Luís Correia, administrador da Salciçor Terceira

RE- Quando e porque é que aparece a Salsicharia Pavão, hoje Salciçor Terceira?
LC- A Salsicharia Pavão nasceu ai por 1973. Aqui na Terceira adquiriu as antigas instalações da Angro-carnes dando início ao processo de fabricação com a marca da Salsicharia Pavão.

- Nessa altura não tinha a dimensão que tem hoje…
- Nessa altura era um projeto muito mais pequeno apenas com seis funcionários. Depois foi crescendo progressivamente até aos dias de hoje em que conta com mais de 70 trabalhadores.

- Para dar forma a este projecto o senhor, que é de São Miguel, veio para a ilha Terceira…
- Viemos um bocadinho a trás do Modelo. Estávamos a enviar para o hiper produtos feitos em São Miguel o que não era muito viável por muitas razões, de entre elas, os transportes e o seu custo. Adquirimos, então, esta estrutura onde funcionamos neste momento, e eu vim com a ideia de preparar uma equipa para, depois, voltar a São Miguel. Mas diga-se, em abono da verdade, que ao segundo dia já estava apai­xonado pela Ilha Terceira. E acabei por ficar por cá e não estou mesmo nada arrependido por isso.

- Quando veio para a Terceira, em São Miguel, já tinha e trabalhava na Salciçor?
- Quando vim para cá já trazia 36 anos de trabalho na área da salsicharia.

- Entretanto, neste momento, a Salciçor Terceira faz parte do Grupo FINAÇOR
- Sim, Em 2011 foi adquirida pelo Grupo FINANÇOR. Eu tinha um sócio e ele decidiu vender a sua parte à FINANÇOR enquanto eu continuei com a minha quota. Nessa altura a Salsicharia Pavão passou a denominar-se Salciçor Terceira.

- Referiu que a vinda do Modelo para a Terceira foi determinante na vossa opção de acompanharem essa vinda. Mas, com o caminhar dos anos, a Salsicharia Pavão, passou a ter um leque muito alargado de clientes…
- Como lhe disse há pouco quando vim eu já trazia uma grande experiência nesta área de negócio e isso fez com que, muito depressa, fosse estendendo a distribuição dos nossos produtos para além da grande superfície que referiu. Por isso não foi muito difícil conquistar o mercado Terceirense porque, quando aqui chegámos, Havia uma falta muito grande de muitos produtos dentro deste segmento que nós já fabricávamos: Havia, como consequência, um mercado que estava por explorar e nós aproveitámos.

- Ou seja a partir de um determinado momento os vossos produtos passaram a ficar disponíveis um pouco por toda a ilha…
- Desde logo, para além da grande superfície, através do chamado comércio tradicional, mas também, pelo nosso contacto directo com o público através das nossas secções de vendas.

- Essas secções de vendas são, ainda hoje, um segmento importante da empresa?
- Tão importante que neste momento já temos três secções de venda na ilha.

- O Nome de salsicharia pode induzir em erro e levar a pensar que só vendem produtos de salsicharia. Contudo não é assim, a vossa empresa acaba por ter um leque muito variado de produtos de marca à venda…
- Acabamos por ter uma vasta gama de produtos à venda que vão desde as carnes frescas a uma série de congelados, em que se incluem desde os produtos verdes, aos peixes, ao marisco, às batatas pré-fritas, entre muitos outros.

- Produzem a carne que vendem ou adquirem fora para depois transforma­rem?
- Após a nossa entrada no Grupo FINANÇOR a produção, quer das aves, quer dos suínos, passou a ser própria. A única coisa que importamos são congelados à base de peixe, mariscos, e uma outra carne, congelada, do Brasil, por exemplo picanha e file, tudo o resto tem origem na Região.

- Há poucos dias tivemos oportunidade de entrevistar o Vice-presidente da FINANÇOR que nos disse que a Salciçor Terceira fa­tura mais que a sua congénere de São Miguel. Isso é uma prova de que a marca tem uma forte relação de afecto com o público?
- Bem, desde logo, é preciso não esquecer que a Salciçor em São Miguel tem muito mais concorrência do que nós aqui. Mas, por outro lado, não posso deixar de constatar que há uma pro­ximidade muito grande entre a nossa marca na Terceira e os consumidores. Acaba por ser o resultado da tal experiência, que já mencionei, que trazia comigo quando vim para cá. Essa experiência fez-me aplicar um conceito que considero muito importante: não era a Terceira que tinha de adaptar-se aos nossos produtos mas justamente o contrário, ou seja, nós é que tínhamos de nos adaptar aos gostos e necessidades dos terceirenses. Com base neste pressuposto, com o cami­nhar dos anos, esses laços de afecto foram-se criando e consolidando colocando-nos no patamar em que nos encontramos.

- Uma outra marca evidente da vossa actividade é a aposta continuada em promoções. Porque seguem esse caminho?
- É importante e tem dado frutos. Como sabe o nível de vida das pessoas está a descer e a provocar grandes dificuldades nas suas vidas e elas procuram sempre pelas promoções o que nos faz postar nas mesmas. É mais uma forma de criarmos os tais laços com os cliente de que já aqui falámos.

