Oportunidades perdidas

Há uma semana, cruzei-me com um alemão, apaixonado pelos Açores, instrutor de golfe e ex-jogador da modalidade. Conversa puxa conversa, Martin (nome fictício) começa a descrever várias tentativas para vender produtos açorianos na Alemanha que se revelaram oportunidades perdidas.

Na sequência dos testemunhos, concluo que as empresas desconhecem os procedimentos para expedir, com sucesso, os seus produtos. Em todos os casos, houve um primeiro envio das mercadorias para demonstração em lojas na Alemanha e em todas as situações houve problemas: ou porque os produtos foram mal acondicionados e chegaram ao destino com as embalagens quebradas; ou porque a viagem de camião terminou num acidente rodoviário; ou porque as mercadorias foram enviadas para o aeroporto errado, em Zurique, na Suíça, em vez de Frankfurt.

O queijo e as conservas Santana, de São Jorge, são dois dos produtos que falharam os procedimentos de envio para a Alemanha, bem como o pescado, de São Miguel, e produtos de compotas de outra ilha. A ser verdade (reconheço que não confrontei as empresas sobre estes episódios), tratam-se efetivamente de oportunidades perdidas de constarem no maior mercado consumidor da Europa. Desconheço as implicações dos contratos, tais como o preço acordado entre as partes e o risco associado às operações, mas é indiscutível que se tratou de portas que dificilmente se abrirão no futuro, face à incapacidade para corresponder às expetativas de uma cadeia de distribuição alemã com duas mil lojas no país.

Estas falhas devem ser atribuídas aos líderes destas empresas, algumas públicas e outras privadas, e desconhecem-se consequências deste desastre de gestão. Na maioria dos casos, estas são empresas a passarem por dificuldade financeiras que não se podem dar ao luxo de perderem contratos desta natureza e dimensão. A existência de acionistas públicos não devem desculpar os seus conselhos de administração, normalmente pagos a peso de ouro e cujas qualidades empresariais ficam muito a desejar. No caso de empresas privadas, estas falham podem ser entendidas como pontos negros da sua gestão e esperemos que não constituam o princípio do seu fim.

 

Vender ilusões

Começou a época de licitações na política. O partido A dá mais uns tostões aqui, depois o partido B responde e abre os cordões à bolsa e dará outros tostões acolá. O PS promete acabar com a austeridade em dois anos, contra quatro do Governo. Isto é, o ainda primeiro-ministro tinha proposto acabar com a sobretaxa sobre o IRS (imposto sobre o rendimento do trabalho) e anular os cortes salariais na função pública em quatro anos, mas os 12 sábios, ao serviço do PS, concluíram que é possível terminar com o sufoco fiscal já no final de 2017. Como se de um leilão se tratasse, a seis meses das eleições legislativas António Costa é obrigado a apresentar uma proposta de licitação melhor do que quem governa. Não diz é como vai buscar o dinheiro, nem a redução do défice público parece ser uma prioridade do candidato a primeiro-ministro, muito menos reduzir a dívida pública.

Taxar as heranças acima de um milhão de euros é a primeira medida para compensar a perda de receita. Mas, como já há quem disse, não é visível tantas heranças que possam compensar estes e outros cortes na receita. Até pensei que poderia agravar as taxas na banca, que atualmente paga menos de metade das restantes empresas em IRC, mas o PS escusa-se a olhar para esse segmento da economia.

Para ganhar as eleições o PS propõe a redução da TSU (taxa social única) para empresas e particulares. Para os trabalhadores haverá um corte dos atuais 11% para 7% em 2018 (para quem tenha menos de 60 anos). Depois aumenta 0,5 pontos ao ano até 2026, isto é, num período em que já ninguém se lembra das propostas iniciais dos socialistas. Tira agora para recuperar mais tarde. Trata-se de uma política ziguezagueante que em nada abona a uma candidatura política.

Para o comércio fica reservada a redução do IVA para 13%, cortando em quase metade a atual taxa aplicada a centenas de milhares de votantes. Ficamos a saber para que vai o PS nas legislativas: é claramente à caça de votos. O governo seguinte que resolva a trapalhada que este antigo braço direito de Sócrates se propõe para Portugal nos próximos quatro anos.

Toda a gente reconhece que a chamada austeridade não é propriamente masoquismo deste ou daquele Governo. Eventualmente, nem metade das propostas do PS (uma vez na cadeira do poder) irão materializar-se, face à incompatibilidade com o atual nível de despesas. De duas uma: ou as despesas caem, para acomodar a redução da TSU, reposição de salário dos funcionários públicos e queda do IVA na restauração, ou as receitas terão de subir. Mas como apenas se identifica um corte brutal nas receitas, fica-se com a garganta seca e uma sensação de novo terramoto no horizonte.

Para cativar os portugueses para a sua candidatura, António Costa abandonou a liderança da autarquia de Lisboa e apresenta-se diariamente nos três canais televisivos e rádios mais amigas. Todo o santo dia surge António Costa a vitimizar-se, por que alguém critica as suas políticas, ou a bater no Governo (à espera que algum membro governamental se queixe, para ser a sua vez de o criticar – e surgir novamente na televisão). É essa a estratégia de Costa: estar presente na casa dos portugueses. Dar-se a conhecer. Não quer dizer que diga coisas novas e aos gritos. Basta que apareça.

Há dois anos, tivemos idêntica cena nos Açores. O candidato Vasco Cordeiro aparecia todo o santo dia na televisão regional, aos gritos, a vitimizar-se dos erros da “República”, do governo de Lisboa que é muito mau – mas que continua a cobrir todos os desmandos deste e de anteriores governos. Jurou a pés juntos que iria “fazer e acontecer”, que o Olimpo estava logo ali, ao virar da esquina, e que votassem nele. Pois bem: o povo votou e nada mudou. As quarenta empresas públicas regionais estão aí para encobrir o colossal défice regional; fazem-se hipotecas de prédios para pagar salários de empresas; brinca-se aos aviões, e aos barquinhos; o presidente do Governo regional apenas aparece para cortar as fitas de novos portos, lar de idosos e creches e as empresas públicas estão a afundar-se, as empresas privadas que dependem de fundos públicos estão falidas, o governo dá mau exemplo porque não paga a ninguém. António Costa parece querer ir por idêntico caminho.

 

Gestão socialista

O “único” candidato a primeiro-ministro António Costa acusa o primeiro-ministro em funções, Passos Coelho, de “fracasso” no controlo das contas públicas, de “falhar” na recuperação da economia e de “ter feito cortes que atingiram os limites da dignidade humana”.

Este tipo de acusações corresponde a uma nova estratégia do PS de ripostar diariamente sempre que o primeiro-ministro faça alguma declaração pública. No âmago da nova estratégia socialista conta-se também a preocupação “pelas pessoas”, as quais são defendidas apenas pelo partido liderado por António Costa.

Pois bem: o único governo de gestão socialista, nos Açores, bem pode-se dizer que é um espelho daquilo que António Costa tanto abomina. Nos Açores, há um total fracasso no controlo das contas públicas, a dívida pública continua a subir, a economia não cresce e os fundos comunitários e o rendimento social de inserção são o sustento de entidades públicas e de particulares, respetivamente.

O jornal Público, que tanto prezo, afirma que o défice regional é de “um por cento do PIB” e a dívida está nos “20 por cento do PIB” gerado. Não discuto estes números. Mas é preciso informar esse jornal de que as quase 40 empresas públicas açorianas têm dívidas de milhares de milhões de euros: só na saúde poderá atingir mil milhões de euros, incluindo laboratórios farmacêuticos e centros de análises clínicas; a SATA anunciou que não paga a centenas de fornecedores porque o governo regional lhe deve dinheiro; há organismos públicos que recorrem à banca para pagar salários; a Atlanticonline gere uma frota de barcos alugados anualmente por valores astronómicos, sem qualquer tipo de viabilidade económica; pareceres técnicos, das mais variadas áreas de atividades públicas, opõem-se a determinados investimentos, mas lá surge um membro do governo regional a sobrepor-se à recomendação, com custos elevadíssimos para o erário público; as conservas (Santana) são geridas de forma deficitária, apesar de ser um negócio altamente valorizado na Europa; continuam-se a construir portos e portinhos em cada enseada, apesar das recomendações técnicas contrárias.

Face a estes factos, não compreendo como é possível ter um défice real de um por cento e uma dívida pública de 20 por cento do PIB. Este cenário cor-de-rosa só é possível atingir desde que haja dívida encapotada e varrida para as empresas públicas. É algo que gostaria que me explicassem e, já agora, que informassem o mal informado António Costa.

Para ensinar estes truques de algibeira, o líder socialista convidou o mentor deste número mágico, Sérgio Ávida, a fazer parte dos 12 magníficos economistas para elaborar o futuro programa económico do Governo socialista. Como se a economia fosse “um passo de dança” e uma folha de excel. Mas é este o candidato a primeiro-ministro, que tem toda a simpatia da comunicação social, que faça o que fizer na autarquia de Lisboa nada transpira para a imprensa, que promete pagar aos lesados do caso BES, que promete pôr a economia a crescer, que promete baixar o desemprego, que promete baixar os dois milhões de pobre do país. Tudo com a ajuda do exemplo Sérgio Ávila e do seu novo presidente, Carlos César. Este que deixou, nos Açores, um contentor de faturas para pagar nas próximas gerações, a economia a definhar e o desemprego a agrava-se até aos 18% (e sem sinais de abrandamento), o qual põe em causa a “dignidade humana”, citando o próprio António Costa.

