor de sonhos do sexo feminino, no passado. E hoje, a mulher tem direito a sentir-se ofendida com o homem. Por razões históricas, única e exclusivamente. Só peço que não partem para o feminismo doentio. Se o machismo foi e é um mal combatido, não se deve lidar de ânimo leve com o feminismo, só porque são as mulheres a falar e a opinar.

Eu tenho medo da disputa mulher/homem. Cada um vale por si e pelas suas qualidades. Há coisas impossíveis de serem feitas pela mulher, e que só poderão ser feitas por homens, e vice-versa. Apenas não quero que haja uma distinção de importância e significância entre géneros. Cada qual é significante à sua maneira. É óbvio que faz-se sempre uma análise estapafúrdia e generalizadora sobre as capacidades do homem e da mulher. Enche-se a cabeça dos homens com a superiorização intelectual da mulher. E tiram-nos o juízo com isso! Que são mais inteligentes e se tornam maduras mais cedo. É verdade que o físico e o psicológico da mulher desenvolvem-se mais cedo. Mas também esse psicológico fica com mais erros de fabrico. O dos homens desenvolve-se mais tarde e de uma forma mais lenta, só que no fim fica perfeitinho.

Há um contra-argumento masculino feito à mulher. O da força física. É burrice do homem usar esse tipo de argumentação porque desce ao nível da mulher, que usa e abusa do argumento da inteligência. Força física e inteligência? As mulheres estão bem mais servidas. A inteligência envolve desequilíbrios. É um facto.

O homem ocupa persistentemente as posições de poder e os centros de decisão. Já começam a aparecer mulheres a intrometer-se nessa disputa pelo poder. Ainda bem que isso se sucede. Temo, no entanto, o não entendimento entre elas. Vejamos um parlamento ocupado na maioria por mulheres. Não seria um caos total. Seria uma balbúrdia de mexeriquices e de desentendimentos acerca das roupas, dos sapatos ou dos cabelos. Tudo por causa da venta agressiva da mulher, associada à menopausa. A mulher está em permanente menopausa.

Muito sinceramente quero ver a mulher a tomar conta do mundo. Porque admiro o trato gentil com que a mulher atua. Não há bochechas descaídas e mau humor permanente nas mulheres, como nos homens. Elas apenas desequilibram-se lá de vez em quando. São sobretudo, seres dotados de qualidades acima da média. E no fundo, são um complexo delicioso que faz o homem ser feliz. Merecendo sempre, ser amadas com gestos de puro carinho e amor por parte do homem e elogiadas bastante.

A mulher é feliz com o homem e o homem com a mulher. Foram feitos um para outro desde os primórdios da existência. Não há lugar a machismos ou feminismos. Por vezes é preciso reivindicar, quando as injustiças atingem um certo limite.

Atenção que abusei do sarcasmo em relação ao sexo feminino. Sou sobretudo um grande admirador das mulheres e das suas lutas. E sou mais feminista do que machista.

 

Governo de limpeza ou Governo de sujidade?

A pergunta impõe-se, apesar de ainda estarmos um pouco longe das legislativas. Mas este suposto grito de esperança, anunciado pelos fervorosos, militantes e comentadores socialistas, bem como a parte popular que anda ao sabor do vento, leva-me a formular a questão. António Costa é a pessoa que irradia esperança, no discurso e na simplificação das situações problemáticas que atormentam o país. Um rosto da mudança, supostamente. Um dos rostos, não da mudança, mas da sujeição e do se dar à continuidade do problema. Pelo menos à reversibilidade dos problemas, até então combatidos pelos impopulares que nos governam. Retorna ao partido da oposição, a velha guarda. Os causadores do infortúnio nacional. Caras demasiado socráticas para o meu gosto. Ao menos, Seguro era um bastardo do socratismo.

A pergunta é: os portugueses querem um governo de limpeza ou um governo de sujidade?

Um governo impopular não é necessariamente um mau governo, e um governo popular não é sinónimo de ser um bom governo. A impopularidade de um governo é, de facto, atribuída por alguém, que toma a atuação dessa orgânica como má ou disforme aos interesses das pessoas, porque as consequências desse exercício de poder não são benéficas no curto e médio prazo. A longo prazo, verão que a atuação “impopular” de agora, será historicamente “popular”. Um governo popular, do dar e não controlar o que se gasta, desperta o entusiasmo nas pessoas. Eu não quero governos populares, que profetizam soluções na oposição e não as efetivam na realidade.

