Telma Barcelos, uma das proprietárias da “Quinta dos Açores”

RE- Como é que nasce este grupo?
TB- Começou há muitos anos atrás. O meu pai era funcionário publico e o meu avô, pai da minha mãe, tinha uma pequena exploração pecuária com 20 cabeças de gado. A determinada altura o meu avô decidiu desfazer-se da sua atividade e comunicou, à hora do almoço, a sua intenção de vender as 20 vacas que possuía.

O meu pai ouviu e, da parte da tarde, na Câmara, fez contas e à hora do jantar anunciou a sua decisão de comprar as vacas ao sogro o que não agradou muito à minha mãe que tinha a noção de uma vida difícil para quem se dedicava àquela atividade mas o meu pai achava que era um negócio com potencial de crescimento e avançou com a ideia. Com as vinte vacas vieram dois cavalos, um boi de trabalho e uma carroça. Foi assim que começou. Como o meu pai não percebia, na altura, muito do negócio procurou pessoas com mais experiência, veterinários, professores da Universidade, enfim pessoas com mais experiência e visão naquela área de atividade adquirindo, desse modo, os conhecimentos necessários. Decidiu comprar um trator e, depois, percebeu que não ia ter dinheiro para o pagar face ao número reduzido de vacas de que dispunha. Para não ter de enfrentar a vergonha de devolver o trator comprou mais vacas e, depois, percebeu que só um trator já não chegava e teve de comprar outro. Foi dessa forma que tudo começou num espírito, que o meu pai sempre nos transmitiu, de que, quando as oportunidades aparecem, ou se agarram ou se perdem.

- Depois dessa fase de aprendizagem o seu pai foi fazendo o negócio crescer....
- Foi o primeiro a trazer para os Açores animais de alto va­lor genérico depois de visitas à Alemanha, França e Holanda. Adquiriu, nessa altura, muitas vacas e começou, ao mesmo tempo, a exportar gado vivo quer para o continente, quer para outros países. Foi assim que iniciou o seu negócio na fileira da carne, longe ainda dos moldes atuais. Só em 1997 decidiu criar uma empresa específica para a desmancha e abate de carne, porque se apercebeu que havia essa lacuna nos Açores..

- Nessa altura a empresa deixa de dedicar-se apenas ao setor primário e avança para a indústria, mas sem abandonar a primeira. A partir dessa altura o desenvolvimento da empresa passou a fazer-se noutros moldes?
- A partir de 1997 há um forte investimento nessa área da carne. Nessa altura, eu e a minha irmã, estávamos a estudar já a pensar em vir trabalhar com o meu pai e coincide com o momento em que ele nos começa a dar conta do sonho que tinha de vir a ter uma empresa de lacticínios para poder trabalhar o seu próprio leite. O nosso trabalho na fileira da carne fez-se logo com a noção clara de que era muito importante levar a marca Açores como argumento muito forte na sua exportação. Esse sonho de se avançar na indústria do leite foi germinando enquanto acabávamos os nossos cursos. Entretanto constituíram-se mais duas empresas, uma mais virada para trabalhar a carne certificada, e a outra, que viria a ser a empresa dos lacticínios, a Quinta dos Açores. Em 2004 fizemos o projeto para esta unidade onde estamos hoje e eramos para ter apresentado a candidatura as apoios em nome das duas empresas, a Açorcarnes e a Quinta dos Açores, mas por razões que se prendiam com os requesitos do projeto acabamos por apresentar a candidatura em nome da Açorcarnes, a mais antiga das duas, acabando por só este ano passarmos tudo para o nome da Quinta dos Açores. Como referi apresentamos o projeto em 2004 que só veio a ser aprovado muito mais tarde tendo as obras começado em 2008. Nesse intervalo, em 2007, houve uma viragem na empresa porque começamos a representar a carne com IGP, abatemos os primeiros animais que foram colocados no mercado o que provocou um “boom” de faturação porque havia um enorme mercado por explorar a esse nível. Começamos a trabalhar com todas as ilhas e a colocar a carne no El Corte Inglês e na MAKRO.