 

Se eu mandasse

Se eu mandasse no governo chamava a indústria e os produtores de leite para tentar acomodar os novos cenários da liberalização da produção leiteira. Não esperava pelo desastre consumado: atuava no momento certo para obviar a maiores dissabores no futuro. Espinha dorsal da economia açoriana, a indústria leiteira precisa de orientações mais eficazes, para manter-se como uma das indústrias de referência na região. A descida do preço do leite ao produtor é uma ameaça inquestionável, principalmente para os agricultores acabados de fazer novos investimentos. Mas é igualmente uma oportunidade para a especialização e a diferenciação do produto. Duas palavras caras para a sobrevivência da espécie. Isto é: ou se criam produtos alimentares derivados do leite com maior valor acrescentado ou o condado do leite acaba. A campanha “Vacas Felizes” será um modelo a seguir por mais empresas do ramo, sem nunca perder as apetências dos consumidores. Há que investir em novos produtos, criar “dependências” saudáveis dos consumidores.

Se eu mandasse chamava ao gabinete os empresários do sector do turismo, agência de promoção turística e a Azores Airlines para analisar os progressos necessários para acolher o Verão IATA 2015. As condições de receção dos turistas, reação dos empresários às companhias de baixo custo, política de preços, formação e qualificação da mão-de-obra, o encaminhamento dos passageiros e turistas para as restantes ilhas, a partir de São Miguel. Esta poderá ser uma visão paternalista, mas um governo de uma região como os Açores deve estar próximo das pessoas, das empresas. Isto não quer dizer apadrinhar este ou aquele projeto, ou imiscuir-se na gestão diária das empresas, mas sim conhecer as dificuldades sentidas por empresários que empregam milhares de trabalhadores e, se possível, corrigir distorções do mercado.

Se eu mandasse tinha igualmente uma palavra de apoio ao comércio local, com o qual a população se identifica e traz mais-valias e singularidade a cada uma das ilhas. Muito comércio “parou no tempo” e, eventualmente, necessita de refrescar conceitos e posicionar-se de outra forma perante o cliente. A este nível, entre associações e políticas públicas é desejável uma maior interligação, para valorizar o património regional, como os vimes, a cerâmica, o chá e tantos outros.

Se eu mandasse olhava para indústria conserveira com outros olhos. Nos anos recentes, esta indústria atrai cada vez mais investidores por essa europa fora. Porque é que continua a ser um negócio deficitário em São Jorge e em São Miguel? Não se compreende, face à qualidade das nossas conservas. À boleia das conservas, reuniria toda a fileira da pesca para debater ações para mobilizar o sector. Esse bem precioso para as sociedades modernas e cujo preço não pára de subir nos supermercados, ao contrário do que acontece nas lotas açorianas.

Esta abordagem paternalista é prática comum noutros países, quando mais em origens de difícil mobilidade, como um arquipélago. Se há uma subjugação do poder político aos grandes grupos económicos, por que não generalizar esses contactos para as restantes empresas e sectores de atividade? Ou a política faz-se só de amizades? Que se promovam debates, mais ou menos públicos, sobre estas temáticas e outras que sejam pertinentes. Não haja temor às críticas. Antes ser criticado e ser reconhecido por mobilizar as forças vivas da sociedade, do que abandonar o poder político e deixar para trás um monte de escombros.

 

Fiscalidade verde

A fiscalidade é um instrumento poderoso ao serviço das causas públicas. Aplicada ao ambiente, a baixa de impostos municipais e patrimoniais pode produzir ganhos substanciais para a comunidade local e para o bem comum. Precisamente, o anúncio da baixa de impostos nos Açores (IRS e IVA) seria uma oportunidade única para salvar o ambiente de atentados por particulares, bem como por autarquias e pelo poder regional.

Sei que a discriminação fiscal é sempre difícil de pôr em prática e o que Vasco Cordeiro, presidente do governo regional, anunciou aplica-se aos impostos sobre particulares e sobre a atividade económica, sem contrapartidas nenhumas. O ato de generosidade do poder regional podia ser aproveitado para baixar os impostos municipais para as habitações, hotéis, restauração, comércio e instituições públicas que façam a separação do lixo; incentivar a compra de automóveis para particulares e profissionais e motociclos elétricos; incentivar a redução do consumo de água por particulares e instituições públicas; incentivar o uso de painéis solares e fotovoltaicos; aumentar o uso do transporte público, incluindo um programa de incentivo ao transporte público escolar. Há um rol de propostas, do conhecimento público, e bons exemplos já testados noutros países, que deviam ser pensados para as ilhas, com os devidos ajustamentos locais. Muito já foi feito para tratar o ambiente com mais cuidado, mas não é tarde para ir mais além. Até porque o objetivo final será sempre melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e daqueles que nos visitam.

O reconhecimento público desse comportamento amigo do ambiente é altamente valorizado externamente. Seria um cartão-de-visita para os turistas. “Estive nos Açores, ilhas maravilhosas, com grande preocupação pelo ambiente, nas praias, vilas, locais de interesse turístico, nos restaurantes”. Comentários desta índole produzem mais efeito entre amigos, do que qualquer cartaz de publicidade sobre o destino Açores.

Sabendo-se das crescentes preocupações ambientais de autarcas, e entre autarcas, é ao nível local que muitas medidas têm forte impacto social e económico. Citando um destino em São Miguel (que me perdoem as restantes localidades), sempre foi reconhecida a qualidade ambiental do Nordeste, tanto na vila, como nos locais turísticos. Incluindo o patrulhamento pela PSP, que transmite sentimento de segurança inestimável.

Portanto, aquele local a nascente da ilha tem fama de ser um destino limpo, com jardins bem cuidados, cuja população tem igualmente preocupações ambientais. Portanto, foi a moralização camarária, desta e das anteriores, que mobilizaram recursos para satisfazer esse objetivo: tornar o Nordeste como um destino amigo do ambiente. É tão fácil. Mas dá muito trabalho e terá de constituir um desígnio de todos.

 

Alô, Açores, estamos vivos?

O fundo Discovery anunciou esta semana a satisfação com os investimentos nos Açores e não descarta estender a operação das Termas das Furnas e do hotel-casino (os dois em São Miguel) a outras paragens. Pedro Seabra, responsável pelo fundo, não terá feito esta afirmação porque “é giro” ir para os Açores. Certamente, há fundamentos económicos e financeiros para a aposta. Por um lado, a introdução de concorrência na aviação, através da Ryanair e da easyjet; por outro, eventualmente o aceno de fundos comunitários futuros para novos investimentos.

A cadeia de hotéis Pestana aposta igualmente nas potencialidades das ilhas, até agora por explorar e cujo principal garrote era o transporte aéreo. O grupo madeirense decidiu aumentar o número de quartos da unidade em São Miguel e porventura poderá não ficar-se por aqui. Estes são dois exemplos práticos da nova dinâmica que se está a assistir no sector do turismo e que precisa de ser confirmada neste e no próximo ano turístico. Se estes dois grupos comprovarem que vale a pena apostar nas ilhas, não tenho dúvidas de que haverá mais projetos, novos ou a recuperação de unidades existentes, que apenas beneficiarão uma economia em estado vegetativo.

Esta semana, achei piada ao interesse dos estrangeiros na ilha do Corvo, especialmente na época da observação de aves migratórias. A TVI testemunhou o gosto dos turistas alemães e russos em visitarem a ilha mais pequena do arquipélago, em particular nos meses de Setembro e Outubro – quando abundam aves que migram entre os hemisférios Norte e Sul. O mesmo acontece noutras ilhas, como o Pico e São Miguel. Provavelmente, estes aventureiros chegam aos Açores através da informação na Internet, sem que alguém lhes tenha convencido a viajar por vários pontos do globo para chegar à ilha do Corvo.

O fenómeno do turismo tem estas coisas: basta estar na Internet para alguém, do outro lado do mundo, querer visitar, conhecer e desfrutar do local. O somatório das qualidades dos Açores fazem-no um destino apetecível. Todos sabemos do que falo. Resta é pôr a mão na massa e trabalhar para aumentar a sua visibilidade. As companhias de aviação de baixo custo fazem o seu papel, com anúncios cativantes para os seus clientes. Basta agora o efeito de contágio nos clientes europeus, norte-americanos e asiáticos e será certo que mais cadeias hoteleiras nacionais e europeias irão encontrar os Açores.

 

Selo de qualidade

Os Açores têm, ao seu dispor, um novo quadro comunitário de apoio no valor de 1440 milhões de euros nos próximos cinco anos. Como queremos as ilhas daqui a 10 anos? Quais as áreas prioritárias de aplicação desses fundos? Quais os critérios de acesso aos fundos comunitários (que têm sempre uma componente nacional)? O tecido empresarial está preparado para tirar partido desse dinheiro? Será que grande parte destes fundos serão usados por empresas públicas falidas e sem futuro?