É o mesmo que ter um professor “baldas”, que quando vem às aulas, é simpático e senta-se de pé esticado na cadeira, sem ensinar e no fim dá positivas a todos os alunos. É uma espécie de professor popular. Contudo, não se aprende. Ou ter um professor carrancudo, barrigudo, mau, severo e rude. Mas que, efetivamente, ensina muito bem e os alunos aprendem convincentemente. É um professor temido e impopular. Contudo, aprende-se. Eu lembro-me dos meus professores exigentes, pois aprendi foi com eles. Aprende-se com a dureza da vida, e não com “paninhos quentes”.

Eu quero um governo de limpeza. Espero bem que haja a mudança de alguns produtos para continuar o trabalho de despoluição do Estado português. Talvez o produto que trata e cuida da educação, passou de prazo e precisa um novo. Talvez o mesmo se suceda com a parte da justiça. O governo da limpeza serviu até agora e bem. Limpou a sujidade que outros deixaram. No entanto, foi e é um governo impopular, com figuras criticáveis no seio da sociedade.

De governos de sujidade está o país cansado. Voltam sempre à ribalta. O esterco fica debaixo do tapete, e quando as pessoas se fartam de lixo, chamam à ação, os tais governos da limpeza. É esse o ciclo da política e da alternância partidária em Portugal. Sempre foi e será. Tenho pena que quem cuida do país, não seja reconhecido pelo seu mérito e distinção.

Os portugueses querem trabalhar pouco, descontar pouco, ganhar muito e querem um Estado Social que lhes dê tudo o que têm direito. A maioria sim. Há uma minoria significativa que tem noção da severidade do momento.

Reformulo a questão: um governo de limpeza ou um governo de sujidade?

 

Não se aprende a ser escritor...

Numa notícia veiculada pelo Expresso, o jurado do Nobel da Literatura, Horace Enghdal, dizia que a literatura, no seu estado puro e natural, está a ser posta em causa. Estava e está. Subscrevo a opinião de Horace. Realmente, a “profissionalização do ofício, as bolsas e apoios financeiros” estão a tirar o brilho ingénito de uma pessoa que escreve. Estou completamente de acordo. Para além disso, já tinha essa opinião e até tinha pensado nisso, só que nunca tinha tido a ousadia de o dizer em público. Um escritor é um observador da sociedade e está inserido nela. Não é um rato de biblioteca nem um estudioso. A escrita pura parte de nós e não do ensino das coisas. As ideias são valiosas para quem escreve e elas surgem normalmente, não sendo por isso necessário aprendizagens teóricas.

Se eu fosse livre o suficiente, e não estivesse numa sociedade que nos obriga a formar e a ser alguém (um conceito ambíguo), enveredaria pela liberdade que é escrever (não ser escritor). Só que eu tenho de sobreviver e ganhar dinheiro, logo não posso dar primazia ao prazer e à liberdade. Tenho de sonhar rente ao chão.

Ensinar uma pessoa a escrever não existe. Fazem-se escritores pelo dom, e não por cursos de escrita. Ou seja, um curso de escrita é uma desgraça autêntica. Um ataque à boa literatura. Ensinar um escritor a melhorar as suas aptidões, é o mesmo que ensinar um pintor a pintar. Um pintor é bom naquilo que faz quando possui destreza, um dom e agilidade natural para a arte da pintura. Um escritor nasce a saber escrever. Apenas falta o clique, que aparece subitamente.

Um aprendiz da escrita não chega a ser escritor. Fica sempre pelo absurdo de querer escrever bem. Toda a gente escreve! Mas nem todos são escritores. Eu escrevo, e não sou escritor. Porém, também não quero aprender a sê-lo, porque isso é impossível de ser aprendido. Ao menos vivo na sociedade e escrevo sobre ela. Não passo ao lado das coisas, e fico a escrever sobre o imaginário de um mundo fechado. Faço com que as pessoas reconheçam a realidade tal como ela é. Apenas sou um intermediário, na relação pessoa/realidade. E ando por aí, a divagar pelos caminhos, procurando explicações lógicas para as coisas.

Aprender a ser escritor, tira-nos a liberdade primitiva. É essa liberdade que faz com que os escritores não tenham obstáculos para ultrapassarem nem barreiras impostas, e possam, de facto, escrever livres, sobre tudo o que quiserem.

