Luís Machado, proprietário da Imobiliária Picaporte

RE- Como surgiu esta imo­biliária num campo de trabalho que, na altura, não se situava nesta área de negócios?
LM- Não houve, na altura, nenhuma motivação que tivesse que ver com o facto de achar este negócio inte­ressante.

Na altura tinha, e ainda tenho, a pastelaria O Forno e no contacto diário com um grande número de clientes dei por mim, de repente, com um grande número de pessoas a perguntarem-me se eu tinha conhecimento de casas ou de lojas que de que precisavam. Desse contacto muito alargado com esse grande número de pessoas, por ve­zes, sabia da exis­tência de imóveis com as ­cara­cterísticas desejadas e lá ia dando essas informações. Fruto disto, em determinado momento, tinha-me transformado numa espécie de ponto de encontro entre partes interessadas em ven­der e comprar. Por essa altura uma pessoa perguntou-me por um estabele­cimento aqui na baixa de Angra e eu sabia, de facto, da existência de um espaço. Dei os contactos a ambas as partes e até fui, no meu carro, mostrar ao interessado aquilo de que ele andava à procura sem tirar qualquer proveito disso. Nesse momento disse para mim mesmo que era chegado o momento de avançar, estávamos em 1998, com a cons­tituição de uma empresa vocacionada para este tipo de serviços. Tratei do licenciamento num processo que foi complicado e moroso e foi assim que nasceu o “Picaporte” numa altura em que, felizmente, apanhámos anos muito bons neste sector de actividade.

- A empresa arrancou justamente na altura do boom imobiliário. Não sentiu, nesse auge, nunca a ideia de que esses dias dourados poderiam, em algum momento, terminar?
- Sempre tive alguma ligação ao sector da construção porque o meu pai tinha, entre outras, uma vertente empresarial ligada a esta área e lembro-me de, muitas vezes, apertar com os mestres para eles trabalharem mais e mais depressa e deles me dizerem para ter calma porque dali a pouco estariam todos sem trabalho. Estávamos no final dos anos 80 e, na realidade, a década de 90 foi uma época de pouco trabalho antes do tal boom que referiu que chegou ao virar do século. Por isso sempre fui concluindo que esta actividade se desenvolve por ciclos que vão alternando entre o bom e o mau. Essa época do início dos anos 2000 foi uma época de ouro em que, consequência de uma conjuntura internacional muito favorável, todos acreditaram que iriam viver anos de expansão. Pelo meu lado sempre fui pensando que os anos maus iriam chegar mas nunca imaginei que chegassem desta forma nem com esta intensidade.

- Uma empresa com estas características é uma empresa de mediação fazendo a ponte entre quem quer comprar e quem quer vender. Para além disso, pergunto, prestam outro tipo de serviços relacionados com o negócio, ou seja, a organização de toda a burocracia?
- Em determinada altura sim, tratávamos de tudo mas depois a lei foi alterada e todo esse trabalho de orga­nização de papelada passou a ser exclusivo dos solici­tadores. Contudo como temos todo o conhecimento processual o que fazemos é analisar todo o negócio do ponto de vista burocrático e, nesse contexto, dizemos aos clientes o que precisam de fazer encaminhando, depois, todo o processo para um solicitador. Por outro lado fazemos, igualmente, pressão sobre os solicitadores, quando é necessário, para que eles acelerem os processos que têm entre mãos. Para além disso, como disse, a nossa atividade é de mediação, ou seja, arranjar um comprador para um imóvel que determinada pessoa tem para vender ou vice-versa.

- Quando alguém se dirige à sua empresa com a intenção de vender uma casa como é que o processo se inicia?
- Desde logo indo visitar o imóvel para o ficarmos a conhecer e podermos, com isso, enquadrá-lo dentro de um conjunto de valências em que se inclui o preço que, neste caso, são os chamados valores de mercado. Hoje estes valores são totalmente diferentes dos que se pra­ticavam nas décadas anteriores. Nessa altura o valor de mercado seria, por exemplo, de 100 mil, nós aconselhávamos 140 e, muitas vezes, vendia-se por 160. Neste momento o cliente acha que vale 140 e o valor de mercado é de 80. Para além destas componentes anali­samos toda a documentação do imóvel que se pretende vender porque muitas vezes há imóveis para os quais há comprador mas que não podem ser vendidos uma vez que a papelada não permite que o negócio seja consumado.

