José Liduíno Melo Borba

JMA - Quando e porque é que nasce este seu negócio?

JLB- A ideia surgiu dez anos antes dele se concretizar. É a junção de várias ideia numa só, ou seja, o tradicional "segunda mão" que existia na ilha Terceira, os "garage sale" na América e outras formas conhecidas de vendas de artigos usados. Fomos amadurecendo a ideia, como disse, ao longo desses dez anos, ao fim dos quais decidimos colocar o negócio em marcha. Eu, a minha mulher e outros amigos que se tornaram sócios do mesmo. Em Junho de 2005 tomou a forma que ainda hoje se mantém.

 

- Nessa altura já com este espaço e com todo este volume de mercadorias?

- Não. Quando abrimos tínhamos dúvidas quanto à procura que o negócio pudesse vir a ter. Ou seja, sabíamos que havia muita gente a querer vender, mas não sabíamos se haveria muita gente a querer comprar. Por isso, quando abrimos a porta dispúnhamos deste armazém da frente com 350 metros quadrados e, mais tarde, abrimos a parte de dentro com uma área igual o que quer dizer que, no conjunto, dispomos hoje de 700 metros quadrados de superfície de vendas. Quando arrancámos dispusemos de algumas coisas nossas que tínhamos nas nossas casas e ainda com alguns produtos de amigos e conhecido. Juntou-se isso tudo e abrimos ainda com muito do espaço disponível por ocupar.

- E como foi a evolução do negócio?

- Foi crescendo. O melhor ano foi o primeiro ano completo, ou seja, o ano de 2006. Daí para cá o volume de negócios tem vindo sempre a decrescer.

- Vocês são apenas mediadores entre quem vende e quem compra?

- O que aqui temos à venda é em regime de consignação. Colocamos algumas restrições aos produtos que vendemos por uma questão prática. Roupa, sapatos e malas deixámos de ter e peças auto nunca tivemos. por uma opção feita logo à partida. Quanto á roupa tivemos, a certa altura, que decidir e optámos por não continuar a ter esse tipo de artigo á venda porque teríamos o armazém cheio de roupa neste momento porque, na verdade, há muita roupa para vender.  Como disse trabalhamos num regime de consignação em que as pessoas deixam cá as suas coisas e nós ganhamos uma comissão sobre o valor da venda das mesmas. Todos os meses "fechamos contas" a pagamos aos fornecedores as peças que, entretanto, tiverem sido vendidas.  Dispomos de um programa de computador especificamente construído com essa finalidade porque, quando começámos, não havia, a nível nacional, lojas deste tipo. Por isso, e porque o IVA correspondente á venda de bens em segunda mão tem um regime especial, tivemos de construir o software de raiz. Temos, por isso, tudo informatizado porque não há outra forma de trabalhar e controlar as coisas face ao número de fornecedores e de peças que aqui estão disponíveis para venda.

- Se bem percebi, o comprador traz os seus produtos e o comprador assume, logo quando compra, a responsabilidade do  transporte. A vossa empresa não assegura a entrega ao domicílio.

- Optámos, desde o principio, por não ter recolha nem entrega dos produtos por uma questão de custos e foi uma decisão acertada porque seria economicamente incomportável dispormos de uma carrinha para distribuição. As pessoas arranjam sempre forma de trazer as coisas para venda. Quem compra acaba, também, por arranjar forma de transportar as coisas que adquiriram para onde desejam. Quando isso não acontece há uma pessoa que, por sua conta, nos faz o transporte das coisas com o custo suportado pelos clientes compradores.

- Quando começaram, em 2005, eram pioneiros e não havia concorrência. Com o caminhar do tempo apareceram novas formas de vender em segunda mão, nomeadamente, os sites gratuitos de venda. Isso provocou algum impacto no vosso volume de vendas?

- As nossas vendas baixaram, mas não temos nenhum estudo feito que nos diga porque é que isso aconteceu.  Acreditamos, contudo, que essa quebra tem mais que ver com a crise que vivemos do que com a concorrência dos sites que referiu, embora seja levado a admitir que, num ou noutro caso, tenhamos sofrido a concorrência desse tipo de oferta da internet. 

- No vosso trabalho acabam por ter uma visão especial da realidade social em que vivemos. No caso de quem vende, quais são as motivações? porque é que as pessoas vendem? porque precisam de dinheiro?

- Penso que haverá muitas razões porque as pessoas, quando aqui chegam para colocarem os seus produtos, não se abrem e não dizem porque é que os querem vender. Mas pelo que a experiência nos diz a maioria das pessoas vende bens porque, entretanto, adquiriram outros e ainda porque, muitas vezes, recebem heranças e já não dispõem de espaço para colocar aquilo que herdam e têm necessidade de se desfazerem desses bens por esse motivo nomeadamente mobiliário. Contudo haverá, por certo, também, algumas pessoas que decidem vender esta ou aquela peça porque precisam do dinheiro dessa venda.

- E quem compra? que tipo de pessoas aqui chegam para adquirirem produtos em segunda mão?

- Todo o tipo de pessoas. Não há distinção de classes, mais a mais porque, no nosso meio, não há assim uma tão evidente essa distinção. As motivações são muitas desde a pessoa que necessita de um móvel para casa, ou para a casa-de-banho, até às pessoas que procuram móveis antigos. A nossa especialidade tem que ver com o usado e não com o antigo, nos sentido de antiquário mas, no meio de tudo o que nos chega, aparecem peças antigas.

- Sem serem antiquários, como referiu, são negociantes. Quando aparece uma peça que passa do usado para o antigo o que fazem?

- Com os anos vamos aprendendo algumas coisas. Sem sermos antiquários começamos, no entanto, a ter alguma sensibilidade e, quando nos aparece alguma peça que já está no patamar do que se chama antigo e não usado, com outro tipo de valor, acabamos por ter já uma clientel톡