Um escritor ganha liberdade com a normalidade da vida. Perde-a quando a vida ganha complexidade. E quando uma coisa se torna complexa demais, o prazer em fazer algo, extingue-se completamente.

 

Telenovelas portuguesas...

Dizem que as telenovelas são vidas retratadas na ficção. Uma maneira séria de fazer transparecer para o público, as problemáticas com que nos defrontamos diariamente e muitas vezes não sabemos enfrentar. São histórias de vida com finais iguais. A telenovela portuguesa é diferente. Eu já vi e vejo sazonalmente, mas são, evidentemente, más. Num único sentido: têm muitos aspetos em comum e pouca inovação. A TVI optou pela aposta forte na ficção nacional e enche a sua programação com vidas irreais, que são vividas pelos espetadores. Em sonhos, de certeza. Quem não tem distrações ou trabalho, engorda num sofá a ver as intrigas de uma novela portuguesa e a comer uns amendoins e a beber gasosas.

Não reprovo a opção da TVI. Há que dar valor ao que é nacional, e mais do que isso, dar emprego às nossas figuras públicas. Uma história criada em virtude do que se passa na realidade, apenas tenta mostrar os podres da sociedade, quando, de facto, ninguém se apercebe dos problemas reais. Precisamos passar pelo irreal e pela fantasia, para perceber o mal que é feito no mundo real. Nesse aspeto, apoio a ficção. Apenas peço mais criatividade. Os cenários idílicos mostrados nas televisões remetem-nos para o mundo imaginário.

As novelas abordam as temáticas que estão em discussão na opinião pública. Por vezes, dão a conhecer apenas um lado da barricada. O outro não interessa ser exibido. Sei lá, já se tratou de tantos temas. A forma como esses temas são tratados, moldam as opiniões das pessoas. E os portugueses são, evidentemente, moldáveis e influenciáveis.

A empresa cor-de-rosa vive das telenovelas e de reality shows. Vive dos famosos. E quando a nossa vida não nos interessa minimamente, passamos a estar interessados nas vidas desses famosos. Algo aberrante em nós. E lemos imprensa fútil.

Aborreço-me com os finais das telenovelas. São monótonos e semelhantes… sempre! As novelas acabam sempre com casamentos, nascimentos e mortes. Descobre-se sempre um assassino qualquer. Há sempre um casal que vive feliz para sempre, com uma criancinha ao colo. Os maus acabam mal. E os bons acabam bem. Ninguém tente inverter o rumo destes finais felizes! O protagonista não pode morrer; o casal tem de ficar junto; e o vilão tem de ser preso ou morto. Esta é a novela portuguesa!

E a ficção nacional serve para dar a conhecer o trabalho musical de bandas, cantores e cantoras. No fundo, revistas, artistas musicais e a TVI vivem das novelas.

 

Puxar o Autoclismo...

Preciso sempre de um interruptor da luz para que as ideias me surgem na cabeça. Quando o pressiono, e faz-se luz, a mente fica extasiada de pensamentos exequíveis e realizáveis textualmente. O Sol quando nos penetra de forma vertical, e magoa o olhar, faz-me pensar que ter levantado os estores, foi mais uma forma de se fazer luz na minha cabeça. Todos os movimentos a serem feitos quando acordo, servem, sem dúvida, para a minha realização literária ao longo do dia. Só o lavar a cara e meter gel no cabelo, tiram-me a criatividade original. São elementos artificiais que tocam no corpo natural.
Mas o movimento que mais fazemos ao longo do dia é puxar o autoclismo. E não é apenas no sentido mais puro e absoluto que falo. Quando manuseamos o puxador do dito elemento chave para efetuar as necessidades fisiológicas essenciais, pensamos única e exclusivamente nessas tais necessidades. Só que não. Puxar o autoclismo é algo realizável, a qualquer hora e em qualquer momento.
Ouvir as barbaridades que Marinho Pinto profere, demagogicamente atulhado de utopias, é algo estúpido para nós, recetores daquelas mensagens ignóbeis. Lá está. Neste caso, entra em ação o meu autoclismo e lá vai o homenzinho pelo esgoto abaixo. Ou atentar aos debates socialistas que opõem o Seguro e o Costa, é mais um momento em que o meu autoclismo entra em ação. Os debates são risíveis. Seguro investe contra Costa, fazendo-se de vítima. Costa defende-se com o argumento de que será a pessoa certa no lugar certo. Acha-se salvador de alguma coisa?
Olhar para Bruno de Carvalho e para Godinho Lopes. O autoclismo fica sempre na dúvida. Qual irá primeiro? Qual o mais cómico?
O autoclismo está entupido! O Armando Vara já era. Os privilegiados do BES hão--de ir pelo esgoto abaixo, se a justiça portuguesa souber distinguir a justiça da injustiça e a verdade do interesse. Oh tantos que deviam ir andando…
Infelizmente o autoclismo encheu-se rapidamente…
Portugal precisa de um autoclismo muito grande para levar tanta porcaria…