Essas são algumas das questões pendentes e que, porventura, seria importante alguém olhar para elas. Agricultura e pecuária, pescas, turismo, ambiente, serviços e comércio, tecnologias de informação. Afinal, precisamos de tudo? Ou iremos privilegiar algumas dessas áreas? A fileira da pecuária precisa de contínua modernização para contrariar o aumento da concorrência internacional e o fim das quotas leiteiras? Sim, é a resposta. De que forma? A indústria dos laticínios já deu o pontapé de saída, com a Bell a propor um cêntimo para as explorações agrícolas que respeitem determinados requisitos de qualidade. Mas os agricultores têm capacidade financeira para estarem sempre a investir? Será que já receberam o retorno, depois dos investimentos recentes do anterior quadro de apoio comunitário?

Quem tiver unhas tocará melhor a guitarra. O cerco à modernização é imparável. Os menos capazes ficarão de fora, os mais novos terão de assumir papel preponderante na pecuária do presente e do futuro. Idêntico cenário se aplica às restantes atividades económicas, a começar pela pesca, comércio, turismo, atividades de lazer e entretenimento, o mar, o ambiente.

Obviamente, que escrever sobre estes temas é muito mais fácil do que pôr a mão na massa e estar à mercê das vicissitudes do mercado muito pequeno e de depender de terceiros para vender lá fora (ou de trazer clientes às ilhas). Para obviar ao acréscimo de concorrência em vários sectores de atividade não há outra forma a não ser o selo de qualidade. Qualidade do peixe, da carne, do turismo, do ambiente, do mar, do serviço prestado no comércio e serviços. Não basta afirmar-se que alguns destes sectores oferecem produtos de qualidade. Essa qualidade deve ser certificada, dinamizada no exterior, apoiada, testada por jornalistas e instituições nacionais e internacionais.

Assim, a entrada de novas companhias de aviação em Abril deste ano dará ao turismo um novo ciclo de valorização, desde que os empresários cumpram uma série de requisitos. É preciso que o serviço dos seus alojamentos tenham qualidade (alojamento local ou hotel de quatro estrelas); que os funcionários recebam formação adequada e tenham perfil para cada função desempenhada; as instalações necessitam de respeitar princípios de qualidade ambiental, design e uma abordagem personalizada. Enfim, é necessário ser-se diferente, oferecer uma experiência única durante a estadia dos turistas.

Este quadro de referência é do conhecimento de todos, mas por variadíssimas razões apenas alguns conseguem satisfazer tais requisitos. Serão os mais capazes a trilhar um futuro de sucesso, contra aqueles que teimam em serem aprendizes de tudo e de nada. A margem de erro é nula.

 

Tribunal de Contas?

O projeto ferroviário de alta velocidade (vulgo TGV), insistentemente proposto pelos governos de José Sócrates, custou a todos os portugueses 153 milhões de euros e não chegou a andar um metro sequer. “Foi um gosto conhecê-lo”, esse número de milhões, através do Tribunal de Contas (TC), presidido por Guilherme d’Oliveira Martins, ex-ministro das Finanças de governo socialista.

Dois anos após o atual Executivo ter suspendido o projeto, os funcionários e consultorias do TC informam ainda que os "estudos preliminares demonstraram que o investimento na rede ferroviária de alta velocidade não apresentava viabilidade financeira". "Os mesmos estudos demonstraram que o eixo Lisboa-Madrid, o primeiro a ser implementado, também seria financeiramente inviável", refere a auditoria, citada pelo “Expresso”.

Fico perplexo: como é possível que este projeto tenha passado pelo crivo deste TC e não tinha viabilidade financeira? Foi com base nessa premissa que o projeto pôde avançar. Foi isso que nos anunciaram nas televisões, vezes sem conta. Por que é que o TC não inviabilizou o projeto? Por que não tem poderes para o fazer?

Concluo que uma qualquer Direcção-Geral de Finanças, no seio da Administração Pública, não faria pior do que o TC. Se não é para parar projetos criminosos, como o TGV, não vejo para que servirá mais este TC. Claro que dirão: quem define os poderes do TC são os deputados e o Governo. Portanto, é na lei que está o problema. Nós sabemos que tudo passa pelas leis e digníssimos deputados. Então, peço aos digníssimos deputados que encerrem o Tribunal de Contas, a bem da sanidade mental de todos os portugueses, que exasperam por medidas corajosas de controlo das contas públicas, de limpeza do desperdício, da abolição da duplicação de despesa em serviços autónomos do Estado, que apenas servem para colocar funcionários públicos a ganhar o dobro dos congéneres da Administração Pública.

Mais em pormenor, ficou-se a saber que nos 11 anos de projeto foram gastos 120 milhões de euros em estudos e 32,9 milhões de euros em custos de estrutura da Rede de Alta Velocidade (RAVE), isto é, o salário dos funcionários da empresa, refere o Tribunal de Contas. Tudo somado, são os já mencionados 153 milhões de euros. “A política já tratou de sancionar o anterior Governo” de Sócrates. Dirão uns. E a responsabilidade civil pela aprovação de um projeto, no papel, falido e sem pernas para andar? Gasta-se este dinheiro todo e não há responsáveis? Esses são atribuídos ao imaginário da política? Vivemos num mundo louco, que como se está a ver qualquer um pode chegar ao poder, gastar o dinheiro que lhe aprouver e rumar a Paris.

Por cá, vejo que a Conta da Região de 2013, divulgada em Dezembro pela secção dos Açores do TC, não para de se agravar: os avales às três dezenas de empresas públicas não param de aumentar, a despesa com as Parcerias Público Privadas (PPP) superam os 500 milhões de euros (valores atuais) e os anos de 2016 e 2018 vão ser gordos para a despesa regional, decorrente destas PPP da saúde e de estradas. Qualquer organismo público interno teria todo o gosto em realizar um trabalho deste calibre, desde que enquadrado por leis adequadas à sua independência e fora da pressão política do governo no poder.

A auditoria do Tribunal de Contas ao TGV no continente é sintomática da ineficácia que organismos como o TC passaram a ter na vida política portuguesa. Não servem à democracia e à transparência. Não nos servem organismos criados à margem da Administração Pública, cujos funcionários são pagos a peso de ouro e apenas emitem pareceres. Para isso contrata-se os “gostosos” gabinetes de advocacia e de consultoria.

 

Costa e a “gestão de excelência” nos Açores

O novo líder do Partido Socialista, António Costa, elegeu os Açores como exemplo de bom desempenho do partido. No discurso de consagração no congresso do passado fim-de-semana, o actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa atribuiu ao camarada Vasco Cordeiro uma “gestão de excelência” e de contas públicas sãs. Esta observação, feita no calor da reunião magna socialista, terá caído bem junto do seu novo braço-direito (Carlos César) e do delfim Cordeiro. Mas a frieza dos números acaba por desmentir o candidato a primeiro-ministro, que antes de lançar foguetes deveria informar-se correctamente e evitar desmentidos, como surgiram ontem, mais uma vez, através do Tribunal de Contas.
A instituição comandada pelo “amigo” Guilherme d’Oliveira Martins desfez qualquer dúvida e vem relembrar Carlos César, Vasco Cordeiro e Sérgio Ávila de que a dívida total, em 2013, era de 1700 milhões de euros, que aumentou em 40 milhões de euros e que as contas carecem de “transparência”. “Estamos preocupados relativamente aos níveis de endividamento. Estamos preocupados também relativamente à transparência, aos elementos de que carecemos para fazer uma análise rigorosa sobre as contas”, sublinhou ontem Guilherme d’Oliveira Martins citado pela imprensa local. Uma conclusão forte, grave e que apenas demonstra o incumprimento sistemático da região perante uma instituição que devia ser respeitada. Portanto, onde lá vai a ambição e o discurso do superavit protagonizado por Sérgio Ávila. Este valor (retomamos as contas) é apenas uma ínfima parte do problema, já que não inclui as dívidas (e os défices elevados) das quase 40 empresas públicas regionais, símbolo da desorçamentação, isto é, de deitar dívida para “debaixo da mesa”, que escapa ao escrutínio do Tribunal de Contas. Só a Saúde deverá preencher três quartos dos 1700 milhões de euros, tendo o sector contribuído para o aumento de parte dos 40 milhões da dívida total o ano passado.
Há um governo regional, dos Açores, que não é transparente na divulgação pública das suas contas. Isto é, sonega informação a quem tem de fiscalizar as contas públicas. Resta saber para que serve o Tribunal de Contas se não tem instrumentos para obrigar organismos públicos a fornecerem todas as informações necessárias para uma análise completa das contas da região. Algo que é “recorrente” no comportamento das entidades públicas regionais, observa ainda o TC.
Voltando a António Costa, os elogios aos políticos regionais são graves do ponto de vista da verdade e da transparência, como corrobora o TC. Um pretendente a primeiro-ministro não pode achincalhar os açorianos lúcidos e cair na ratoeira de agradar aos seus camaradas de partido, escamoteando a verdade dos factos: as contas das entidades administrativas regionais e das empresas públicas regionais são altamente deficitárias. Não consultei a Conta de 2013, mas gostaria de saber a factura dos juros pagos aos bancos para suportar a dívida de 1700 milhões de euros, mais os juros das empresas públicas regionais, como a SATA, Lotaçôr, Atlânticoline, conservas Santa Catarina, Portos dos Açores, Portas do Mar e por ai fora.
Gostaria de dizer a António Costa que há uma completa inércia do Governo regional em relação à orientação de empresas como a SATA, transportes marítimos (Atlânticoline), o caminho do turismo regional; que os cargos de organismos públicos são assumidos por “amigos” e familiares do poder político; que as concessões do jogo e das Termas das Furnas, em São Miguel, foram atribuídas a amigos do poder político e que aqueles foram à falência; que se fomentam monopólios de actividades nas ilhas, com ajudas a amigos do PS; que se constrói hospitais, centros de saúde e de escolas de dimensões faraónicas (para a dimensão das ilhas) e para os quais carecem de profissionais habilitados. Mas se António Costa concorda com este tipo de gestão política, então estará a ir pelo caminho errado. É errado fomentar o compadrio em cargos públicos, a ineficácia dos serviços, o desperdício de fundos públicos e comunitários e a sobranceria do poder, que não presta contas aos cidadãos.
Na campanha eleitoral, Vasco Cordeiro “gritou” contra os “maus da fita” do poder central (Passos Coelho e companhia), prometeu uma gestão política amiga dos açorianos, elegeu o desemprego e o crescimento económico como bandeiras do seu mandato. Ao fim de dois anos e tal, Vasco Cordeiro falhou no controlo e na baixa do desemprego e foi incapaz de pôr a economia regional a crescer, apenas acumulando dívida e défices públicos.
Com o esforço dos contribuintes do continente, o Governo central repôs o diferencial fiscal (em 30%), aceitou (ou impôs) a liberalização do espaço aéreo para São Miguel e Terceira e continua a pagar um terço do orçamento regional. António Costa não contribuiu em nada para estas medidas e não se conhece nenhum esforço para a melhoria da vida dos açorianos.

