Victor Hugo Carvalho, empresário

Chegou à Terceira em 1989. Problemas com o seu empregador levaram-no a decidir-se pela criação do seu próprio negócio, tendo assim nascido a VHC-Instalações Eletromecânicas.
Aventureiro, apaixonado por África, lançou-se no ramo do turismo em Angola e Moçambique. A Região Económica foi falar com este empresário, um homem que rege a sua vida pela busca da felicidade e a concretização de sonhos.

Região Económica (RE) - Como começou o seu percurso empresarial?

Victor Hugo Carvalho (VHC) -Vim para a Terceira em 1989 para ser responsável de obra na montagem de um gerador na Base das Lajes. O meu director de produção não me deixou concluir as coisas, nem sequer os documentos tinha e, além disso, os fornecedores queixavam-se que ele só fechava negócio se recebesse uma percentagem para si. Achei isso incorrecto, despedi-me e segui o meu percurso. O meu filho mais velho tinha nascido na Terceira e achei que devia ter qualquer coisa aqui para ele e então comprei uma casa e formei a VHC, e a partir dai estabeleci o meu percurso, cheguei a dar aulas à noite, foi assim que consegui pagar um empréstimo de 10 anos em apenas três.Ao longo dos anos estabelecemos um consórcio com empresas locais para trabalhar na Base e temos parcerias com outras empresas de construção civil.


RE- Recentemente decidiu apostar no mercado africano.

VHC- Julguei ter atingido os meus objectivos aqui, os filhos estavam criados e lancei-me, em 2003, nalguns investimentos no norte de Angola dentro do sector do turismo. Em seguida investi numa empresa ligada aos recursos humanos e em Moçambique criámos um eco resort, o Vilas do Indico, um espaço simples mas penso que acolhedor.Tento usufruir, realizar os meus sonhos, mas pensando sempre nas gerações que veem a seguir, por isso sempre tentei fazer coisa que deixassem portas abertas aos meus filhos.Essa viragem aconteceu também pelo facto de um projecto que eu pretendia lançar na Praia da Vitória, o Terra Natura, ligado ao turismo e à ecologia, ter sido chumbado pela autarquia penso eu por ter sido conotado ao PSD, sendo eu uma pessoa que nunca teve ligação a nenhum partido político sempre baseei o meu voto nas pessoas. 


RE- Quantos funcionários trabalham nas suas empresas?

VHC - Na VHC estamos com cerca de 30 pessoas, já chegámos a ser mais de 50, no continente dentro do grupo onde estamos inseridos são mais de 700. Em Angola temos cerca de 60 funcionários e em Moçambique 47.

RE- Da sua experiência como empresário o que levou para África e o que trouxe de lá para os Açores?

VHC- Existem várias formas de fazer a vida. Eu tento seguir o meu instinto e, no caso de África era o cumprir de um sonho, sempre fui um apaixonado por aquela terra.Julgo que as opções políticas que tivemos naquele continente foram erradas, nós temos ali um terreno muito fértil que nos dá maior facilidade como empresários para termos sucesso pois fala-se a nossa língua, percebe-se a nossa cultura.De lá trouxe uma visão diferente das coisas, uma perspectiva mais humana, de que há varias formas de alcançar o sucesso. É uma terra dura, as pessoas julgam que chegam lá e é só fa­cilidades mas quando se triunfa ali triunfa-se a sério. Eu ainda não venci, estou a disfrutar da experiencia, mas é um continente com imprevisibilidades terríveis ao nível politico como se esta agora a passar em Moçambique. 


RE- Que conselhos daria a um empresário que se tente lançar em África?