 

Amizade

Ser tão valorizado no ato da escrita é meio caminho andado para criar um sério compromisso. Um acordo comigo próprio. Uma espécie de contrato em que basta uma declaração de vontade, que por acaso é a minha. Tenho sempre em conta quem me lê, mas principalmente quem não me lê. Quem me conhece sabe que eu sou tudo menos cronista. Muito menos escritor… Porém escrevo para não estar parado. E já prometi fazer deste meu suposto talento, uma mesura a quem me é próximo, amigos, portanto. Questionar a amizade é um dos meus passatempos favoritos. Momentaneamente começo a falar com a minha consciência, tomando como coisa incorpórea tudo o que me circunda. E inicio um debate de ideias com essa coisa a que se chama amizade. Já fiz uma reflexão que gerou sentimentos dúbios, pela simples razão de ter dito o seguinte: a amizade não existe. Tinha a noção que isso era um ataque aos meus amigos. Tinha na ideia que o que acabara de fazer geraria um certo conflito interior porque eu era crente na amizade. Todavia, a minha consciência mandou-me dizer o que disse, isto é, que a amizade era uma farsa. E eu acreditei na minha estéril consciência.

De facto a amizade converge naquilo que de melhor temos em comum entre humanos. É a partir da união humana que o mundo faz sentido. Sem a amizade, tudo seria, e isso sim, uma verdadeira e grande farsa. Os amigos são a garantia de que o nosso erro fez todo o sentido porque nos fazem sentir bem, apesar de nós e eles saberem perfeitamente que o erro foi gravíssimo. Mas eles chamam à atenção e dizem: erraste! Fazem-no carinhosamente. Que eles sejam apenas influências positivas, ou que nem isso sejam. Viver do que pensam os amigos é ser transtornado com o raio da vida! É não seres tu, e seres eles… e não seres tu porque os amigos não querem que tu sejas tu como és, mas apenas um bocadinho de cada um deles. E ser um bocadinho de tanta gente, é uma inquietação! E é da amizade que surge o amor… ou não. Venero a ideia de ter mãos para apertar e caras para beijar dos dois lados. Apertar a mão aos amigos e beijar as amigas com total honestidade e humilde amizade. Sem o complexo de superioridade que nos faz adquirir falsidade. Que vadios sejam os outros e nunca eu ou quem me é próximo. Dizer não ao ciúme entre amigos. De amiga tornar-se amada. É esse percurso que garante o acesso ao verdadeiro amor. Ninguém ama por amar. Toda a gente ama por ter gostado antes, sem esquecer o depois. Quem disser que ama sem ter gostado, deslumbrado, elogiado, lutado… apenas deseja o físico. Um bocadinho de amizade é preciso. A amizade é precisa em todas as circunstâncias. De amizade vive o mundo. Alimenta a humanidade por isso sejam amigos dos vossos amigos e minimamente amigos dos vossos inimigos. 

A amizade é o projeto mais apaixonante da humanidade. Um projeto em andamento, com as suas falhas e erros…

 

Sair à noite

Sair à noite é razoável. Posso considerar a noite uma coisa feia e suja. Mas também posso achar a noite uma coisa aceitável, onde se sucedem vários acontecimentos dignos de registo. Nunca poderei dizer que sair à noite é algo excelente. Nunca poderei considerar as saídas no período noturno, algo empreendedor a nível cultural e intelectual. Ninguém procura, na noite, um escape cultural. Ninguém quer falar de coisas sérias e importantes durante uma festa. A noite é festa. Eu sinto-me bem na noite, porque comporto-me adequadamente e repudio as atitudes que julgo serem estúpidas. A partir do momento em que crio na minha mente uma barreira, fortalecida pelos meus valores e convicções, torno-me um ser noturno sem receios nem problemas. Só tem problemas quem os procura…