Universidade dos Açores

Para que serve uma universidade? Em particular, numa região atlântica ultraperiférica da União Europeia, financiada pelo dinheiro dos contribuintes, com dificuldade em captar novos alunos e sem prestígio nacional e internacional? A universidade é fonte de conhecimento. É o local, por excelência, da investigação & desenvolvimento. Nos Açores, devia contribuir para aumentar a eficácia de sectores nucleares para a vida das ilhas. A saber: a agricultura, a pecuária, a pesca e o turismo. Mas vão dizer-me: “A universidade não serve para isso, não serve como departamento de investigação de atividades privadas”, como é o caso destas quatro citadas. Provavelmente não. Mas, face às vicissitudes mencionadas (região ultraperiférica, fracos recursos financeiros e dificuldade em captar alunos), já alguém pensou na necessidade de contribuir (e trabalhar com empresas) para aumentar a rentabilidade das explorações agrícolas, da pesca, da gestão e exploração turísticas ou a criação de novos produtos e serviços em cada um desses sectores?
Claro que o trabalho de investigação e desenvolvimento teria de ser pago por privados, a par de uma incubadora de novos negócios, de novas ideias. Essa é uma prática adotada por muitas universidades em todo o mundo e, sabemos, que nos Açores esse modelo tem dificuldade em vigar, em virtude do débil tecido empresarial, preferencialmente apostado em funcionar com suporte de fundos públicos. Acontece que esse modelo está derrotado pela falência do Estado. Os empresários e as suas empresas terão de viver com o que têm, sem o apoio incondicional de fundos públicos para abrir um cabeleireiro, um armazém, uma es­tufa de ananases, ou construir novos barcos de pesca. Os negócios terão de se valer por si próprios, senão fecharão. A ideia de fechar negócios não é em sim má, desde que o empresário tenha aprendido com os erros e renasça das cinzas. Com mais força, mais conhecimentos sobre o projeto que pretende pôr de pé. E nada melhor do que o saber da universidade para arrancar com bases mais sólidas. Será que a estrutura universitária açoriana estará, alguma vez, preparada para dar resposta a esse nível, contribuindo com os seus trabalhos de mestrado e recolha de informação metódica para desenvolver setores tão essenciais à vida das ilhas, como as energias renováveis, a natureza e a ecologia, o turismo, a arquitetura, a pesca e a oceanografia, os lacticínios e seus derivados?
Os fundos para as teses de mestrado do departamento de oceanografia e pescas da Horta estão a escassear e muitos dos trabalhos em curso terão um revés e novas abordagens aos recursos marinhos ficam adiados. A penúria não é de agora e o futuro aponta para a necessidade de substituir estes fundos públicos por fundos de instituições internacionais e empresas privadas. É mais difícil o caminho à frente, mas não há forma de não desbravá-lo.
Fico contente que a autarquia da Horta tenha organizado, ontem, um colóquio dedicado à economia do mar, a que chamou Mare Nostrum. Terão sido abordados as estratégias, instrumentos, projetos e potencialidades da economia do mar, como se lê na introdução do colóquio. Lá se inclui os temas da inovação, empreendedorismo, desporto, turismo e a gastronomia, algumas áreas em que a universidade não é alheia.
Em matéria de fundos públicos, o setor do turismo não se pode queixar do dinheiro investido em promoção nos últimos três anos: 90 milhões de euros. A ser verdade, parte desse valor daria um forte impulso à investigação dos recursos marinhos, a partir do núcleo da Horta, com resultados bem melhores do que a queda de 0,7% nas dormidas dos hotéis da região até Setembro deste ano, face a igual período transato. Com a entrada das companhias de baixo custo no próximo ano, como serão os casos da easyjet, Ryanair e Binter Canárias, deixará de fazer sentido investir tanto dinheiro na promoção das ilhas, já que parte dessa função será partilhada por estas companhias, as primeiras a quererem encher os aviões e daí apostadas em promover as ilhas.

 

Lei das rendas e “low cost”

O efeito conjugado da nova lei das rendas (2013) e o contributo das companhias de aviação de baixo custo está a provocar a renovação, sem precedentes, do parque habitacional em Lisboa e Porto. E porquê a combinação destes dois fatores: rendas e “low cost”. Por um lado, a nova legislação para a habitação oferece garantias aos proprietários, permitindo a atualização das rendas e contratos de arrendamento de curta duração. Por outro, a procura crescente de alojamento local nestas duas cidades, a que não é alheio o acréscimo de voos da easyjet, Ryannair, Transavia e outras, tem motivado a renovação de apartamentos e edifícios inteiros que até aqui se encontravam devolutos ou degradados.

Em cada rua da cidade de Lisboa, há cinco/dez apartamentos para venda ou em remodelação. Por toda a cidade os anúncios das mediadoras imobiliárias indiciam uma renovação com efeitos nos pequenos empreiteiros, gabinetes de arquitetura, empresas de certificação energética e impacto nos impostos imobiliários (IMT e registos notariais). Toda a cidade (Lisboa e Porto) está cheia de turistas vindos principalmente da Europa. Ingleses, irlandeses, checos, polacos, italianos, espanhóis e franceses dominam o espetro dos visitantes nesta época do ano. Em França, as escolas funcionam de seis em seis semanas, reservando uma pausa de uma semana para alunos e professores. Pois bem: em cada uma dessas pausas, que se alternam de região para região, Lisboa e Porto beneficiam da visita dos congéneres franceses, que se deliciam com o património edificado, as ruas típicas das duas “capitais” portuguesas (Centro e Norte), a gastronomia, a francesinha, o pastel de nata, o peixe fresco e o bacalhau, o fado, os rios Douro e Tejo e o bom tempo do sul da Europa.

As duas capitais açorianas (Angra e Ponta Delgada), e restantes ilhas, podem não oferecer estabilidade climática como no continente, mas a concorrência aérea trará mais visitantes às cidades e vilas locais e, dessa forma, produzirá o efeito que se constata em Lisboa e Porto. Não é necessária a intervenção de nenhum político. Basta que fiquem quietos, evitem perturbar o normal funcionamento da oferta e da procura, deixem o mercado funcionar. Acontece em Lisboa e Porto, não há razão para que não aconteça o mesmo um pouco por toda a região.

Esse efeito multiplicador poderá ser sentido pela promoção das tarifas de 88 euros da SATA Internacional, um teste à capacidade de resposta tanto da companhia, como da procura. Apesar das críticas à campanha (idêntica de há um ano), o facto é que este preço apelativo é um primeiro sinal da dinâmica da empresa açoriana. Que os seus gestores, oriundos da área da construção civil e afins, tenham aprendido a lição de há um ano e que desta vez a campanha seja mais bem-sucedida, em benefício dos hotéis, agências de viagens, guias turísticos, restaurantes e rent-a-car.

Por efeito da maior concorrência dos céus (no verão IATA 2015), que aumente a procura pelo alojamento local, afinal a oferta que proporciona ao turista o conhecimento da cultura, da gastronomia, dos hábitos dos locais. A minha batalha é pela valorização do património edificado, não é pela construção nova, pela recuperação e utilização dos nossos palacetes, casas devolutas das cidades e vilas, casas de campo, pela utilização da telha regional, pedra basáltica e madeira de criptoméria, consumo do peixe do atlântico, queijos, carne e doçaria regionais.

