Reportagem na Grécia: "Já tirámos todo o nosso dinheiro. Deixámos de confiar nos bancos"

Nas filas para o multibanco em Atenas, ouve-se falar do fim da confiança nos bancos, enquanto cada cliente retira os 60 euros que o Governo permite.

Cerca de 40 minutos após a hora prometida, as grades da sucursal do Banco Nacional grego na praça Syntagma, no centro de Atenas, subiram lentamente mas apenas para a caixa multibanco, no primeiro dia de racionamento monetário na Grécia. 

"Estávamos à espera que abrisse ao meio-dia mas demorou algum tempo. Pelo menos esta semana só podemos levantar 60 euros por dia", diz Igor, um jovem de origem ucraniana mas que veio com os pais para a Grécia há 15 anos. Muitos jornalistas registam com as suas câmaras o primeiro levantamento, feito por um homem de meia-idade e algo intimidado pela concentração mediática.

"Já tirámos todo o nosso dinheiro e agora venho tirar o resto, ainda tenho 100 euros. Deixámos de confiar nos bancos", prossegue Igor, antes de retomar a conversa com um homem mais velho, de camisa e gravata, que também aguarda vez para levantar a dose diária de 60 euros, uma medida que se deverá prolongar pelo menos durante esta semana, após a decisão do Governo em encerrar os bancos gregos.

Igor admite ainda uma "corrida aos supermercados" para os produtos de primeira necessidade caso se mantenha o impasse negocial e se confirme o referendo anunciado para domingo sobre as negociações com os credores e as consequências" do "sim" ou do "não". "Arroz, feijão, vegetais, pode tudo desaparecer num instante".

O homem a seu lado também revela algum receio e perplexidade perante esta nova etapa da prolongada crise grega.

"Se votarmos 'sim' no referendo, dentro de cinco meses os credores vão impor toda a sua política, a economia não vai crescer e será a mesma coisa. Se votarmos 'não' também teremos muitos problemas, sobretudo se sairmos da zona euro".

A decisão do Governo de coligação liderado pelo partido da esquerda radical Syriza não provocou no imediato reacções de pânico, ou protestos generalizados. Pelo contrário, um conjunto de grupos da sociedade civil convocou para o final da tarde de hoje, ainda na praça Syntagma, uma manifestação de apoio ao 'não' no referendo, numa rejeição do acordo que segundo Atenas está a ser "imposto através da chantagem" pelos credores internacionais e parceiros da zona euro.

Para minimizar os efeitos desta nova restrição, e sobretudo após o Banco Central Europeu ter anunciado que mantinha o seu programa de financiamento de emergência dos bancos gregos, mas sem alargar a cedência de liquidez, o governo anunciou transportes públicos gratuitos durante toda a semana, enquanto o Syriza já prepara o seu comício de campanha pelo 'não', marcado para sexta-feira e que pretende com impacto internacional.

Em paralelo, e em particular na imprensa, intensificam-se as alusões a um possível "plano B" do Governo grego caso não se registe ainda esta semana um volte-face nas difíceis conversações com os representantes da União Europeia e do FMI.

No entanto, editoriais de diversos 'media' conservadores estão a acusar o primeiro-ministro Alexis Tsipras de "querer transformar a Grécia numa Venezuela", e enquanto muitas vozes admitem a reintrodução do dracma como moeda nacional, com diversas medidas já em marcha. Uma solução de último recurso, numa semana que vai ser difícil e com crescentes incógnitas.

Fonte: Lusa

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