Já tentei entender, antes de viver, o que se fazia na noite. Já vivi a noite. Enquanto quase todos dormem, existem pessoas que deixam a sua cama e o seu conforto e vão maltratar os ouvidos e os órgãos do corpo humano. Optam por se divertirem, recorrendo ao álcool… sendo que existe quem se divirta sem precisar de bebidas alcoólicas. E vão para bares ou discotecas, com o intuito de dançarem, beberem e se possível darem nas vistas para depois terem alguém para conviver de perto ao longo da noite. A malta jovem adora a noite. O pior é o dia seguinte. O acordar é tramado. Percebi a noite. Consegui aproveitá-la. É uma grande virtude ir para discotecas e coisas do género e viver o que se passa lá, com responsabilidade e decência. Apreender o bom e o mau, e distingui-los. Interiorizar o que acontece. Eu fiz isso tudo. Depois de observar, escrevi…

Eu não saía. Agora vou saindo. E saio para a “noite” porque tenho gente boa ao meu lado. Pessoas em quem posso confiar. E durante o período noturno há que ter muito cuidado com os “morcegos”…

Emanuel Areias

 

O Tempo

Até já entendi o porquê. A razão para vivermos sem um sofrimento total ou com uma alegria infinita é o tempo. Sei que não faz sentido, porém, é uma forma de compreender o destino. Percebo, sobretudo, que o tempo não apaga sentimentos, não mata vivências, não apaga memórias e não passa sem dar um ar da sua graça. O tempo não é dono de ninguém. Ele consegue orientar pensamentos e influencia a nossa maneira de ser.

Faz-nos sucumbir. Cria-nos dúvidas. Faz com que não tenhamos a máxima certeza do que achávamos ser absolutamente certo e verdadeiro. É o tempo que decide tudo. Faz esquecer recordações, mas, não as varre totalmente. O tempo acha-se um benfeitor. É o pai da vida. Sem ele, a dor era maior. Sem ele, as alegrias esgotam-se rapidamente, mas as tristezas também.

Numa filosofia íntima desmedida, tento ver no tempo, a solução para os meus males. Se ele é cura, também consegue intensificar a mágoa e o mal. Quando sofremos com percalços sentimentais ou com comportamentos desviantes, impulsionados pelo nosso íntimo ou pela sociedade, o tempo cresce e demora a passar. Quando, o mundo nos sorri, o tempo passa sem sequer darmos conta da sua passagem…

O tempo só pensa em si. Manda em tudo. Decide, julga, passa e avança quando quer. Ele não podia ligar aos sentimentos e emoções de todos nós. Se uma pessoa está muito bem agora, outra vive num abismo completo. O tempo gera equilíbrios. Assim, tem de ser. Não o julguemos em vão.

Na ânsia de dizer tudo sobre o tempo, ele acabou de me mandar parar…

Emanuel Areias

 

Sol e Praia

Nunca gostei muito do Sol. Menos ainda do calor e do sufoco que é estar de papo para o ar a “fritar”, apanhando, por vezes, escaldões terríveis. Porém, é bonito, aos olhos das pessoas, estar com uma cor mais escurinha. Ficar com um tom de pele mais escuro. Quem padece é a pele… Os protetores solares deixaram de ter importância, a não ser para as crianças e para os bebés. Todas as pessoas querem é Sol e aproveitá-lo ao máximo. Ninguém quer ficar branquinho. Uma ida à praia, serve sobretudo para enriquecer o corpo com os raios solares. Cada vez menos importa a água salgada. Até já vemos, pessoas estendidas ao comprido em toalhas de banho no terraço das suas casas…

A mente controla as necessidades. No Verão, o Sol é uma dessas necessidades que faz das suas à pele, formando uma afinidade interessante. Uma relação de riscos. Quase sempre acaba com recurso aos cremes…

Irritamo-nos com o Sol diariamente. Usamos óculos escuros, de manhã, à tarde e até noite. Procuramos uma sombra sempre que é possível. Os motoristas parem os carros em zonas de menor claridade. É uma fuga ao Sol! Por outro lado, há gente que vai atrás do Sol… Deitam-se numa praia sem proteção solar e nem se lembram com eventuais problemas dermatológicos.