 

Tempo de parcerias

Os apoios públicos à criação de empresas são sempre bem-vindos, dirão os seus destinatários e empresários. Principalmente numa região ultraperiférica, como os Açores. Há incentivos para a construção e criação de tudo e mais alguma coisa. E agora surge mais um apoio à criação de “atividades de animação turística de ar livre e de turismo de natureza e aventura”, através do sistema de incentivos Competir+. O que se anuncia é que quem tenha a arte e o engenho para criar uma estrutura empresarial nestas áreas de atividade tem aqui mais uns fundos para usar.

Eu digo que quem tem a arte e o engenho deve procurar, primeiro, parceiros adequados para esse projeto e, só numa segunda fase, candidatar-se a apoios para a criação da dita empresa. Seria de profundo oportunismo e irrealismo pensar-se que basta criar uma estrutura empresarial, a partir de uma ideia, para se gerar riqueza e poder pagar fornecedores, infraestruturas, despesas de funcionamento e o salário de trabalhadores. Durante quanto tempo estaria essa empresa a funcionar?

Planear, primeiro, assegurar as parcerias internas e externas duradouras e só depois se deve avançar para o projeto. Sei que a banca olhará para estes aspetos com mais empenho do que no passado, mas não é demais refletir sobre estas temáticas, agora que há mais um enésimo fundo para se gastar nas ilhas.

Outro fenómeno muito caraterístico destes momentos é o açambarcamento dos fundos e a multiplicação de empresas da mesma área de animação (área muito vasta de negócios), para um mercado muito restrito e sazonal. Daí a necessidade de estudar profundamente as oportunidades, consultar eventuais parceiros, firmar contratos de intenções e realizar estudo de opinião sobre a proposta de negócio que se pretende criar.

Face à dimensão reduzida do mercado, muitos destes novos negócios correspondem apenas ao trabalho de uma pessoa, o mentor da empresa, que nos momentos de maior procura recrutará trabalhadores eventuais para suprir as suas necessidades. Pois bem: esse negócio, seja ele ligado ao mergulho (já há algumas empresas), aos passeios de moto-quatro, “buggys”, eventos musicais e culturais, guias da natureza, visionamento de aves e outros que surjam deve estar sempre articulado com outras empresas das áreas da hotelaria, agências de viagens, sites dirigidos ao turismo e à natureza, entre outros. A juntar a este aspeto junto um outro: a liberalização do espaço aéreo para São Miguel e Terceira. Só com mais procura pelas ilhas é que poderá ser sustentável pensar-se em novos negócios de animação turística e atividades afins.

O secretário regional, Vítor Fraga, testemunha a existência de 200 empresas nessa categoria da animação turística. Pois bem, para quem vive nas ilhas não há evidências de o número ser tão elevado, nem que haja procura atual para satisfazer tanta oferta. Mas acreditando que o número seja verdadeiro, a criação de novos negócios parece ser viável apenas com maior procura de turistas. E essa parte, como já é do conhecimento de todos, só deverá acontecer quando mais empresas de aviação passarem a fazer escala em algum dos aeroportos regionais. Portanto, sem essa premissa cumprida, pouco ou nada servirá a criação de mais um incentivo. Infelizmente, não basta afirmar que é “preciso fazer crescer a economia”, para que as coisas surjam de forma mágica. É preciso desencadear o processo, mobilizar virtudes, vontades e persistir até se atingir o objetivo. E esse objetivo é central na vida da economia regional. Sem passagens aéreas mais baratas não haverá mais turistas. No atual estado de coisas nada mudará. Aconteceu em muitos destinos europeus, como as Canárias e Baleares (só para citar exemplos estrageiros), bem como em Lisboa e Porto (com a vinda da easyjet, Ryannair, Transavia e outras). O que se conclui: devíamos estar a discutir a razão para o atraso na aprovação da proposta da liberalização do espaço aéreo para as duas ilhas açorianas e não andar a criar novos incentivos para empresas que dependem do acréscimo da procura turística.

Num testemunho recente, um casal e os seus dois filhos depararam-se com uma restauração limitada na lindíssima ilha das Flores. “Verdadeiramente deslumbrante a ilha”, afirmou-me o Henrique, proprietário de dois restaurantes conhecidos em Lisboa e autor de um livro de culinária. A resposta para a situação da restauração na ilha das Flores é simples: não há procura, não há clientes durante dez meses do ano, e portanto nenhum negócio de restauração poderá florescer nesta localização. Ou então, recorre-se à restauração familiar, cuja habitação própria se poderia transformar em restaurante durante dois a três meses do ano. Para já, não há outra solução para as Flores. A não ser que passe a ter mais clientes durante um maior período do ano. Assim, já o empresário pode pensar em projetar o seu negócio durante mais meses e, quem sabe, abrir um restaurante na ilha.

 

Estamos preparados?

Como será quando aumentar o número de turistas nas ilhas? A oferta hoteleira está preparada para receber mais turistas? Haverá capacidade para oferecer mais refeições nos mesmos restaurantes ou a carne e o peixe irão acabar rapidamente em cada estabelecimento? Os funcionários de hotéis e restaurantes terão o mesmo sorriso caso a procura duplique no próximo Verão? Os “rent-a-car” irão duplicar de preços para “sacar” mais dinheiro nos três meses de negócio efetivo nas ilhas, ou a frota é que poderá duplicar para responder ao afluxo de turistas, decorrente da previsível operação de mais companhias de aviação? Numa sociedade orientada por socialistas-marxistas estes assuntos seriam tratados em reuniões de altos quadros da administração pública. No atual enquadramento, apenas aos privados diz respeito satisfazer a crescente procura que eventualmente tenham. E pergunta-se? Os digníssimos empresários já pensaram no assunto? Irão pensá-lo alguma vez? Para bem dos seus negócios é bem que pensem e que tenham soluções de contingência para satisfazer picos de procura. É que as oportunidades escasseiam e quando surgem há que estar preparado.

O maior grupo hoteleiro português, de nome Pestana, acaba de comprar o Hotel Bahía Palace, na ilha de São Miguel. Um dos seus administradores assume que, “para já”, não estão a equacionar a compra de mais hotéis nas ilhas, além da gestão de duas pousadas na Horta e Angra do Heroísmo. Nas suas palavras (reproduzidas em entrevista noutra página deste jornal digital), José Theotónio afirma que “irá estudar o mercado”, avaliar as dinâmicas do negócio na ilha e que essa é a sua principal preocupação inicial. Conhecendo o grupo há mais de uma década admito que Dionísio Pestana não irá ficar-se por aqui, desde que a operação do Bahía Palace dê bons frutos. Nem a exploração de um hotel, numa determinada localização, é a inclinação da marca madeirense. Portanto, a equipa que ficar à frente deste hotel irá testar o mercado no decurso do próximo ano, dotá-lo das condições necessárias para fazer dinheiro e dar resposta à procura que tiver. Chama-se a isto profissionalismo. Muitos anos do acumular de conhecimento de mercados como Lisboa, Algarve, Madeira, Porto, Londres, Barcelona, Colômbia, Argentina…

Para os empresários micaelenses, a experiência deste grupo deveria ser aproveitada para potenciar áreas tão diversas como a promoção turística, a valorização da marca, a venda de semanas de férias (clubes de férias), o golfe e as sinergias entre empresas do grupo. Que seja o empresariado a assumir as rédeas da promoção turística das ilhas, a fazer-se ouvir junto daquelas entidades públicas imprescindíveis ao acompanhamento do sector, mas que se unam e que tenham iniciativa. Não esperem pela orientação estatal para darem o primeiro passo. Não façam o mesmo que no passado. Porque se assim for, perdem protagonismo, ação e mobilização.

 

Efeito Pestana

Nascido há algumas décadas na ilha da Madeira, o grupo Pestana gere 51 hotéis em 15 países, dezenas de pousadas em todo o território nacional e acaba de comprar a IATH, sociedade que é proprietária do Hotel Bahía Palace, unidade localizada na baía de Agua D´Alto, em São Miguel. 

O seu portfólio inclui ainda aparthotéis, clubes de férias, participação na companhia de aviação "charter" Euroatlântic e a concessão do único casino da Madeira.

Os Açores não são território virgem para o grupo liderado por Dionísio Pestana. Há anos que é proprietário de duas pousadas localizadas na Horta e em Angra. Portanto, conhece perfeitamente os fluxos turísticos, a sazonalidade e os constrangimentos das ilhas. Um deles reside no transporte aéreo, até agora controlado pelo duopólio SATA/TAP Air Portugal. Ao liberalizar-se as rotas para São Miguel e Terceira, derruba-se um dos obstáculos ao aumento dos fluxos turísticos para os Açores.

O processo de abertura dos céus nas duas ilhas está ainda pendente no governo central, mas tudo leva a crer que no Verão IATA de 2015 já seja possível viajar numa companhia de aviação que não apenas a SATA ou a TAP. Se a oferta se alargar à easyjet ou Ryannair, os preços das passagens aéreas deverão baixar dos actuais 200 a 250 euros por passageiro e, dessa forma, aumentar a procura para as ilhas. Essa dinâmica terá sido determinante para que o grupo Pestana olhe para os Açores de outra forma.