VHC - Diria para se enquadrar na matriz jurídica do país, que não tente andar com subornos que é uma prática comum na qual caímos rapidamente. Que vá numa pers­pectiva legalista, de não perverter o sistema e com uma estrutura financeira que lhe permita aguentar os primeiros impactos, não vá totalmente descapitalizado a julgar que chega lá e tudo se resolve rápido. Na Europa passámos anos a criar sistemas de regulação para tornar a nossa vida mais fácil, em África esta tudo no início. Eu comecei por montar um hotel mas depois tive que criar um sistema de transporte para o abastecer. Tem que pensar em ser autossuficiente. Mas nós temos a vantagem de conhecer o sistema, são vários os paralelismos a nível judicial entre Portugal e as antigas colonias e essa é uma mais-valia enorme.


RE -Sendo uma pessoa com experiência noutros mercados, que análise faz do tecido empresarial da Terceira?

VHC- A maior dificuldade reside no facto de ser um meio pequeno. A VHC foi das primeiras empresas onde o prémio de Natal era uma viagem a Lisboa porque queria que os meus funcionários vissem realidades diferentes, mas a maior parte queria receber o dinheiro. Acho fundamental os empresários criarem condições para saírem porque o mercado é pequeno e rapidamente se satura. Temos aqui condições extraordinárias, o tempo aqui vale mais porque perdemos pouco com coisas que nos outros lugares se perde muito. Acon­selho as empresas que que­rem crescer a saírem.


RE- Tendo a Base das Lajes como grande cliente, os últimos tempos têm sido complicados?

VHC- Estamos com a facturação a metade. Temos que nos adequar. Criámos outras linhas de negócio, como um cash and carry aqui no Parque Industrial e é essa a receita, temos que olhar para os pro­blemas de uma forma positiva, se ficamos à espera que a crise passe nada acontece. A Base, não sei qual será o cami­nho, mas que já teve melhores dias em relação ao que oferece à Terceira é inquestionável. Cabe aos empresários encontrar maneira de contornar nisso.Têm existido algumas opções posi­tivas em termos de equipamentos públicos. Quanto aos apoios ao investimento, como nunca os utilizei, não estou a par disso mas dentro da conjuntura que existe as coisas não estão assim tao mal. Acabei de cruzar 22 países africanos e nos gostámos muito de reclamar mas vendo aquela realidade percebemos que estamos num pequeno paraíso. Agora a que preço é que isto tem sido conseguido não sei.


RE -Tem planos para novos projectos?

Neste momento o objectivo é manter o que tenho e usufruir. Sou um apologista que o dinheiro é uma consequência e não o objectivo. Quando o é, para já, pervertemos uma série de éticas e ficamos reféns e eu nunca quis isso. O Miguel Sousa Tavares diz que a liberdade é um vício e eu quero ter esse vício sem que ele me coma o tempo. Não quero ser aquele empresário que fica refém de uma serie de coisas, com respeito pelos meus colaboradores, que quero ajudar, mas quero realizar os meus sonhos.Ao atravessar África escrevi um livro para os meus filhos e uma das mensagens que lhes digo é temos de ter ética, fazer as coisa dentro do bem, ter valores e cora­gem de realizar os nossos sonhos.


RE - Depois da travessia de África que outros sonhos tem para realizar?

VHC- O próximo, já para breve, será conduzir uma locomotiva a vapor. Depois gostaria de fazer Lisboa- Ushuaia. Atravessar toda a Ásia até Vladivostok, depois atravessar o estreito de Bering até ao Alasca e dai descer toda a América até à Patagónia.Quando agora chegámos a Cabo Agulhas foi um orgulho estar junto ao padrão português e aper­támos a mão e dissemos até Punta Arenas. Costumo fazer estes projetos por décadas, quando fiz 40 fui do ponto mais a sul ao mais a norte da Europa, aos 50 África e talvez esta viagem fique para os 55.


RE- O mundo está a ficar pequeno.

VHC- Não. Há sempre formas dife­rentes de ver as coisas. Por exemplo, desta viagem há muitos sítios onde quero voltar. Quero lá voltar sem datas, sem tempo de chegada e não como um amante que foge foragido pela manhã.