Estendem-se toalhas diferentes e feias… muito feias! Umas são bonitinhas… Eu prometi a mim mesmo que nunca faria pouco do meu Benfica, mas não é que tenho uma toalha com o emblema do clube e uso-a quase sempre. Que tristeza! Sujo-a, deito-me sobre ela, passo por cima e ela fica cheia de areia… É um desrespeito ao Benfica! Existem toalhas de banho para todos os gostos e feitios.

O mar está a perder para o Sol…

Emanuel Areias

 

Por uma política melhor

Manifestar-me sobre política é ingrato. A política não é para a juventude. É coisa de velho que bebe uísque antigo e é vermelhinho da cara ou então é coisa para homens e mulheres dedicados a uma causa perdida. Ou então é coisa para pessoas ligadas às juventudes partidárias. Pessoas que depois de alguns anos a “marinar” nas “jotinhas” seguem para o partido e vão subindo na hierarquia. Política não é para mim e se for é para ser um alvo apetitoso das minhas pobres críticas. É de facto um excelente objeto de análise. Em torno dela gera-se um emaranhar de confusões sem explicação. Ela pena por ser ela própria e sofre com quem tenta fazer dela escrava. É um covil de mentiras e rudeza intelectual. Um antro de estupidez. A política não é suja. Quem suja a política são os políticos e esses deviam ser castigados por denegrir a imagem de uma arte tão valorosa como é a política. 

São imensas as pessoas que se dizem dedicar ao serviço em benefício da comunidade… esses são os mais falsos! Não generalizo porque acredito que exista gente que se dedica ao povo, tendo como objetivo o bem-estar social e não os interesses particulares. O pior é que é uma parte pouco significativa.
Salta à vista o desinteresse pela política por parte um povo oprimido e cansado de tudo o que é dito pelos senhores e senhoras que apresentam um discurso falacioso e enganador. A culpa é dos partidos políticos e das lideranças partidárias! Criam organismos para se aproximarem do povo e coisas do género, mas na verdade só serve para dar, e desculpem a expressão, de “mamar” a mais algum…
Depois não existem alternativas. Os partidos são em quase tudo semelhante e querem o mesmo: o poder! Para mudar o paradigma e as opiniões céticas dos portugueses em relação à política, é preciso uma mudança de modelo político, uma mudança de regime… se quiserem a manutenção da democracia, renovem-na.
Existem ideologias diferentes, partidos opostos, líderes diferentes, pontos de vista contraditórios…. Mas há uma coisa em comum entre todos os seres humanos: a valorização da dignidade humana e o desejo da manutenção do bem-estar social. Por isso, juntem esforços e lutem unidos pela mesma causa… o caminho a percorrer não importa!

Emanuel Areias

 

Exames e seleção portuguesa

Eu sei que, teoricamente, exames e a seleção portuguesa, não têm nada ou quase nada em comum. Aí é que se enganam… Ambas as coisas dão sono! Pensei durante algum tempo se faria sentido juntar no mesmo texto duas temáticas opostas. Para mim faz todo o sentido. Agora que os exames terminaram e já não tenho a necessidade de estar vedado por letras e interferências mentais, pensei que poderia aproveitar melhor a presença de Portugal no Mundial do Brasil. Que iríamos longe e no calor do Verão, ainda ganhávamos o título. Ilusões. Talvez por causa dos exames que me iam metendo louco e sem pensamento assertivo e minimamente racional. Ter em conta o possível avanço de Portugal para a fase seguinte do Mundial, deixou de fazer sentido para o meu cérebro, depois de eu escrever a última palavra no exame de História. De salientar que eu fiz esse exame, um dia depois do empate com os Estados Unidos, ou seja, eu estava mesmo doido varrido. 