Segundo a imprensa a operação pode não ficar-se pelo hotel à beira mar, mas alargar-se a outras unidades, como seja o hotel Avenida, encerrado pelo grupo Bensaúde. Esta intenção de Dionísio Pestana apenas demonstra a forma de trabalhar de um grupo especializado no sector do turismo. Ao invés de abordar o mercado de forma defensiva, o grupo madeirense ataca em várias frentes para poder criar massa crítica e assegurar uma base sólida na maior ilha açoriana.

Aliada à liberalização do espaço aéreo, a descoberta dos Açores pelas principais revistas internacionais é outro factor que o grupo madeirense deverá potenciar no futuro próximo. A sua máquina comercial, reforçada com a parceira Euroatlântic, são sinónimo de projecção adicional dos Açores, algo que nunca tinha sido feito até hoje.

Diria que o binómio Pestana/"low-cost" poderá trazer um novo ciclo de crescimento sustentado do turismo regional, após vários anos de quedas consecutivas das receitas hoteleiras, das taxas de ocupação e do encerramento de hotéis. Não se pense que apenas as duas ilhas fornecidas com voos directos irão beneficiar desse afluxo de turistas. Todas as nove têm a oportunidade de atrair visitantes, desde que apresentem ofertas de qualidade ao nível do alojamento, restauração, aluguer de automóveis, instalações balneares e de atracções culturais.

 

Mais aldeias da Cuada

A TVI emitiu uma reportagem, em meados de Agosto, sobre a aldeia da Cuada, na ilha das Flores, realçando as virtudes do turismo rural, a reabilitação de casas em pedra (16 no total) e a satisfação dos hóspedes. Alguns dos testemunhos: "Há onze anos que vimos para a mesma casa (Esméria). Ficamos apenas três semanas porque a minha mulher não quer ficar mais tempo", aludia um dos hóspedes (que não é identificado na peça jornalística da televisão portuguesa). "É a primeira vez de muitas, espero. Sentimos que o tempo passa mesmo muito devagar", afirmava outra hóspede, igualmente por identificar pela TVI. Na página do Facebook da aldeia da Cuada retirei este comentário, entre muitas centenas: "Fica aqui o nosso obrigada e o desejo de que a vossa Cuada tenha muito sucesso! Adoramos a estadia e a vossa maravilhosa ilha das Flores! Um beijinho enorme!", escreveu a 21 de Julho Susana Farinha, que vive em Lisboa. Não é fantástico ter estes reconhecimentos dos turistas? Será que outro tipo de alojamento turístico (de qualidade e bom gosto) pode transmitir tamanha satisfação após um período, de uma, ou duas semanas, numa casa construída de pedra, rodeada de montanhas, com cascatas, hortas familiares, animais domésticos e o avistamento do mar? Poucos serão os locais dos Açores com tamanha diversidade e qualidade ambiental como esta zona afastada da ilha das Flores. O modelo de sucesso está aí. Ah: se quizer alojar-se numa dessas casas apenas o poderá fazer em 2016, porque o Verão de 2015 encontra-se lotado. Claro que são 16 casas para quatro ou seis pessoas; claro que é numa ilha com alguns milhares de habitantes; claro que não tem o impacto económico de um hotel com 120 quartos; claro que é para um turista especial, que precisa de ver a natureza na sua forma original, sentir as pedras que pisa, ouvir as aves a chilrear, como o açor, falar com as gentes locais. Mas não é isso que procurámos há muito? Ou ainda não se tinham dado conta que é desses turistas que precisamos? E que os há em crescente número? São turistas que gostam de comer o pão cozido na aldeia, colher as hortaliças nas traseiras da sua habitação de férias, comer as frutas das árvores, beber o leite ordenhado da vaca do pasto vizinho, realizar passeios pedestres e banhar-se no mar do Atlântico, para refrescar e regenerar o corpo e a mente. Mas não é para esse modelo turístico que as ilhas estão predestinadas? Ou há quem ainda tenha dúvidas? Para aqueles que subsistam dúvidas, o futuro continuará a ser penoso e porventura de desgostos. Para os empresários com os pés assentes na terra essa é a via mais sustentável, viável e duradoura. A provar o que acabo de escrever está a distinção da Aldeia da Cuada, pela conceituada revista internacional "Travel and Leisure", como um dos "50 Hotéis mais românticos do mundo" de 2011. Acho que é uma prova da qualidade do trabalho desenvolvido pela família Silva, cuja proposta de investimento, há mais de dez anos, foi considerada por governantes da altura como "sem viabilidade financeira", disse Carlos Silva, na reportagem. Volvidos estes anos todos, o modelo mantém-se e dá cartas. Quem tinha razão? Mais recentemente, entre 22 destinos europeus os Açores receberam nova distinção do programa internacional "Quality Coast", promovido pela organização europeia "Coastal & Marine Union". O que estava em jogo: indicadores de sustentabilidade, como a natureza, meio ambiente, identidade local e cultura, turismo e negócios. Os Açores receberam uma pontuação de nove pontos num máximo de 10. Não sei o que mais falta para adoptar um plano, a cinco ou dez anos, para tornar as ilhas como destino ecológico. O que implica uma mudança cultural dos hábitos dos habitantes das ilhas e medidas concretas, incluindo de âmbito fiscal, para incentivar hábitos individuais e colectivos amigos do ambiente. 

 

Para quê o planeamento

Como transformar a beleza das ilhas em riqueza? Para começar, planeando as necessidades futuras em matéria de alojamento, nas diferentes tipologias. É desejável projetar áreas de implantação de futuros hotéis e “resorts”, de preferência em zonas junto ao mar. A par do enquadramento fiscal, disponibilidade de mão-de-obra qualificada e despesas e procedimentos camarários, futuros investidores gostariam de saber com que poderão contar quando aplicarem o seu di­nheiro nas ilhas açorianas. Seria uma Loja do Cidadão orientada para investidores. Todas as questões úteis, para novos empreendimentos, seriam tratadas nesse departamento, num só local. Como alguém que chega a uma cidade pela primeira vez e o proprietário do alojamento que reservou conta-lhe tudo o que poderá encontrar em seu redor. Neste caso, aplicado a novos investimentos. Uma carta de boas-vindas para o investidor. É fácil e daria frutos de qualidade.

Imagine-se um investidor chinês, japonês ou europeu que chega ao aeroporto de uma das ilhas e pretende contactar entidades públicas para identificar as obrigações necessárias para iniciar investimentos. Hoje, teria de ir à respetiva autarquia, departamento fiscal, registo predial (caso já tenha terreno reservado), bem como ao departamento estatal para verificar a existência de fundos comunitários destinados ao investimento pretendido. O que se propõe seria facilitar a vida ao investidor. Porque os tempos mudaram, a competitividade entre regiões/países é feroz e o dinheiro é aplicado no melhor retorno possível.

A autonomia regional deveria servir para uma política agressiva de impostos. No panorama internacional de concorrência do investimento, caberá aos deputados regionais adotar uma estratégia de redução dos impostos, desde que cumpridos determinados pressupostos: criação efetiva de emprego, investimento acima de determinado montante e obrigatoriedade da manutenção do empreendimento durante cinco ou dez anos.

Essa estratégia teria de ser discutida com todos os partidos políticos e receber contributos de associações empresariais e câmaras de comércio das ilhas. Essa é uma base de trabalho viável e que certamente nenhum partido está em condições de recusar.

Os recentes números de 800 milhões de euros de investimentos na compra de casas acima de 500 mil euros é a prova de que Portugal está na moda. Chineses, angolanos, franceses e nórdicos são os principais interessados em obter o visto “gold” de residência no país. Resta agora incentivar o investimento em hotelaria, “resorts” ou na recuperação de património para alojamento, afinal aquele que interessa aos Açores, num momento de aparente viragem dos transportes aéreos e da introdução da liberalização de duas rotas (São Miguel e Terceira).

A reabilitação de hotéis atualmente encerrados em várias ilhas passa pela criação atrativas do investimento. Poucas são as formas de cativar dinheiro que não passam pela fiscalidade. No imediato, poderá perder-se receitas, mas a prazo o retorno é garantido, tanto para o investidor, como para o Estado. Haja coragem para tomar decisões e congregar interesses.

Eduardo Tavares de Melo

Jornalista c.p. 3391

 

Não basta a diferenciação

As ilhas acolhem eventos culturais, desportivos e recreativos que carecem de maior visibilidade no exterior e devem acompanhar a promoção turística dos Açores. Através dos canais tradicionais (agências de viagens e promoção seletiva), redes sociais (Facebook e emails dirigidos) e o convite de jornalistas de revistas internacionais de referência em viagens, é desejável que cada iniciativa seja promovida de forma atempada entre os açorianos, mas principalmente junto dos mercados emissores do continente e do resto da Europa. Num apanhado, de memória, consigo identificar dez eventos que podem chamar mais turistas aos Açores e mobilizar um cem número de atividades, desde o transporte aéreo, rent-a-car, restauração, hotelaria e comércio.