- Para além de se estende­rem para o setor industrial avançaram para outras i­­lhas...
- Já tínhamos trabalhado antes noutras ilhas mas ao nível do gado vivo mas foi na verdade em 2007 que começamos a trabalhar com todas as coope­rativas e associações em todas as ilhas. Só para ter uma ideia da dimensão só em 2007 /2008 abatemos cerca de 16 mil animais que saíram dos Açores.

- Entretanto avançam para a obra que originou este novo espaço...
- Este espaço ficou concluído em 2011 o que nos permitiu avançarmos com toda uma linha de novos produtos na área da carne e introduzimos um produto que, em 2012, nos proporcionou um prémio de inovação que é a carne dos Açores fatiada em pack, um produto muito funcional em que a carne já vem fatiada numa cuvete fechada a vácuo com 25 dias de validade que chega ao mercado continental em fresco. Um produto a que as pessoas se habituaram porque não tem de ser congelado nem consumido em poucos dias, bastando que esteja no frigorífico mantendo sempre as mesmas propriedades, Depois, a 6 de Julho de 2012, inaugurámos este espaço.

- Quando inauguraram o espaço já tinham para ele objetivos bem definidos?
- Sim, além da fábrica e da possibilidade física das pessoas poderem ver o trabalho dentro da fábrica através de uma montra, abrimos também o restaurante, o snack, a gelataria e ainda o espaço de venda direta ao público tentando com isso uma muito maior aproximação ao consumidor.

- Ou seja entram também na venda a retalho...
- Sim porque sentíamos que era uma parte que não dominávamos na cadeia e quisemos, por isso, fechar o circulo. Pensámos que este segmento do projeto seria uma coisa pequena, essencialmente procurada por turistas, mas na primeira Sexta-feira, quando abrimos, tivemos casa cheia e não tínhamos capacidade de resposta. A realidade tinha ultrapassado largamente as nossas melhores expetativas. Tínhamos 3 pessoas na cozinha e fomos obrigados a avançar rapidamente para 8 em poucos dias. As pessoas gostaram do conceito e dos espaços e a publicidade fez--se através do passa-palavra. Por outro lado a conceção do espaço foi muito feliz, é muito moderno e investimos muito na construção da imagem da empresa que destaca sempre a ligação da nossa empresa e dos nossos produtos às origens e ao que é natural. Não tenho nenhuma dúvida de que o lançamento, em 2013, dos produtos lácteos com a nossa marca foi um momento alto na vida da empresa porque incentivou um enorme carinho por parte dos consumidores. Por exemplo os gelados foi um produto muito bem aceite por todos. Fizemos a primeira apresentação dos nossos gelados durante as Sanjoaninas e as filas eram enormes com pessoas à espera de vez para os experimentarem. São gelados que se destacam pela originalidade de serem feitos com leite e natas a que acrescentamos ingredientes que os valorizam e tornam muito apreciados. Quando abrimos a gelataria ela foi logo muito procurada e, ao mesmo tempo, avançamos com um conceito de snack, só com pratos de carne, em que usamos muitos dos nossos produtos lácteos e juntando ainda muitos produtos regionais. Houve, por isso, um cuidado muito grande da nossa parte no sentido de não esquecer os outros produtores e de os acarinhar neste ambicionado universo de busca permanente de uma ligação á terra.

- Têm estruturas físicas noutras ilhas?
- Só no Pico. No demais temos parcerias com produtores e associações porque também achamos importante fomentar essas ligações. Se noutros sítios já houve investimentos parece-nos mais adequado procurarmos essas parcerias do que avançarmos nós para investimentos que já terão sido feitos por outros.

- Nesta altura de crise, no fundo a mesma em que dão o salto de crescimento, sentem os efeitos da conjuntura económica mais desfavorável?
- O setor primário não tem vindo, para já, a sentir os efeitos da crise, Tanto na restauração como na nossa relação direta com os consumidores não temos sentido problemas, pelo contrário, temos vindo em crescimento da faturação o que está a verificar-se, igualmente, em 2014. Já do lado da indústria temos vindo a sentir os efeitos da conjuntura onde se verifica uma estagnação que está relacionada com a grande distribuição.

