Eng. José Romão Leite Braz

JMA - A FINANÇOR é um grande grupo de empresas. Mas comecemos por recuar no tempo para falarmos do caminho seguido até hoje...

JRLB- A atual configuração do grupo Finançor nasceu de três histórias distintas. Da FINANÇOR, uma empresa fundada em 1954 pelo Visconde Botelho e um grupo de industriais micaelenses que, na altura absorveu o património da Moagem Micaelense. Esta foi a FINANÇOR que perdurou até as anos 70. De outra empresa,

a NOVIÇOR, fundada pelo meu avô, Dionísio Leite em conjunto com o meu pai, José Almeida Braz e os seus filhos nos anos 70, uma empresa que se dedicava à engorda de novilhos. Por esses anos a NOVIÇOR, em conjunto com outras pessoas, fundou duas outras empresas ligadas à área da agricultura, a AVIGEX e a GRANPON. Finalmente, nos anos 50, o Grupo Sousa Lima fundou uma empresa, a Sociedade de Sabões, que começou por se dedicar aos sabões e, depois, desenvolveu a sua atividade no sentido das rações e produção de óleos, entre outros produtos. Nos anos 70 a NOVIÇOR  tornou-se um pequeno acionista da FINANÇOR que entretanto foi comprada por um grupo de empresários ligados ao setor agropecuário, em que nos incluíamos. Nos anos 90 a NOVIÇOR e o meu pai partilhavam o controle da FINANÇOR com uma outra empresa, os Lacticínios Vigor, uma empresa do continente num percurso que durou até aos anos 2000. Em 2005 adquirimos o capital da FINANÇOR que tinha sido dos Lacticínios  Vigor e, com isso, passámos a controlar mais de 80 por cento da empresa. Em 2007, fruto da venda do património ligado ao Grupo Sousa Lima, ficámos com toda a parte industrial que integramos na nossa "carteira" de empresas ligadas ao ramo em que trabalhamos. Em 2009 também adquirimos o grupo SALSIÇOR, vocacionado para a transformação de carnes, presente em várias ilhas.  Destas três histórias distintas chegamos àquilo que é hoje o grupo FINANÇOR, uma empresa industrial que detém vária empresas do setor agroalimentar em que a principal atividade é a produção de alimentos para animais, vulgo rações, que grosso modo representam cerca de 50 por cento do nosso volume de negócios. A FINANÇORD detém, igualmente, várias empresas em vários setores que posso agrupar do seguinte modo: produção de carne de aves e ovos - a GRANPON, a PONDEL e a AVIGEX,  a produção de suínos - a AGRAÇOR, a produção de novilhos - a NOVIÇOR, produção de leite - ALTIPRADO, a maior exploração leiteira num só local dos Açores, cerca de 400 vacas numa propriedade com 550 hectares, a parte de transformação e processamento de carnes através da SALCIÇOR.  Temos ainda uma ligação ao Turismo através de uma participação minoritária na INVESTAÇOR. Em suma, esta é a nossa configuração atual.

- Não deixa de ser interessante verificar que, apesar da dimensão do grupo, há ainda presente uma forte componente familiar na sua estrutura.

- Temos uma génese não familiar. Tudo o que aqui está tem que ver com a FINANÇOR dos anos 70 que foi adquirida por um sem número de acionistas. Por isso sempre nos habituámos a ter sócios e parcerias com outras empresas e com outras pessoas. Com a concentração acionista que foi ocorrendo, muitas vezes necessária para assegurar a viabilidade e o futuro das empresas, acabou por conduzir a que o capital acabasse por estar, na sua maioria, nas mãos de uma família, que controla esta empresa. Mas estamos a falar da estrutura acionista e não da gestão da empresa. Desse ponto de vista não se trata de uma empresa familiar, antes pelo contrário, é uma empresa profissionalizada com 450 trabalhadores dos quais apenas 4 pessoas são da família que detém a maioria do capital. Isto demonstra bem que somos, hoje, uma empresa devidamente profissionalizada.

- Manter em funcionamento um grupo com esta dimensão pressupõe a profissionalização que referiu. Em que momento se atingiu o patamar da excelência a esse nível. Ou, pelo contrário, não pode falar-se de um certo momento, mas de um conjunto sucessivo de momentos?

- De há dez, quinze anos, para cá que o processo tem vindo a evoluir, também, face às necessidades geradas com o crescimento. Por isso não há um momento exato que deva ser colocado em evidência. Do que se trata, enfim, é da adoção de boas práticas de gestão que, infelizmente, é o que falta em muitas empresas. A estrutura foi evoluindo de acordo com essas boas práticas que referi e, como se trata de um grupo, beneficiam todas as empresas do mesmo que, isoladamente, teriam grande dificuldade de acesso a essas estruturas. Dou como exemplo um departamento de qualidade, higiene e segurança alimentar e ambiente, que presta apoio a várias das empresas do grupo. A evolução da estrutura foi-se fazendo permitindo a inclusão de inúmeros licenciados e, até, de um doutorado que trabalha connosco. O facto de funcionarmos em conjunto permite a partilha desses recursos.

