Carlos Alberto da Costa Martins

Carlos Alberto da Costa Martins
Idade: 62 anos

Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa
Director Geral da Fábrica de Tabaco Estrela
Membro do Conselho de Administração da Investaçor – SGPS,SA
Director da FPAK - Federação Portuguesa de Automobilismo
e Karting


JMA- Acha que há espaço para uma iniciativa como a do Região Económica?

CM - Penso que faz todo o sentido porque os jornais, e os meios de comunicação que temos ao dispor, trazem notícias sobre economia mas não fazem o que eu considero importante que é aprofundamento sobre essa matéria. Questões como o orçamento regional e a crise que estamos a viver são, por exemplo, temas que deveriam merecer uma maior reflexão.  Creio que deve haver um espaço que promova uma análise mais cuidada, e aprofundada, das grandes questões económicas nos Açores.

- Quanto à Fábrica de Tabacos Estrela, que encerra uma das indústria tradicionais dos Açores. No final do ano passado o Parlamento Europeu aprovou um novo conjunto de diretrizes sobre o tabaco que, ao que tudo indica, terão sido, de alguma forma, favoráveis aos interesses dos Açores. Isso é verdade?

- A proposta que, nessa altura, chegou ao Parlamento Europeu continha uma série de normas muito restritivas quanto ao tabaco e que não protegia os interesses dos Açores.  Repare que a indústria dos Açores é muito mais pequena face ao  mundo das indústrias congéneres que existem na Europa e fora dela. A proposta inicial continha, quanto a mim, uma série de aspetos essenciais que nos eram prejudiciais. por exemplo propunha-se uma uniformização dos tamanhos dos maços de tabaco, sem tamanhos curtos nem longos, muito comum na Europa mas não entre nós onde os consumidores dispões de vários tipos de oferta. Isso limitaria, logo à partida, a opção de escolha que, entre nós, é importante. Havia, também, a intenção de obrigar a que todos os maços fossem iguais, da mesma cor, sem elementos identificativos. Isso faria com que as pessoas não soubessem o que estavam a comprar. Acho que a questão da marca é importante para que cada um saiba o que está a comprar e a consumir. Tudo isto teria sido muito complicado e repare que todos nós estamos conscientes das questões relacionadas com o tabagismo que consideramos importantes.  A indústria nunca foi contra a inclusão de normas restritivas quanto ao uso dos elementos que compões um cigarro porque achamos que é uma matéria em que se tem evoluído de uma forma importante. Só para exemplificar hoje em dia estão a produzir-se cigarros com percentagens de condensados e de nicotina com reduções, nalguns casos, da ordem dos 50 por cento.  Mais do que isso o tabaco, através da taxação,  tem-se tornado num produto caro o que é dissuasor do consumo. Em suma, há todo um conjunto de fatores que, todos conjugados, têm permitido reduzir os malefícios diretos do tabaco e o seu consumo.  Também consideramos útil toda a legislação que protege terceiros do consumo do tabaco. Isso é uma coisa, outra bem diferente era o que se pretendia nessa altura que ultrapassava todos os limites que em nada tinham que ver com uma efetiva proteção dos consumidores, muito pelo contrário. Inclusivamente, se tivessem sido aprovadas essas normas, elas teriam contribuído para um aumento significativo do contrabando que, por todas a cias, tenta fugir, quer à taxação, quer às normas úteis que existem no sector. 

- Apesar de haver essas intenções a votação final acabou por ser de natureza diferente...

- Sim, no geral sim, embora haja algumas decisões que vão mexer com o gosto dos consumidores. Por exemplo, a proibição de cigarros com mentol  e de outros com outro tipo de aditivos em termos de sabor mas quanto á grande questão que se colocava, aí sim, houve uma evolução, muito à custa do trabalho feito pelos dois eurodeputados dos Açores em Bruxelas mantendo-se a possibilidade de mantermos a produção dos maços curtos. Em relação às outras matérias houve, por parte de alguns países, reações muito fortes  e as marcas vão poder continuar a existir. Isto é importante. No nosso caso, por exemplo, só para ter uma ideia, 35 a 40 por cento da nossa produção assenta nos maços do tipo curto.

- A Fábrica de Tabacos estrela está inserida num quadro restrito das chamadas indústrias tradicionais dos Açores. Ao longo de todos estes anos a Fábrica tem vindo a adaptar-se à evolução dos tempos nomeadamente ao nível da tecnologia que usa. Essa é uma história dentro da história maior da fábrica?

