Paulo Melo

Paulo Melo

Empresário - Proprietário da "Quinta da Maia"
Área de negócio - venda e distribuição de combustíveis

 

 

- Quando e como é que nasceu a ideia desta empresa?

- Eu era funcionário público e, em complemento, distribuía gás. Em 1999, como este prédio fazia parte da família, decidi apresentar um pedido de viabilidade de construção para esta área que fazia parte de uma zona de quintas que eram conhecidas pelo nome de " quintas da Maia ", daí a razão do nome da empresa quando ela se constituiu. Todo o processo burocrático deve ter demorado uns quatro anos a ser concluído. Pedi à Câmara Municipal a autorização de construção que me foi concedida e, nessa altura, apareceram várias empresas de combustíveis interessadas neste ramo de negócio .A melhor proposta foi apresentada pela GALP. E, a partir daí, avançou-se com o investimento necessário para que pudéssemos ter aqui as bombas de combustíveis. Fiz uma parceria com a GALP em que eu entrei com o terreno. Candidatei-me, igualmente, à exploração do posto e, como era bem mais novo, achei que ia ser difícil por uma questão de confiança, mas acabei por ser considerado e ganhei, também, essa face do negócio.

- Referiu que estes terrenos eram de família. A empresa é sua ou é da família?

- A empresa é minha porque os terrenos fazem parte do quinhão que me coube por herança. Rentabilizei desta forma essa herança.

- Lembra-se, nessa altura, a que preço era o litro de gasolina?

- O litro de gasóleo seria um pouco menos de 60 cêntimos e a gasolina deveria ser mais uns 15 a 20 cêntimos.

- Inicialmente havia apenas o posto deste lado da via rápida e, mais tarde, avançou com outro do outro lado dessa mesma via. Porque é que decidiu expandir-se para o outro lado?

- Para evitar concorrências que pudessem chegar no futuro. Uma vez que há regras para a instalação dos postos, em que há distâncias salvaguardadas por lei. Se não tivéssemos avançado com o lado oposto poderíamos, mais dia, menos dia, vir a ser confrontados com concorrência. Foi essencialmente por isso, uma forma de rentabilizar o investimento feito e garantir a sustentabilidade de um projeto que, como referi, envolve a GALP que tem usufruto, por contrato comigo, do direito de superfície, por um período de trinta anos. Já o contrato de exploração é renovado de 5 em cinco anos. Já vamos com 12 anos, ou seja, já vamos no período de vigência do terceiro contrato e as coisas, felizmente, têm corrido bem.

- Neste seu negócio, para além da vertente dos combustíveis, que podem ser adquiridos aqui diretamente, dispõe de entregas ao domicilio...

- Sim, no caso do gás.

- Para além dos combustíveis tem, igualmente, a oferta de serviços que configuram a chamada área de serviço, como a venda de produtos diversos e ainda a parte de pastelaria. Estes segmentos extra combustíveis têm um peso positivo na faturação da empresa?

- Têm um peso importantíssimo porque se trata de otimizar a vinda das pessoas aqui ganhando a mais valia de outros tipos de consumos. Por outro lado estamos a trabalhar no sentido de criar condições para que possamos ter aqui toda a estrutura de uma estação de serviço porque, neste momento, somos considerados um posto de abastecimento que abre 24 horas por dia. Uma estação de serviço já inclui mudanças de óleo, manutenção de pneus, etc., e queremos, a breve prazo, poder garantir esses serviços de forma a que, quem chega aqui, possa tomar uma refeição enquanto espera por uma mudança de óleo no carro, por exemplo.

- A sua equipa é uma equipa estável. Aposta nos funcionários?

- Sim, sem dúvida. Esse é o principal segredo de pequenos e médios negócios. O chamado "capital humano", as pessoas que, com a sua simpatia, o bom atendimento, cativam o cliente e fazem com que ele se sinta motivado a voltar. Felizmente tenho esse tipo de pessoas a trabalhar comigo. Sem elas o nosso sucesso não seria possível.

- Como é que recruta os seus funcionários?

- São feitas uma entrevista e uma avaliação curricular onde se avaliam o perfil do candidato e se decide se tem, ou não, condições para se integrar na nossa equipa. 

- Depois do recrutamento proporciona formação ao pessoal admitido?

- Sim, é fundamental que todos os que trabalham aqui estejam preparados do ponto de vista da segurança e de todo o sistema operacional que tem de ser levado em conta em caso de um sinistro porquanto estamos a falar de um posto de abastecimento de combustíveis. Por outro lado o pessoal tem de estar convenientemente preparado para fazer face a momentos de grande afluência de cliente de modo a evitar "engarrafamentos". Mas, no essencial, é necessário que cada um saiba que trabalhar num posto de combustíveis não é a mesma coisa que trabalhar numa loja de comércio normal. A responsabilidade é enorme e cada um tem de saber agir de acordo com as regras. Essa formação é dada e é exigida pela GALP.