- O vosso produto dirige-se, sobretudo, para o mercado interno mas não esgota aí as suas potencialidades.

- O grosso da nossa atividade, é um facto, destina-se ao mercado interno mas, nas áreas das carnes de novilho e suíno, há uma parte que é vendida fora dos Açores a que se juntam alguns produtos de charcutaria. Tão importante como exportar é podermos substituir importações e essa tem sido a nossa luta principal nos últimos anos. Os Açores não são auto suficientes em relação a muitos dos alimentos que aqui são consumidos e, nas áreas em que atuamos, temos procurado fazer esse caminho. Dou como exemplo as carnes de aves e suínos em que não somos auto suficientes e temos procurado ganhar espaço nesses segmentos. O nosso principal negócio, as rações para animais, têm como alvo principal as explorações leiteiras em que, grande parte das suas produções se destinam á exportação. Por isso posso, também dizer, que nos incluímos, com o nosso principal produto, nessa cadeia de valor acrescentado.

- Este mercado interno de que fala tem que ver com a ilha de São Miguel ou estende-se às outras ilhas?

- O mercado dos Açores é fundamental para nós. Posso dizer-lhe, por exemplo, que a empresa SALCIÇOR fatura tanto na ilha Terceira como em São Miguel o que demonstra que tem uma quota maior na Terceira do que em São Miguel se considerarmos a relação com o número de habitantes de cada uma destas duas ilhas. Hoje em dia fala-se muito no mercado regional, mo mercado Açores, e com agrado ouvimos novas pessoas a falarem daquilo que, para nós, há muitos anos, tem sido, não só uma evidência, como uma prática. É natural, e até obrigatório, que as empresas regionais procurem vender os seus produtos em várias ilhas. Posso dizer-lhe que, dos tais 450 trabalhadores que referi, 85 estão na ilha Terceira, 23 no Faial, 3 no Pico, 2 em São Jorge, 6 em Santa Maria, e por isto tudo ninguém pode duvidar que somos um grupo regional.

- Essa dimensão regional de que fala e a natureza dos vossos produtos faz com que tenham de lidar todos os dias com o sistema regional de transporte marítimo de mercadorias. Um setor sempre posto em causa, em termos de qualidade e de eficiência, por muitos empresários e pelas suas estruturas representativas. Comunga, fruto da sua experiência, deste coro de críticas?

- Claro que sentimos o peso da insularidade. Toda a logística daquilo que fazemos anda à volta da saída dos barcos e, claro, que sentimos dificuldades. Mas face a essas dificuldades tempos uma postura diferente da maioria. Que vamos precisar de barcos, que vamos ter dificuldades logísticas, já todos sabemos, e o que temos feito é ajustarmos o nosso trabalho á realidade sem lamúrias. o Transporte podia ser melhor, mais barato, mais frequente? podia!, mas isto é o que nós temos e, face ao que nós temos à disposição, caminhamos no sentido de maximizar as nossas possibilidades. Devo confessar, e isto é uma posição nossa, do ponto de vista da circulação das mercadorias do nosso grupo nas várias ilhas dos Açores, face a dimensão do volume de carga que movimentamos, não sentimos tantos problemas porque atingimos uma dimensão que nos permite sempre fazer contentores completos de tudo e, nesse sentido, a logística deixa de ser um problema.

- Trabalhando para  mercado interno têm sentido os efeitos da crise?

- Dividiria o nosso negócio em várias frentes. Temos, por um lado, a produção de alimentos dirigidos aos animais, temos a moagem, que não referi há pouco, que produz farinhas para uso doméstico e industrial, vendemos essencialmente às padarias e pastelarias e depois temos uma panóplia de produtos transformados e não transformados, na área das carnes, que são vendidos nas grandes superfícies e no comércio de retalho o que faz com que tenhamos muitos caminhos para chegarmos com os nossos produtos aos diferentes mercados. Por outro lado, nos últimos dez anos em que assistimos ao boom da construção civil, da imobiliária e da hotelaria, assistimos a crescimentos brutais de faturação em muitas empresas enquanto nós nos fomos mantendo no mesmo patamar e, como os setores em que nos inserimos não foram dos mais afetados, acabámos por não ser muito penalizados pelos efeitos da crise, felizmente, embora, nalgumas áreas do nosso negócio esses efeitos se tenham, de facto, feito sentir.

- A natureza industrial do grupo pressupõe um grande, e continuado investimento. Como é que esse investimento tem sido feito? com capitais próprios, com recurso aos programas de apoio em vigor nos Açores, através da banca ou, provavelmente, com um pouco de tudo.

- Há áreas de atividade em que nos inserimos que contam com apoios e, nesses casos, temos recorrido a esses incentivos europeus. Diria, por isso, que a maior parte do nosso investimento foi feito com recursos a capitais próprios e a incentivos previstos nas várias medidas ao longo dos vários quadros comunitários de apoio. As aquisições de capital foram feitas com recurso à banca com que sempre temos contado sem quaisquer restrições.  No conjunto, ao longo dos últimos nove anos, a empresa, no seu conjunto investiu cerca de 50 milhões de euros em maquinaria, edifícios e aquisições, só para dar uma noção de valores globais.

