Borja Reis

Borja Reis
Empresário na Ilha Terceira

Proprietário:

Mega Loja Borja Reis
Rádio Popular
De Borla
Angra Motos
De Borla – São Miguel

JMA - Como é que surgiu a ideia de dar forma a este projeto? Foi de um momento para o outro, ou levou tempo a amadurecer?

BR - Estas cisas levam sempre tempo a amadurecer, mas sempre gostei de arriscar nos meus negócios. Sempre gostei de tentar inovar e de encontrar coisas novas, tentar dar oportunidade às pessoas de poderem ter coisas diferentes aqui nos Açores, coisas que já víamos lá fora e não as encontrávamos aqui. Fui, por isso, tentando investir nesse sentido e as coisas foram acontecendo naturalmente.

- este negócio, quando nasceu, já nasceu grande?

- Não. O negócio surgiu muito mais pequeno. A minha mulher é proprietária do Móveis Rocha e eu, por questões familiares, tive que deixar de trabalhar na Base para ir trabalhar com ela. O Móveis Rocha era uma empresa muito antiga, com muitos anos, Sempre fui muito mais afoito do que a minha mulher nesta questão dos negócios. Ela cuidava mais da parte de atendimento ao público e eu da estratégia da empresa. Como o Móveis Rocha era uma empresa pequena, pensei em incluir no seu portfólio de vendas materiais de construção. Houve a hipótese de comprar o stock da Blocaçor e eu decidi ficar com o mesmo e comecei a explorar a parte dos materiais de construção. Era um negócio que eu não conhecia mas pude contar com o excelente apoio dos funcionários que tinham experiência e me ajudaram muito. Devo, e quero, realçar que nestas coisas a ajuda dos funcionários é importantíssima bem como a relação que se cria com eles. Recordo-me, com tristeza, a morte de uma funcionária que trabalhava comigo, que nunca faltava, nem chegava atrasada. Um dia não apareceu e só mais tarde soube que tinha ido para São Miguel com um derrame cerebral acabando por vir a falecer. Foi um momento muito triste.

- A partir daí o negócio começou a crescer...

- Sim, depois de ter criado a empresa de materiais de construção mudei-me para as avenidas para uns armazéns que eram grandes e, por isso, decidi começar a introduzir móveis e cozinhas e as coisas foram rolando. Na altura o Dr. Sérgio Ávila, presidente da Câmara, criou aqui o parque industrial e eu achei que era uma oportunidade. Lembro-me, na altura, que quando vim aqui para cima a maior parte dos meus amigos questionaram a minha decisão porque não havia aqui nada. Mas eu, mesmo assim, decidi arriscar. Construí aqui os armazéns e mudei a parte de mobiliário e de eletrodomésticos cá para cima. Como o espaço era muito maior as coisas tiveram de andar. O Stock aumentou exponencialmente e tive de o movimentar e as coisas foram correndo bem graças a Deus.

- A certa altura o negócio cresceu com a introdução de duas novas valências, a Rádio Popular e o De Borla...

- Eu sou muito amigo do dono da Rádio Popular mesmo antes de ele ser proprietário desta marca. Posso dizer que já faz parte da família. Ele já era meu fornecedor de eletrodomésticos e essa amizade foi-se cimentando com o caminhar dos anos. Quando ele ficou com a Rádio popular fui tentando convencê-lo para ele vir para cá através de uma pareceria comigo. A Rádio Popular tem um enorme potencial porque consegue apresentar os seus produtos a preços que eu sozinho jamais conseguiria. Essa parceria acabou por acontecer. criámos aqui uma empresa, Oliveira, reis e Rodrigues - a Rádio popular, com regras exatamente iguais às da casa mãe. Evidentemente que a abertura da loja proporcionou outra dinâmica a este espaço e, na altura, tive a oportunidade de conhecer o dono do De Borla que era amigo deste meu sócio da Rádio Popular. Fomos conversando e acabámos por fazer uma parceria num processo em tudo idêntico ai que tinha sucedido com a Rádio popular. A loja De Borla acabou, assim, por vir para cá e ainda bem que assim foi.

- Os laços de amizade construídos ao longo do tempo no âmbito do seu negócio acabou, pelo que acabou de referir, por ser determinante para a expansão que acabou por introduzir...

-É verdade Acaba por ser um pouco consequência do meu modo de estar. Sou, por natureza, leal e amigo das pessoas. Com este meu feitio já tive coisas boas e más porque acredito, em principio, nas pessoas. A honestidade não é uma questão de preço. Ou são, ou não são. Foi essa base de confiança mútua entre mim e esses meus dois amigos que produziu os frutos necessários ao aparecimento aqui nos Açores destas duas marcas. São parcerias importantes. O De Borla, por exemplo, já chegou a São Miguel. Isso foi mais um passo importante. Tudo sito conduz à criação de mais emprego e as coisas vão rolando apesar de todos sabermos que isto não está nada fácil.

- Referiu há pouco que em determinada altura os seus funcionários foram importantes na ajuda que lhe prestaram. Considera que a participação dos funcionários é importante na vida das suas empresas?

- Os trabalhadores são muito importantes numa organização. Sem bons colaboradores, por melhor que seja a ideia, não conseguimos fazer nada. A melhor pessoa deste mundo, se estiver sozinha, não chega a lugar nenhum. Tenho tido muito bons colaboradores. Claro que há uns melhores do que outros, uns que se empenham mais do que outros mas, de uma maneira geral, tenho bons colaboradores nas minhas empresas.

- Face a esta crise que já aqui referiu sentiu necessidade de adaptar o seu negócio?