- Este seu posto de abastecimento é uma espécie de "ponto de encontro" na ilha Terceira onde não há muitos desses locais disponíveis. Sente alguma satisfação pessoal por, muitas vezes, o seu espaço de trabalho, servir para concentrações?

- Sim, as pessoas usam muito este nosso espaço para se concentrarem nas mais diferentes iniciativas. Os encontros de Motards, os passeios de todo-o-terrenos, os passeios de mota aos Domingos de manhã são apenas alguns exemplos. As pessoas chegam aqui, abastecem-se de combustível, tomam o pequeno almoço e, depois, seguem para os seus destinos. Tem acontecido com cada vez mais frequência, talvez pela proximidade com o centro de Angra. Daí estarmos, neste momento, a negociar parcerias tendo em vista, no futuro, podermos oferecer mais a quem nos procura. Ainda não posso tornar público mas, em breve, esse desejo tornar-se-á numa realidade.

- Tem sentido, na sua empresa, os efeitos da crise?

- Houve uma quebra muito significativa de faturação e, daí, estarmos a apostar noutras vertentes que possam colmatar essa perda de receitas.

- Entretanto ficou com outro posto de combustíveis aqui na Terceira. Foi uma opção estratégica?

- O que aconteceu foi que a GALP, na qualidade de proprietária de todos os postos da ilha, quando, por alguma razão, não está satisfeita com o desempenho de uma outra entidade que explora esses mesmos postos, consulta outros revendedores na ilha. Foi isso que aconteceu. Consultaram-me e propuseram-me a exploração de um posto na Praia da Vitória, na via-rápida antes de chegarmos ao aeroporto da Lajes. Como sabia que na Praia não havia nenhum posto aberto 24 horas por dia levámos para esse posto a mesma filosofia de trabalho que temos aqui, ou seja, o mesmo tipo de loja, aberta 24 horas por dia. Achámos que era um investimento que viria a dar frutos no futuro.

- É das poucas estruturas que está aberta 24 horas por dia na ilha. A relação custo benefício dessa opção tem sido positiva?

- No caso da Praia da Vitória, ao principio, foi uma aposta cara mas, como em todos os negócios, é preciso investir primeiro para podermos ter, depois, o retorno. Apresentámos, nesse caso da Praia, um serviço diferente, com abastecedor, uma marca da "Quinta da Maia". Com isso consegue-se fidelizar clientes e, consequentemente, garantir o sucesso empresarial que é o que qualquer empresário busca na sua atividade. Apostar 24 horas num serviço em que mais ninguém o faz claro que é um risco, mas devo dizer que não tenho motivos para arrependimento. Devo ainda acrescentar que, passados quase dois anos, o posto da Praia está a ser uma muito agradável surpresa para mim.

- A nível nacional verificam-se cada vez mais casos de pessoas que abastecem e fogem. Tem tido problemas desses aqui nos seus postos de abastecimento?

-Não propriamente de abastecer e fugir como acontece com frequência no continente. mas há sempre, uma ou outra pessoa, que no meio da confusão, tenta pagar a conta do que adquiriu na loja e "esquecer-se" do abastecimento que fez, mas a equipa está alerta e não temos tido problemas de maior.

- Esta crise é uma oportunidade ou, pelo contrário, aconselha calma e ponderação?

- O futuro " a Deus pertence". A crise veio trazer destruição de postos de trabalho.

- Isso aconteceu na sua empresa?

- Sim, infelizmente tivemos de reduzir o nosso efetivo de pessoal em quatro pessoas o que levou a um ajustamento de horários de toda a equipa, mas não havia outro caminho para podermos salvaguardar a maioria dos postos de trabalho. As vendas tiveram uma forte quebra e, quando estamos a gerir um negócio, temos de ajustar as equipas de pessoal às necessidades da procura em cada momento. Esperemos que a crise passe e que as pessoas tenham uma vida mais decente e que voltem a ter capacidade para poderem chegar bens e serviços que hoje estão totalmente fora do seu alcance. Repare que se não fosse o facto do nosso produto ser, ainda hoje, indispensável á vida da maioria das pessoas, possivelmente teria sentido o mesmo tipo de problemas que tantos outros empresários têm enfrentado.

- Mesmo neste tipo de negócio que, como disse, é ainda indispensável à vida das pessoas, o momento é de prudência?

- Sem dúvida porque, como disse, embora possamos contar com um ritmo de consumo previsível,  o nosso produto está sujeito a um equilíbrio muito instável porque, estando cotado em bolsa, está à mercê de muito fatores que não controlamos. Por isso sim, sem dúvida, que vivemos um momento em que a prudência é necessária.