- O fator transporte é uma componente importante no trabalho da empresa?
- Sei que têm vindo a ser feitas uma série de tentativas no sentido de melhorar as condições de transporte nos Açores mas, na verdade esse é um dos maiores pro­blemas que enfrentamos no nosso trabalho. Desde logo porque estamos limitados a produzir somente naqueles dias em que há barco previsto para uma Quinta-feira mas que, por vezes, antecipa para a Quarta ou se atrasa para uma Sexta, o que nos condiciona muito e nos exi­ge um enorme investimento em termos de tecnologia para fazermos face a esse problema. Acaba por ser um problema enorme nos fluxos para as outras ilhas, nomeadamente, a ilha de São Miguel para onde nos é mais difícil enviar produtos do que, por exemplo, para o continente. Muitas vezes somos obrigados a enviar mercadoria de avião com custos elevadíssimos que, na maior parte das vezes, acabam por não se justificar.

- Esta sede, pelo que percebi, resulta de um projeto cofinanciado por fundos comunitários. O processo correu bem?
- Felizmente pudemos contar com o apoio de algumas pessoas com muita visão porque enfrentámos, na altura, uma entidade que decidiu achar que este projeto não era relevante para a Região, que nos diminuiria logo em 15 por cento a comparticipação, mas não desistimos e batalhámos para conseguir os nossos obje­tivos que acabaram por ser alcançados.

- O percurso desta empresa, deste grupo, fez-se sempre de aposta em aposta num caminho de investimento permanente. Esse espirito mantém-se?
- Sim mantém-se. Há uns anos atrás o nosso objetivo era o de virmos a ser uma referência a nível regional e nacional e hoje já ambicionamos mais no sentido de levarmos o reconhecimento da marca, também, a nível internacional. Sabemos que são passos difíceis os que têm de se dar nesse sentido mas sabemos, igualmente, que esse é o futuro. Neste momento os projetos centram-se basicamente em duas vertentes. Uma delas tem que ver com a interna­cionalização através do envio de produtos para outros países. Outra, a nível regional e nacional, que passa por um projeto de até 2017 abrimos nos espaços “Quinta dos Açores” com o conceito de snack e de gelataria.

- Através de franchising ou de investimento direto?
- Eventualmente as duas si­tuações. Há um projeto piloto para a ilha de São Miguel que virá a concretizar-se a curto prazo e é nossa intenção avançarmos igualmente para o continente.

- Dentro da atividade da empresa sei que há um se­gmento que tem enormes contornos de afetividade...
- Há uma componente muito importante para nós e que tem que ver com a nossa mascote. Logo à entrada das nossas instalações poderá reparar que temos uma vaca que as crianças adoram seja aqui nas instalações ou em festas onde fazemos apresentações e onde há sempre uma pessoa que veste um fato que simboliza essa mascote. Esta alegria prende-se com o fato de, quando éramos crianças o nosso pai nos ter oferecido uma vaca exatamente como aquela a que chamamos “Quieta” porque nunca estava quieta. Foi a forma encontrada por ele de nos fazer apaixonar por este mundo. Isto para dizer que criámos essa mascote e temos um clube, o “Clube da Quieta” que conta com mais de 300 crianças desenvolvendo uma série de atividades e passatempos relacionados com a “Quinta dos Açores” numa ligação permanente à terra. Imaginamos que se esse presente que nos foi dado pelo nosso pai, a “Quieta”, foi muito importante nesse despertar em nós desta ligação à terra, esta iniciativa será por certo igualmente importante no despertar desse envolvimento junto das gerações mais novas. A “Quinta dos Açores” não é apenas um espaço industrial, ou um snack, ou uma gelataria, mas um conceito integrado transversal que vai da criança ao adulto nessa procura permanente de explicar as nossas ligações à terra, aos Açores, ao respeito pelos ani­mais, pelo meio ambiente. É o que procuramos fazer com a “Quinta dos Açores” sabendo que é um trabalho enorme com um grande caminho a percorrer.