- Claro que tive de ajustar o meu negócio a esta crise. devo dizer que antes da crise se manifestar em toda a sua dimensão eu já sentia no ar alguma coisa que me dizia que as coisas não estavam bem. Por isso fui ajustando a empresa a essa mudança que se adivinhava. O processo não é fácil porque temos de mexer com pessoas o que, para mim, é muito difícil. Se eu tivesse, neste momento, de reduzir o número de pessoas que trabalham comigo seria um processo muito difícil porque são pessoas que vestem a camisola, que trabalham comigo há muitos anos. O que mais me custa é ter de despedir pessoas. Isso não aconteceu, foi acontecendo. isto é, foram acabando contratos que não foram renovados, pessoas que saíram por sua vontade e que não foram substituídas e, ao mesmo tempo, fui ajustando os custos da empresa. Há, numa empresa, muitos mais custos controláveis sem ser exclusivamente com pessoal.

- Os chamado custos de contexto pesam muito na vida financeira de uma empresa. Do seu ponto de vista quais destes custos são mais penalizadores?

- No meu caso claramente que destaco o custo dos transportes. Custos que, ao longo dos últimos anos, têm vindo a aumentar. Se juntarmos a estes aumentos o facto dos clientes procurarem, cada vez mais, coisas mais baratas, pode imaginar as dificuldades daí resultantes. vendiam-se quartos de cama a 4 e a 5 mil euros e agora os clientes procuram quartos de cama a 399 euros. Logo a percentagem do custo de transporte sobre o artigo aumentou muito. Na minha área a média do custo de transporte na estrutura de preços varia entre os 18 e os 20 por cento que estão derramados no custo final do artigo. È um valor muito alto. O custo da eletricidade também é um fator de dificuldade porque o seu preço não só é alto como tem vindo, igualmente, a aumentar. No caso deste tipo de negócio há ainda um outro fator que tem que ver com a logística necessária para podermos satisfazer a entrega dos produtos em casa do cliente. Temos necessidade de contar com um maior número de pessoas para podermos prestar esse serviço bem como os meios, viaturas, para o podermos fazer. Em empresas do mesmo género, no continente, esse é um serviço que é pago pelo cliente em cima do preço do produto adquirido o que não acontece aqui.

- O Governo regional tem, ao longo dos últimos anos, colocado á disposição dos empresários uma série de programas de apoio. Como empresário o que acha desses programas? tem tirado partido deles?

- São programas interessantes. Houve uma série de medidas na área dos juros em que as empresas puderam reestruturar as suas contas. Isso foi muito importante porque nalguns casos os juros foram bonificados e noutros os juros ficaram mesmo a zero. Com isso conseguimos adiar os planos de pagamento desses empréstimos. É pena que os prazos dados pelo governo contarem que a conjuntura, por esta altura, já fosse mais favorável. E o que se nota é que, neste momento, ainda não há uma volta nos sentido positivo, ainda se está em queda. Isso é um dado que me preocupa porque fizemos uma projeção a contar que a evolução no sentido positivo fosse mais rápida do que está a ser. Se esta situação não se inverter temos que as empresas não consigam aguentar-se. As empresas do meu género, para sobreviverem, têm de vender e se formos vendendo cada vez menos vamos caminhando para o zero.

- No seu caso sentiu os efeitos das restrições que a banca, de um modo geral, colocou no mundo da economia e, consequentemente, das empresas?

- Senti apesar de sentir que, nesse domínio, sou um privilegiado. As minhas empresas sempre tiveram um histórico de seriedade nas relações com a banca. Sempre tive com a banca uma relação muito forte e a banca sempre acreditou em mim, o que é muito importante. Todas as minhas solicitações à banca têm sido satisfeitas. Não posso deixar de dar uma palavra de reconhecimento á banca.

- vem aí um novo quadro comunitário de apoios com uma lógica nova no sentido de um maior apoio á economia real, às empresas e aos empresários. Sente-se tentado em avaliar a oportunidade de novos negócios tirando partido do mesmo?

- Se as condições de investimento forem boas acho que qualquer empresário tem sempre a ideia de fazer mais qualquer coisa. Ser empresário não é ficar parado, nem dormir à sombra da bananeira. Isso é o que me estimula. Nunca temos nada feito, há sempre tudo por fazer..No meu caso o horizonte ainda está tão longe que acaba por me dar força. Temo s sempre que inovar, de procurar novos caminhos e novas soluções. Chega a uma dada altura que temos de inventar um bocadinho. E é nesse momento que se pode encontrar o sucesso das coisas e a encontrar os caminhos certos.

- E a procura de novos mercados? Para lé dos Açores?

- Já fui a Moçambique e a Angola. Para lhe dizer a verdade são mercados muito interessantes. Há grandes oportunidades nesses mercados. Quando penso um bocadinho a fundo questiono-me acerca de saber se tenho, ou não, estrutura suficiente para ir para um país desses. Sinceramente acho que, nesta altura, não tenho. Mais a mais já não tenho 30 anos. Se eu os tivesse, continuaria a necessitar de ter por detrás essa estrutura de que falei mas valer-me-ia por dois ou três porque, com 30 anos, temos outra força. Não me vejo, nesta altura, com a força que tinha quando tinha 30 anos. Mas isto não quer dizer que não ache que uma aposta nesses mercados não viesse a ter sucesso. Acho que sim, que teria muito sucesso.

- Aqui na sua base de negócio, o momento é de avançar ou, pelo contrário, de manter olhando com expectativa melhores dias?

- A crise não deixa de ser uma oportunidade mas temos de ser realistas pelo que, pelo meu lado, é preciso gerir a crise com os pés bem assentes no chão e esperar para ver o que vai acontecer.