- Qual a motivação para a venda de um imóvel? Provavelmente serão várias e hoje diferentes das que se verificaram nos tais anos de ouro que já referiu.
- Há uns dez anos atrás havia pessoas que iam construindo as suas casas e, posteriormente, vendendo, com mais valias, para investirem noutra melhor e, com o lucro obtido, reduzindo as suas prestações mensais. Hoje em dia a realidade é bem diferente. Há pessoas que tentam vender as suas casas com a intenção de reduzirem as suas prestações mas a realidade é diferente e as taxas de juro impedem que essas pessoas consigam concretizar esse objectivo. Resumindo há muitas pessoas a tentarem vender para melhorarem a sua situação financeira do mesmo modo que há muitas pessoas que, tendo investido no sector porque era rentável, agora face à situação que se vive, querem desfazer-se dos imóveis de que são possuidores.

- Do lado da compra, quem é que, hoje em dia, compra casas?
- Alguns jovens que, tendo acabado a sua formação, tiveram a sorte de conseguir bons empregos e um conjunto de pessoas com capitais que, numa tentativa de diversificarem os seus investimentos, procuram num momento de maior fragi­lidade económica, comprar imóveis por preços muito vantajosos. O leque de compradores é muito reduzido também porque a banca res­tringiu muito a cedência de crédito e as taxas de juro são muito altas.

- Leio por vezes anúncios de venda de imóveis que garantem o financiamento da compra dos mesmos a 100 por cento. Isso é publicidade enganosa?
- Não, não é! Estamos pe­rante uma situação que considero como concorrência desleal para as imobiliárias. Os anúncios que refere que oferecem 100 por cento de financiamento são anúncios que reportam à venda de imóveis que são propriedade dos bancos. Digo que é des­leal porque é aliciante para quem precisa de comprar a oferta de 100 por cento do financiamento o que faz concorrência directa com os imóveis que são propriedade dos particulares que não dispõem dessa vantagem e de outras que se prendem com spreads muito aliciantes para os dois primeiros anos de quem comprar casas dos bancos. Contudo devo dizer que as pessoas que se sentem aliciadas por esses spreads dos primeiros dois anos deveriam ter algumas cautelas porque, após esse período, pelo menos no que diz respeito a algumas campanhas de alienação de imóveis dos bancos, não se sabe o que vai acontecer.

- O Passaporte dourado, introduzido pelo governo da República, no sentido de estimular o investimento estrangeiro no sector imobiliário trouxe alguma mais valia no caso concreto dos Açores?
- O gold card tem tido um grande papel no continente português ao passo que aqui na Região, tanto quanto sei, não tem qualquer expressão. Já fiz alguns contactos com ou­tras empresas no sentido de, em conjunto, fazermos alguma coisa porque julgo que temos um leque de património que se adequa a esse tipo de clientes mas, até à data, não temos tido qualquer tipo de sucesso porque esses investidores, pelo menos é o que eu sinto, não estão disponíveis só para aplicarem dinheiro com a intenção de obterem a legalização em Portugal. Querem, sobretudo, investir com expectativa de retorno, muitas vezes incompatíveis com o facto de sermos meios pequenos, a que se junta a eterna questão das ligações aéreas nem sempre as melhores e quase sempre caras. Por outro lado esta matéria tem uma outra face que se prende com aquilo que pretendemos para o futuro das nossas ilhas. Ou queremos manter a nossa qualidade de vida, o nosso ambiente em níveis de qualidade, garantir a segurança ou, pelo contrário, queremos massificar abrin­do as portas, como tem acontecido nalguns casos, no continente, à entrada de pessoas que se incluem em organizações mafiosas. Isso poderia colocar em causa, no futuro, tudo aquilo de que dispomos neste momento. Por isso acho que, no caso açoriano, e preciso definir um rumo, acima de questões partidárias, que possa enquadrar no futuro esse movimento de captação de investimento no sector imobiliário.

- Neste contexto de arrefecimento o mercado de arrendamento disparou?
- Ao contrário da expectativa que havia há uns dois anos atrás, por altura da revisão da lei do arrendamento, o mercado de arrendamento não des­colou. Nessa altura pensou-se que haveria mais gente a investir nesse segmento do mercado e que, possi­velmente, os preços poderiam mexer para me­lhor mas a verdade é que está a verificar-se precisamente o contrário. O mercado de arrendamento tem vindo a diminuir, quer em termos de oferta, quer em termos de procura, com a consequente baixa dos preços.

- Quanto à sua empresa, tem projectos para o futuro ou a conjuntura aconselha apenas gestão corrente?
- A conjuntura aconselha, neste momento, gestão corrente. Face às indefinições que há pouco referi penso que a apreensão dos empresários, não só os deste sector, irá manter-se por isso o que estamos a fazer neste momento é uma gestão corrente que nos permita aguentar a conjuntura e estando atentos no sentido de perceber o que vai acontecer no sentido de podermos tomar decisões. Isto não é um ritmo que agrade a ninguém.