À distância (já que escrevo a partir do continente), parece-me notório que as dezenas de festas do Espírito Santo, que ocorrem um pouco por todas as ilhas, devem merecer tal projeção; as touradas à corda na ilha Terceira (apesar de não ser aficionado), que chegam às 1.500 anuais! (espero não estar enganado), traduzem a vivência de uma ilha dedicada à tauromaquia; a semana dos baleeiros no Pico - não há tradição mais enraizada do que os barcos baleeiros e as memórias desse tempo de fartura para as gentes da ilha; mas também os festivais musicais em Santa Maria (Maré de Agosto); a semana do mar, na Horta; as cavalhadas de São Pedro, na Ribeira Grande (São Miguel) - apesar da contestação à sua genuinidade -; as semanas de surf, na praia de Santa Bárbara, e de parapente, em São Miguel, que trazem centenas de atletas de todo o mundo. Mas há outras atividades que pecam de maior projeção. A saber: pesca desportiva de alto mar, a partir da Horta, e eventualmente também do Pico; “whale watching”, ou avistamento de cachalotes, baleias, golfinhos e tartarugas; e o festival Walk&Talk, que consiste em pintar paredes de edifícios degradados, transformando o velho numa obra de arte pública. E acrescentava: por que não promover experiências vinícolas no Pico e Graciosa, no período das vindimas (à semelhança do que é feito ao longo do rio Douro); o avistamento de aves em várias ilhas; e ainda a promoção da viola açoriana (instrumento musical com características únicas e um som distintivo), através de um festival anual.

Estes são alguns dos momentos culturais e desportivos que devem acrescentar valor aos empreendimentos turísticos, que por si só devem apelar aos sentidos e ao conforto. Como já escrevi noutra altura, o turismo de habitação, a reconversão de património edificado e novos empreendimentos turísticos, com design apurado, devem compor a oferta turística dos Açores. Mas não basta o alojamento turístico de qualidade. É necessário acrescentar valor ao período de férias dos visitantes, através da promoção de eventos culturais “tão genuínos quanto possível”. O carnaval brasileiro não teria cabimento na oferta cultural dos Açores. O artifício não colhe no visitante experimentado. Traduz apenas uma farsa e um custo para os contribuintes.

Eduardo Tavares de Melo
Jornalista c.p. 3391

 

Finalmente a liberalização

Estou expectante em saber o impacto da liberalização do espaço aéreo na economia dos Açores. Aguardada há longos anos, este novo modelo de abertura dos céus nas ligações entre São Miguel/Terceira e o continente pode traduzir-se no aumento do fluxo de passageiros para os Açores. Pelo menos, mais empresas de aviação são esperadas a partir do Verão IATA de 2015, face às atuais SATA e TAP – as duas companhias que operam em partilha de voos para cinco aeroportos regionais.
A chegada, há quatro anos, das companhias de baixo custo, easyjet e Ryanair, a Lisboa e Porto fez “explodir” o turismo nessas cidades durante todo o ano. Numa recente deslocação ao Bairro Alto, em Lisboa, as ruas encontravam-se apenhadas de gente às 02h00 da madrugada, na sua maioria estrangeiros. Pedia-se licença para circular, tantas eram as pessoas que ocupavam a via pública deste típico bairro lisboeta, conhecido pelas dezenas de bares e restaurantes.
Não será previsível que tal fenómeno seja transposto para algum dos bairros das cidades de Angra do Heroísmo, Praia da Vitória, Ponta Delgada, Ribeira Grande ou Lagoa. Nem o impacto das “low cost” será imediato. Mas seria desejável uma monitorização diária dos fluxos de turistas esperados a partir do próximo Verão. Identificar o perfil do turista que se deslocará nessas companhias: provavelmente serão jovens casais, sem filhos, à procura da beleza indiscutível das ilhas, mas também grupos de amigos, eventualmente com fortes princípios ecológicos, à descoberta do último paraíso natural à face da terra. Não esquecer a família tradicional que opta por poupar no transporte aéreo para investir no alojamento turístico.
Com as tradicionais campanhas agressivas de marketing e de preços dessas companhias, como a easyjet e Ryanair, os Açores podem vir a beneficiar fortemente desse tipo de exposição, até com mais impacto do que dez anos de campanhas publicitárias do Turismo dos Açores. Em caminho, a SATA Internacional irá “atrelar-se” ao reboliço que antecipo destas empresas britânicas, satisfazendo a procura suplementar que existir quando em algumas destas companhias se esgotar a capacidade dos aviões. Por arrasto, a empresa açoriana poderá sair beneficiada com o acréscimo de concorrência. Veja-se o que está a acontecer com a TAP Air Portugal: o número de passageiros aumentou em 500 mil neste primeiro semestre, face ao mesmo período de 2013, e, por tal facto, a empresa não consegue dar resposta à procura que teve.
Desconhecem-se ainda os impactos que a abertura de céus irá trazer à SATA Internacional, incluindo um eventual ajustamento de pessoal e de frota. Mas uma coisa é certo: nada será como dantes. A queda de 50% do preço do bilhete deverá aumentar a ocupação das aeronaves. Resta saber como se irá comportar a receita, já que ainda não foi tornado público o valor da tarifa a receber pela companhia açoriana. E se a receita cair drasticamente? Que soluções serão encontradas para pagar as despesas que não deverão baixar? Os açorianos vão continuar a sustentar uma empresa deficitária, ou a via do encerramento será a única saída para o problema?
Parece certo que a liberalização foi imposta pelo governo central, restando à região adaptar-se à nova realidade. Com uma administração de cariz político, será que a SATA Internacional terá capacidade para dar os passos certos e sair desta batalha como vencedora? Como aconteceu no passado, se a estratégia e os planos não baterem certo haverá sempre uma mão amiga (diga-se, dinheiro dos contribuintes) para saldar a dívida. Em mercado livre, a companhia açoriana não deveria receber esses apoios, até porque lesa os princípios da concorrência sã. No imediato, a empresa devia ajustar o seu quadro de pessoal e frota, mesmo reconhecendo-se o impacto que daí advém nas respetivas famílias, para numa segunda fase complementar a estrutura, em caso de recuperação da procura. Essa seria uma gestão séria e responsável da companhia, ao invés de se andar a imputar a todos os contribuintes o custo de uma empresa mal gerida.
A ineficácia e o amadorismo são intoleráveis nestes dias difíceis por que passamos. Só mesmo uma tutela perdulária e sem sentido de serviço público pode aceitar uma gestão que tem vindo a degradar o serviço e a imagem de uma empresa estratégia para os Açores.

Eduardo Tavares de Melo
Jornalista c.p. 3391

 

Parar é matar a pecuária

A pecuária sustenta milhares de agricultores açorianos e representa uma fatia não negligenciável do emprego das ilhas. Daqui se depreende que se trata de uma indústria com um peso social, económico e político relevante na vivência local. Não há ano que não se fale do pretendido aumento do preço do leite aos produtores, do agravamento dos custos de produção, do custo da mão-de-obra. Essa dinâmica amplia-se com o aproximar de eleições. Mas pergunta-se: O que fazem produtores, associações agrícolas, poder político e indústria no entretanto? Entretêm-se com o quê? Com a rotina diária (no caso dos produtores): ordenhar as vacas duas vezes ao dia (nas maiores ilhas); verificar se algum dos animais está doente, ou pode estar com o cio; verificar as condições de higiene dos animais e da ordenha mecânica. Na indústria, certamente o cumprimento das tarefas de recolha do leite, processamento e fabricação de leite UHT e seus derivados ocupa grande parte do trabalho diário.
E quem pensa no futuro da pecuária e da indústria dos lacticínios?
Manter a hegemonia da raça Frísia ou não? Cruzar a raça com outras, como a Jersey ou a francesa Montbeliarde, ou a Sueca Vermelha, para melhorar a longevidade e a resistência dos animais e aumentar os níveis de gordura e de proteínas no leite? A indústria está disponível para investir em novas linhas de produção para separar o leite, que entra nas fábricas, com menor e maior teor de gordura e de proteínas? Há fundos comunitários para este “upgrade” tanto nos animais como na indústria? O consumidor comprará derivados a preços mais elevados no leite em pó, manteigas, queijos e iogurtes? Os vários intervenientes (produtores, associações, indústria e poder político) têm canais de comunicação permanentes para resolver tanto problemas diários, como debater o futuro?
Confesso que, na preparação deste texto, não aprofundei contactos para verificar se grande parte destas questões estão limadas. Mas o que transparece é que pouco ou nada é pensado para o futuro. Como à portuguesa, as decisões são tomadas unilateralmente sem que as partes se reúnam para discutir assuntos da indústria.
Vamos tentar aprofundar estes temas. Entre os produtores, há um debate sobre o cruzamento, ou não, da raça Frísia, com presença secular nas ilhas. Qual o efeito desse cruzamento com as raças Jersey, Montbeliarde ou Sueca Vermelha (as associação têm sémen disponível dessas raças)? Apesar do resultado ser um animal com um porte mais franzino (Jersey), do que as comuns Frísia, o cruzamento permitiria ter animais mais resistentes a doenças, mas com um acréscimo de gordura e de proteínas no leite. Estes dois fatores (proteína e gordura) são determinantes para a sobrevivência da pecuária açoriana.
Em França, a indústria paga em função dos quilos de proteínas (para a fabricação de derivados) entregue nas fábricas. E desvaloriza a água que representa quase 90% do leite. Aí, o peso dos derivados é muito superior do que em Portugal e a indústria cria produtos de alto valor económico, a partir de determinada proteína do leite. É aí que está o ganho, tanto para produtores, como para a indústria. Com diferentes tipos de proteínas produzem-se queijos diferenciados e com elevado valor económico.
Nos Açores, concentram-se esforços na produção de leite UHT, sem criar valor dessa matéria-prima de qualidade. O peso dos derivados do leite é ainda muito reduzido. Esse ponto parece distinguir as indústrias dos dois países: em França, o consumidor compra queijos e iogurtes com preços elevados.
Então pergunta-se: o que fazem as multinacionais Bel e Nestlé nos Açores? Não deviam estar a mobilizar esforços, junto dos produtores, para melhorarem a genética dos animais e transformá-los em potentados de proteínas e de gordura?
Por enquanto, o leite com maiores níveis de gordura e de proteína é misturado com o restante na única linha de produção das fábricas, apesar de a indústria pagar mais pela gordura e proteínas. É esse, pelo menos, a perceção junto de agricultores contactados. Não há a separação do leite, à entrada das fábricas, porque a indústria não quer realizar investimentos em novas linhas de produção. Nesta relação de dependência produtores/indústria, os dois teriam a ganhar com a valorização da proteína (até mais do que a gordura, que tem vindo a perder peso por causa das preferências por produtos magros). A generalização do cruzamento de animais traria novos desafios: implica mais cuidados sanitários e de higiene das explorações, daí resultando em custos acrescidos. Só que esses custos acrescidos seriam compensados pelo aumento do preço do leite pago aos agricultores. Daí a necessidade de explorações modernas, que as há, mas ainda em número escasso.
Portanto, fica aqui mais este alerta provocador para técnicos, produtores, indústria e poder político não deixarem cair esta relevante atividade, que foi o ponto de partida para uns Açores mais modernos, como são hoje.