- A história do tabaco nos Açores é muito interessante. Desde logo foi o primeiro lugar do país onde se produziu tabaco e o primeiro onde este tipo de produção se iniciou. No início do século xx haveria nos Açores um conjunto de 15 a 20 empresas, pequenas empresas, que dedicavam a sua atividade ao tabaco. Um tempo em que os cigarros eram todos feitos à mão. Após a segunda guerra mundial houve uma fusão e restaram cinco grandes empresas. A partir dos anos 50, e até aos anos 70, passaram a existir três fábricas em São Miguel e duas na Terceira. Após o 25 de Abril de a974, duas fábricas na Terceira e, logo a seguira, uma em São Miguel, deixaram de produzir restando as duas que estão, ainda hoje, em laboração. De facto, houve uma grande modernização que sucedeu à reorganização a que acabei de fazer referência, da indústria do tabaco nos Açores. Posso dizer, por exemplo, que no nosso casso foi feito um grande investimento, na altura, ainda em escudos, cerca de três milhões de contos, qualquer coisa, hoje em dia, como 15 milhões de euros. Nessa altura renovamos por completo toda a maquinaria e podemos dizer  que hoje temos uma fábrica tão moderna como as mais modernas de qualquer uma das indústrias que existem a nível mundial. É uma fábrica tecnologicamente muito avançada, com todos os equipamentos do mais moderno que existem, totalmente computorizada. Foram grandes avanços. Posso dizer que, quando aqui cheguei,  as máquinas de que dispúnhamos faziam 2100 cigarros por minuto e hoje já temos máquinas que fazem mais de 5 000 cigarros por minuto, só para ter uma ideia da evolução introduzida.  Hoje já há máquinas que fazem mais de 10 mil cigarros por minuto embora não necessitemos dessa capacidade porque temos de ter as máquinas necessárias à nossa capacidade de produção.  Mas serve para exemplificar a evolução que tem havido neste sector.  Além disso somos a única fábrica dos Açores com capacidade para trabalhar na preparação, aquilo a que chamamos o primário, ou seja a preparação da folha e o seu corte, também é uma componente importante e totalmente modernizada na nossa empresa.  Em suma, temos hoje uma fábrica moderna e que abrange todas as áreas da fabricação e gozamos de uma modernidade que nos garante, por muitos anos, continuarmos "up to date" no mercado dos cigarros.

- Para além da modernização tecnológica, a fábrica teve, por certo, um percurso de evolução empresarial na adaptação aos mercados e também às restrições que têm vindo a impor-se no mundo do tabagismo. Como é que esse percurso foi feito?

- As alterações verificadas enquadram-se num quadro evolutivo perfeitamente normal. Há 25 anos quando assumi as minhas funções na empresa tínhamos 8o trabalhadores e hoje temos entre os 55 e os 60 porque há épocas, por exemplo no Verão, em que necessitamos de mais gente a trabalhar. este número atual de colaboradores deverá manter-se ao longo dos próximos anos. E a redução do número de trabalhadores verificada ao longo destes anos nunca foi feita à custa de despedimentos. Sempre se fez à medida em que, naturalmente, as pessoas se foram reformando. Claro que ao longo dos últimos anos tem vindo a ser necessária uma grande racionalização de custos de produção e outros como consequência do progressivo aumento dos impostos que há 25 anos andavam na casa dos 50% do preço final e hoje já chegam aos 70% desse valor.  Por tudo isso temos vindo a fazer um grande esforço de contenção de maneira a que a empresa continue a ser viável e a permitir, de uma forma equilibrada, a manutenção dos postos de trabalho.

- A modernização que referiu não terá, por certo, chegado ao fabrico dos charutos, uma das imagens de marca da empresa. Ou, pelo contrário, também nesta área se pode falar de modernização?

- É uma paradoxo, mas quando vim para a empresa, há 25 anos, produzíamos 2 ou 3 marcas de charutos, que ainda hoje se mantêm, e que eram feitas num processo de sem i- industrialização. isto é, havia um conjunto de máquinas que produziam os charutos, com alguma componente humana.  Ora o que aconteceu com os charutos foi um processo totalmente inverso, ou seja, para melhorarmos a sua qualidade foram retiradas as máquinas por forma a introduzirmos o processo manual.  Parece, como disse, um paradoxo mas os charutos Premium, para serem bons, têm de ser feitos à mão. Não há nenhuma máquina capaz de fazer melhor uma seleção de folhas do que um ser humano. Para usar máquinas no seu fabrico estaríamos a falar do charuto industrial que não tem nada que ver com o Premium de que tanto nos orgulhamos pela sua qualidade e pela forma como os apreciadores preferem o nosso produto a esse nível.  Por isso posso dizer que, nesse campo, regredimos no bom sentido, ou seja, no sentido de aperfeiçoarmos a qualidade. Posso dizer que hoje os nossos charutos estão ao nível de outros que são referência como os de Cuba, por exemplo. Posso dizer-lhe que, em muitas provas cegas, os nossos charutos colocados ao lado de outros das Canárias e de Cuba, por vezes, têm ficado à frente o que demonstra bem a sua qualidade.

- Caminhamos para um mundo sem fumo, nem fumadores. Num quadro deste tipo como podemos adivinhar o futuro da Fábrica de Tabacos Estrela?

- Há duas componentes uma das quais é a do combate ao tabagismo e outra que tem que ver com a manutenção deste tipo de indústrias. isso levanta uma questão que já coloquei, por várias vezes, a mim mesmo foi: se não formos nós a fazer isto, alguém vai fazer por nós. As grandes multinacionais do sector, presentes a nível mundial, tomarão conta de tudo uma vez que somos das poucas indústrias, com esta dimensão, que se mantêm em atividade a nível europeu. Conseguimos sobreviver, com uma quota muito confortável, só com marcas regionais, embora produzamos, sob licença, algumas marcas internacionais. De qualquer forma conseguimos sobreviver só com as nossas marcas. Quanto ao tabagismo eu acho que, hoje em dia, há uma grande informação acerca do tabaco e dos problemas que lhe estão associados e, por isso, tenho a certeza de que os fumadores são hoje muito mais conscientes do que eram no passado. A grande questão que se coloca é a de procurar o equilíbrio e da moderação. É preciso que cada um saiba qual é a sua medida e qual o seu limite que não deve ser ultrapassado.