Os exames foram simples, na medida em que já acabaram. Foram feitos porque tinha que ser feitos. Mas continuo a considerar esses exames, ataques pessoais às mentes dos jovens. Se bem que a nossa seleção de futebol ainda fez pior e tirou todo o sentido ao equilíbrio mental que ainda subsistia em mim. Aquela sensação axiomática de não ter mais exames é absolutamente divinal. Melhor ainda é sentir que provavelmente não terei que os repetir. E pior que tudo isto é ver Portugal a ser ridicularizado pela potência do futebol americano e que vê o futebol, desporto rei, por um canudo.
Foi com grande pompa e circunstância que a nossa seleção preparou a sua partida para o Brasil. Gastou-se imenso dinheiro aos contribuintes para manter aqueles labregos no Hemisfério Sul e ainda fazem coisas daquelas. Os jornalistas e as pessoas fizeram deste Mundial, o mundial dos mundiais. Disseram que seria o Mundial de Portugal e de Cristiano Ronaldo. Para se fazer um exame também é preciso pachorra e tempo, muito tempo… Tanta coisa e em duas horas faz-se aquilo. Tanta coisa, e Portugal já está quase a caminho de casa… As botas de duas cores, os penteados extravagantes, a mania e a presunção são sinais que mostram que estes jogadores são mais modelos do que jogadores de futebol. Tenham paciência pois este ano o exame nacional de História também era um “modelo”. Pela primeira vez escolhas múltiplas… Fiquei deslumbrado! A quarta melhor seleção do mundo, com o suposto melhor jogador do mundo, isto é, uma potência de futebol, empatou com a potência do basquetebol, futebol americano, basebol… tudo menos o futebol. Mais irritante do que isso tudo é a Ronaldomania.
Exames e a nossa seleção são em quase tudo semelhante naquilo que manifestam no ser humano. Sono, irritabilidade, choro, tristeza….

Emanuel Areias

 

Crise do ensino português

Estava eu a estudar para os exames nacionais deste ano, analisando as matérias que devem sair nesse dito teste de final de ciclo, e lembrei-me de refletir sobre a escola, uma vez que agora terminei o ensino secundário. Este nosso sistema é depauperado, ridículo, inútil, repugnante e extremamente atrofiado. Como é que o ensino português pode ser excelente? Como é que as gerações atuais procedem, visto que são golpeadas e pressionadas consecutivamente? Como é que é possível suportar três anos de constante aprendizagem, duros para professores e alunos, e no fim aparecem dois exames que podem hipotecar o esforço regular e as notas dos anos anteriores? Estes testes finais são um absurdo total! Um ataque aos que se esforçaram verdadeiramente e uma benesse aos “coitadinhos” que extorquiram dos professores, excesso de tolerância e complacência…. E são esses “pobres de cultura” que acabam beneficiados com os exames. Os que foram regulares durante os três anos e obtiveram bons resultados, se estiverem nervosos naquelas horas de aperto, o futuro acaba hipotecado… Mas é este o nosso sistema, que piorou e irá piorar ainda mais a partir de 2015. Nem falo no excesso de matéria. Estudar a matéria de História para um exame nacional é algo sobrenatural. Os alunos com pouca cultura geral vão a exame de História só para dizerem que foram. Tem que se conhecer mais do que a matéria dada, se não é impossível obter uma nota aceitável a História. 

Os professores beneficiam os alunos fracos, atribuindo-lhe a nota dez para que possam passar de ano ou para terem a nota, de modo a fazerem o exame. Com médias risíveis, faz-se magia e o dez aparece. Uma proteção excessiva. Há que bater com a cabeça na parede… São estes alunos do “dezito” os maiores beneficiados com os exames. Normalmente, têm sorte e lá aparece o nove e meio que permite passar à disciplina e ter uma prova de ingresso para a universidade. Portanto, as notas são mal atribuídas. Então que haja proporcionalidade e se proceda ao aumento das notas naqueles que têm boas e muito boas notas. Assim sim, respeitam-se os interesses de todos.
Outra situação preocupante é a falta de expetativas dos jovens. Os alunos são bombardeados com o negativismo dos professores que só chamam à atenção para o que está mal no país. Os professores impedem os jovens de sonhar porque eles próprios já não sonham há muito tempo, pelo ataque que sofreram. Os docentes estão cansados e isso reflete-se na formação dos alunos. Neste seguimento, os jovens ficam tristes e sem direito ao acesso às certezas. As incertezas apoderam-se das mentes juvenis.
Vive-se uma crise quanto à socialização escolar. A escola perdeu importância por culpa do sistema de ensino que temos em Portugal. Há falta de expetativas corresponde o insucesso escolar. Ao insucesso escolar corresponde o abandono precoce do ensino. As pessoas estão esgotadas e fatigadas com o excesso de trabalho e isso reflete-se na fraca produtividade.
Que alguém tenha dó e piedade destes alunos e professores. Que alguém reforme o ensino português, mas com qualidade… não com o objetivo de destruir a educação em Portugal!

Emanuel Areias