- Na relação com o Estado/Região no que diz respeito à gestão das medidas de apoios que referiu as coisas têm-se processado de forma ajustadas às necessidades da empresa?

- Na relação com o Estado dividirias as coisas em várias fases. Normalmente tudo o que tem que ver com licenciamentos que envolva Câmaras Municipais torna a vida dos empresários extraordinariamente difícil face aos entraves sucessivos que são levantados em qualquer processo que se apresente. Por outro lado há entidade governamentais que são mais "amigas" do investimento, como é o caso da DRAIC, que são sempre muito mais cooperantes. Ou seja, diria que há várias realidade na administração púbica regional relativamente ao investimento. Pessoalmente acho que poderia ser melhor para toda a gente numa altura em que tanto se fala de investimento e do que é preciso fazer. Há muita coisa que não se alterou e poderia ter sido alterado e que eu acho que ainda vamos a tempo de alterar.

- O quê, por exemplo?

-  Os licenciamentos. Para fazermos uma indústria estamos sujeitos ao triplo licenciamento, temos que ter licenças, industrial, ambiental e de utilização, esta última emitida pelas camaras municipais, ou seja, há várias entidades  responsáveis a intervir nestes processos.  Tudo isto poderia ser simplificado. Se consultarmos os números públicos do serviço regional de estatística, e aproveito para felicitar a qualidade deste serviço, que consulto com frequência, podemos constatar que, nos últimos anos, o número de concessões de novas licenças de construção de novos edifícios caiu abruptamente. E se esse número caiu abruptamente e, consequentemente, há menos trabalho, porque é que continua a demorar o mesmo tempo, ou até mais, a conceder as licenças aos pedidos apresentados? é uma pergunta que deixo no ar. Acho que podíamos, e devíamos, agilizar os processos de licenciamento e reconheço que, muitas vezes, os técnicos não têm culpa da legislação que têm de aplicar e aí o papel cabe aos políticos da Assembleia Regional a quem faço um apelo para que não compliquem mais a aplicação nos Açores medidas com origem na União Europeia ou na República uma vez que, em minha opinião, deveríamos usar a autonomia para simplificar e ajustar essas medidas à realidade dos Açores. É preciso dar resposta aos empresários e aos empreendedores.

- A empresa tem recebido diversos prémios. O que é que significa para si, como responsável pela FINANÇOR, este reconhecimento traduzido nos prémios atribuídos?

- Ao longo dos anos recebemos vários prémios no âmbito das "100 maiores empresas dos Açores" , uma iniciativa do Açoriano Oriental mas, nos últimos dois anos, recebemos um prémio com especial significado para nós, o prémio da "Responsabilidade Social" em que fomos considera a empresa com maior responsabilidade  social nos Açores o que, para nós numa altura de crise, é reconfortante o reconhecimento perante os outros que temos preocupações que vão além dos nossos resultados. O último prémio que recebemos, foi o mais alto galardão recebido por nós até hoje, em que fomos considerados a melhor grande empresa agrícola do país numa iniciativa no âmbito do BPI e do Grupo COFINA, com o patrocínio do governo português. Esse foi, sem dúvida, o momento alto em termos de prémios que nos deixou muito reconhecidos e orgulhosos naquilo que é ume estímulo para continuarmos com a nossa postura positiva perante as coisas.

- Uma altura de crise é, também, uma janela de oportunidade? Quero com isto perguntar-lhe se a empresa vai continuar a crescer e a investir ou se, pelo contrário, o momento que se vive aconselha prudência e uma gestão de contenção.

- Ao longo da chamada crise nunca deixamos de investir. Crise é uma palavra que não gostamos de usar na empresa. Devo dizer-lhe que nunca fazemos um investimento sem que os incentivos recebidos não sejam um extra. Isto quer dizer que procuramos sempre atestar a viabilidade económica e a sustentabilidade de todos os investimentos que fazemos. Nalguns casos um incentivo pode ser determinante na decisão de avançar mas o investimento tem que ser sempre viável e sustentável para que sejam postos em prática dentro de um plano de negócios que pretendemos cumprir. Continuamos a procurar oportunidades de crescimento, continuamos a investir na modernização das nossas atividades porque só assim podemos ser competitivos. Esse é o nosso maior desígnio o de sermos competitivos. Isto significa que procuramos em cada momento que os nossos produtos tenham preços que os nossos clientes estejam dispostos a pagar. Quando há qualidade e preço há sempre clientes e estou a falar dos nossos setores de atividade.  Por outro lado as empresas têm de se habituar a ter reservas e capacidade para enfrentarem anos menos bons. Se vivermos sempre no fio da navalha à primeira dificuldade não nos conseguimos aguentar. Em suma essa é a nossa atitude. Por um lado sermos empreendedores e por outro estarmos sempre com os pés bem assentes no chão.