Eduardo Tavares de Melo
Jornalista c.p. 3391

 

O mundo mudou

Até o todo-poderoso BES vai deixar de ser o que era. Um banco gerido por banqueiros há décadas vai deixar de ter um Espírito Santo à frente do leme. E qual a razão para a transformação radical, quando até se pensava que tinha sido o único banco nacional a escapar ao descalabro do “subprime” e que prescindiu das ajudas de Estado? Imparidades elevadas, desaparecimento de mi­lhares de milhões de euros de fundos da filial em Angola, oito milhões de rendimentos não declarados pelo presidente do banco, Ricardo Salgado, tudo acontecimentos que minaram a credibilidade dos líderes do grupo bancário. A estratégia de omissão acabou por derrubar uma gestão, até aqui, considerada intocável, impoluta, resiliente. As estratégias de omissão são uma má opção de gestão, porque acabam sempre por serem desvendadas. É claro que este processo do BES teve esse desenlace porque houve a intervenção do regulador, o Banco de Portugal.

Nos Açores, o regulador, o poder político, que devia selar pelos interesses da região, deixa as empresas públicas apodrecer, como é o caso da SATA, com prejuízos para os clientes, os contribuintes e os trabalhadores. A porta de entrada e de saída de passa­geiros das ilhas é gerida por gestores fora do meio aeronáutico, as greves sucedem-se em períodos críticos da vida da companhia, os atrasos e suspensões de voos são uma constante nos últimos meses. A resposta para esta fragilidade gritante da empresa é a alteração de uma nova administração, ficando tudo como dantes. Não há uma explicação para os erros do passado, ninguém reconhece os erros do presente e ninguém aponta o caminho do futuro, para uma empresa estruturante da vida dos açorianos.
O mundo mudou, menos nos Açores. Aqui, continua-se a adotar os mesmos princípios do passado: nomeação de líderes de empresas públicas conforme a cor partidária; escusa na assunção de responsabilidades; gestão de empresas à custa de indemnizações e avales sem fim; degradação das condições de trabalho. Quer se trate da SATA ou de outra das mais de trinta empresas públicas regionais, a ausência de quadros de gestão qualificados e especializados nas áreas de intervenção é como se o Governo regional estivesse a dar um tiro nos pés. E, no entretanto, enquanto se acerta as agulhas já o mundo mudou outra vez. As mudanças são inevitáveis para a sobrevivência das empresas, dos postos de trabalho e da imagem da região. Ou será que a região quer pedir um resgate, como aconteceu com o resto do país? Será que os Açores querem ficar submetidos a um regime espartano, com as contas e orçamentos controlados, a pagar juros astronómicos nos próximos 30 anos? Porque parece que esse será o caminho, caso nada mude na gestão e nos gastos públicos.

Eduardo Tavares de Melo
Jornalista c.p. 3391

 

Açores destino ecológico

O que diferencia os Açores de destinos concorrentes como a Madeira, Canárias, Baleares ou as ilhas mediterrânicas? As belezas naturais, o mar, a cultura, o património edificado, a gastronomia? Cada uma destas regiões tem atrativos que motivam enchentes de turistas todos os verões. Então, porque estamos de braços cruzados à espera que um ou outro operador turístico dê mais visi­bilidade aos Açores num ano e no ano seguinte fuja para outro destino que lhe ofereça mais garantias? 

Defendo uma estratégia que faça a diferença para os restantes destinos mencionados. Não há muitas opções e uma das estratégias passa por transformar as ilhas num destino ecológico. O que é preciso fazer: primeiro, mobilizar todas as entidades, privadas e públicas, e a população em geral para um pensamento ecológico, para práticas amigas do ambiente, para um fim comum. Só com a mobilização de todos é que seria possível atingir esse objetivo, concretizável a cinco ou a dez anos. Segundo: não penso que seja uma tarefa faraónica, longe de se poder concretizar ou um fardo para os açorianos. Muito do percurso já foi feito: separação do lixo individual, tratamento dos lixos industriais, preocupações de higiene pública notórias e saudáveis, melhor ordenamento do território, bons exemplos de arquitetura moderna e de recuperação de edifícios, produção geotérmica e eólica e energia solar. Muito mais pode ser feito para que os turistas que visitem as ilhas identifiquem-se com o destino: seria desejável uma estratégia de incentivos fiscais para iniciativas a favor de energias limpas, bem como da construção de edifícios com materiais recicláveis, produção de alimentos biológicos, transportes públicos (táxis e autocarros) e privados elétricos ou a hidrogénio.
Alguns dos pequenos empreendimentos de turismo de habitação ou em espaço rural espalhados pelas ilhas, ou a recuperação de aldeias nas Flores, Pico ou em São Miguel são bons exemplos a seguir. E se perguntarmos aos seus proprietários verificamos que as taxas de ocupação superam a média da região. Por alguma razão será: a identificação com os elementos naturais, sejam eles a pedra basáltica que forma as paredes, ou a criptoméria que cobre os tetos, ou os serviços de jantar ou de pequeno-almoço de cerâmica regional, ou a gastronomia regional confecionada com alimentos da horta local, ou a água que é armazenada e utilizada para algumas funções caseiras, ou os painéis solares e fotovoltaicos que tornam o empreendimento autossustentável. São estas as caraterísticas naturais que devíamos estar a vender no exterior, a acompanhar o preço da estadia. “Tenha uma experiência única nos Açores livres de CO2 (Dióxido de Carbono)”. Antes mais cedo do que mais tarde para trilhar um caminho que considero inevitável e sustentável. Pelos Açores ou por qualquer outro concorrente.

Eduardo Melo
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Turismo de habitação versus hotéis tradicionais

O que procura o turista que visita as nove ilhas dos Açores? Um hotel igual ao que há em qualquer cidade do mundo? Ou algo que o encante, pela sua genuinidade, raízes culturais, arquitetónicas e ambientais. Acho que a resposta está aqui: o tridente cultura-arquitetura-ambiente deve sustentar estratégias públicas e privadas de investimentos. Em sintonia com a imagem das ilhas no exterior, o ambiente, o mar, a cultura, as tradições devem constar nas preocupações de quem investe nas ilhas, seja em unidades hoteleiras, no comércio, na restauração, nos serviços, na indústria. Não é sustentável a aposta em hotéis tradicionais de cidade ou em algo que se assemelhe a quatro paredes, sem alguma destas categorias (cultura, arquitetura e ambiente). Não encaixa na ideia de paraíso do Atlântico. O passado está escrito. Falta fazer o futuro. Esse deveria passar pelo turismo de habitação, pela reabilitação de património edificado nas freguesias, vilas, cidades e no campo. Essa estratégia teria um impacto acentuado nos pequenos negócios locais, desde logo na construção civil, restauração, comércio e serviços.

Os fundos comunitários têm estado orientados para o apoio a negócios de maior dimensão, como os hotéis de 150-200 quartos, quando o que se deveria ter negociado seria o apoio à reabilitação do património existente. O balanço destes 20 a 30 anos de desenvolvimento turístico nas ilhas não é brilhante, face à existência de hotéis encerrados em definitivo ou durante um longo período do ano. Nem mesmo os poucos hotéis existentes, em cada uma das ilhas, conseguem manter-se ativos em épocas baixas, com impactes relevantes ao nível do emprego e da logística. Portanto, a diversificação da oferta, assente no turismo de habitação de qualidade, com design, suportado em princípios ecológicos, ambientais e culturais, é uma ideia perfeitamente ajustável à rea­lidade açoriana. Haja visão e maturidade para trilhar o rumo mais adequado para a sobrevivência das ilhas.

Eduardo Melo