- Os tipos de consumo têm que ver com as diferentes épocas do ano?
- Sem dúvida que sim. Por exemplo, a partir de agora entramos na época dos churrascos e das touradas sendo, por isso, para nós, uma época alta a que devemos acrescentar, igualmente, o Natal. Quanto ao resto do ano, os meses mais fracos, acabam por ser meses padrão em termos de consumo sem grandes va­riações.

- Qual é, neste momento, o segmento da empresa que proporciona um maior índice de facturação?
- Neste momento, sem nenhuma dúvida, as nossas secções de venda directa ao público.

- Embora vendam bens de primeira necessidade, sentiram uma diminuição do consumo gerado pela crise?
- Em primeiro lugar, mesmo sendo bens de primeira necessidade, para que as pessoas os comprem precisam de ter dinheiro disponível o que não é verdade, porque há cada vez menos dinheiro disponível nas famílias. Por outro lado sim, sentimos, e continuamos a sentir, os efeitos da crise em termos de diminuição de consumo que, no nosso caso, desceu em valores que de 2010 até finais de 2013, representam menos 30 por cento. Outra consequência, e sinal visí­vel do que estamos a falar, tem que ver com o facto de, em 2010, termos ao nosso serviço 88 funcionários e, neste momento, apenas temos a trabalhar 75 pessoas, ou seja, em poucos anos tivemos de extinguir 13 postos de trabalho.

- Essa diminuição em que segmento se fez sentir com mais força?
- Em todas as valência da nossa empresa de uma forma idêntica. Foi uma perda global de 30 por cento.

- Ao longo do percurso da empresa alguma vez recorreram aos programas de apoio disponíveis nos Açores?
- Não. O meu ex-sócio tinha por princípio não recorrer a quaisquer subsídios e, dentro desse figurino, tudo o que fomos fazendo na empresa foi feito com recurso a capitais próprios.

- Nesta fase em que a empresa passou a integrar um grupo maior, e com o novo quadro comunitário de apoios, está aberto o caminho para apresenta­rem candidaturas de projeto, ou projectos?
- Vai ser, por certo, uma nova oportunidade. Desde logo porque temos o projecto de construi uma nova fábrica na zona industrial que necessita dessas ajudas comunitárias face à enorme dimensão do investimento.

- A nova fábrica levará a Salsiçor Terceira a sair das actuais instalações?
- Ainda há muitas coisas a serem ponderadas mas a parte industrial irá para a nova unidade ficando aqui a parte comercial. Repare que temos essa necessidade uma vez que este local onde estamos não foi construído de raiz para a nossa actividade. Se que­remos continuar a crescer no futuro necessitaremos de um novo espaço desenhado especificamente para o efeito, um espaço que será dotado de novos e modernos equipamentos que irão completar a vasta, e mo­derna, maquinaria de que já dispomos neste momento.
- Na sua actividade acaba por ser um observador privilegiado das preferências das pessoas no que diz respeito aos seus há­bitos alimentares. O que é que as pessoas comem mais?
- Neste momento as carnes de aves. Tem que ver com a nova fase da empresa, integrada no Grupo FINANÇOR, em que passamos a disponibilizar carne de aves com origem nos Açores com grande qualidade.

- O vosso mercado é ape­nas a ilha Terceira ou exportam para outras ilhas?
- Para além da Terceira, exportamos os nossos produtos para as ilhas Graciosa e São Jorge.

- São bons mercados?
- Sim, principalmente a ilha Graciosa, apesar do seu reduzido número de habitantes.

- Quando falamos de exportar temos de falar, necessariamente, da componente transporte. Esse facto está ajustado às necessidades da empresa?
- Aqui entre estas ilhas as coisas, desse ponto de vista, funcionam bem com a empresa, os TMG, com quem trabalhamos, que dispõem de todas as condições para o efeito. Já no que diz respeito às ligações entre o continente e a Terceira que, desde 2013, temos vindo a enfrentar algumas dificuldades que têm que ver, sobretudo, com a periodicidade com que os barcos escalam a ilha Terceira.

- A entrada no Grupo FINANÇOR foi um momento marcante na vida da empresa?
- Trouxe um sem número de vantagens. A Salsiçor Terceira ficou muito mais sólida ao juntar-se a um Grupo com a dimensão da FINANÇOR, com segmentos diversificados na área da produção alimentar. Beneficiamos, em todos os domínios, dessa inclusão.

- Como empresário sente que há sinais de que a crise possa estar a ser ultrapassada?
- Devo dizer que não estou nada optimista porque a ilha Terceira está a enfrentar uma série de problemas cuja solução não vislumbro. As festas, somos uma ilha de festas, por si só não chegam para reacender a economia. Tínhamos de apostar muito no Turismo e esse é um domínio em que, sinceramente, vejo tudo muito parado. Ainda há pouco tempo fui ao Faial e, de repente, só ouvia falar espa­nhol, inglês, alemão. É visível um enorme desenvolvimento do Turismo no Faial e no Pico, colocando essas ilhas ao nível do que já está a acontecer em São Miguel. Infelizmente constato que a Terceira está, ainda, muito longe desse nível.