Pedro Toste Mendes, sócio-gerente da Avitoste

RE- Como começou a empresa?
PM- A empresa é familiar, começou a nível pessoal com o meu pai na década de 70 com um negócio pessoal criando frangos na garagem. Evoluiu bastante na década de 90 com a constituição da firma em 1991 e foi cres­cendo até hoje. Em 2010 lançamo-nos na agricultura “a sério”.

- Qual foi a razão da vossa estratégia de diversificação de atividades económicas? Estando num sector primário de que forma é que sentem a crise e como é que esta diversificação vos ajuda?
- Na verdade foram várias razões, mas a principal foi a gritante necessidade do mercado de produtos agrícolas, especialmente processados e embalados, que importava quase exclusivamente. Fomos falando com os nossos clientes, em especial com as grandes superfícies, por forma a determinar o que estava em falta, e ainda hoje continuamos a crescer no número e gama de produtos que oferecemos. Diversificámos também na forma de produzir, especialmente no modo de produção agrícola em que enveredamos por uma vertente tecnológica de alta produção e qualidade superior o que nos proporcionou um mercado quase instantâneo pela qualidade final do produto. Diversificámos ainda nos próprios produtos, fazendo diferente do que havia e do que se importava, nomea­damente lançando a alface roxa e uma série de ervas aromáticas no mercado que ainda hoje não temos concorrência. Estamos a preparar o lançamento de uma nova gama de produtos que não existe na região e mesmo no mercado continental é raro. Esperamos que esta nova gama nos acelere o processo de externalização da região e seguidamente da internacionalização.
Estamos a preparar um investimento substancial em um regime de produção completamente novo, compatível e sinergético com as produções que já temos, e que abrirá novos horizontes de comercialização e até de aproveitamento de estruturas já existentes e su­baproveitadas.
A crise é incontornável nas suas várias vertentes, desde a económica com a baixa de consumo, à financeira com a severa restrição do crédito às empresas. A primeira contornamos alargando os mercados e as gamas de produtos. A segunda não há volta a dar embora já se comece a sentir alterações e projectam-se melhorias. Não foi fácil ter investido como fizémos e cair-nos a crise em cima logo a seguir, e estamos a pagar essa factura bastante cara.

- Quais são os principais obstáculos à vossa atividade económica?
- O maior obstáculo é sempre a nossa localização geo­gráfica, com todos os seus contornos de dispersão, escala, custos acrescidos, etc., mas também a falta de gente qualificada e com apetência à aprendizagem.

- O que considera que vos diferencia no mercado?
- Diferencia-nos a gama de produtos que decidimos produzir, e a atitude com essa produção. Por exemplo, na nossa gama de produtos agrícolas embalados usamos ingredientes diferentes do que normalmente se vê na prateleira dos mercados e começamos a ficar um pouco mais arrojados e a lançar produtos completamente inovadores como o “Mix de 4 Agriões” ou a “Salada Picante”. Temos feito inúme­ros contactos e estabelecido imensas parcerias para projectos que irão começar a ver a luz do dia ainda este ano. Criámos um cluster de empresas agro-alimentares com o objectivo máximo de exportar em conjunto e colher todas as sinergias de grupo que daí advêm.
Já somos parte da família Otoctone e produzimos produtos Açorianos de qualidade e abrimos portas como as do evento 10 Fest Azores, que contará com a presença de consagrados chefs, alguns com estrelas Michelin, e que atesta a qualidade e inovação dos nossos produtos.

- Na sua opinião o que é necessário para que os Açores se tornem autossustentável do ponto de vista alimentar? E para exportar?
- Trabalho, dedicação, e atitude! Temos condições excelentes para produzir e no passado já fomos excedentários e isso dá para questionar como fomos de uma situação de exportação para importação massiva. As pessoas é que se habituaram a consumir a a não produzir e começamos agora a pagar essa atitude. Julgo ser fácil darmos a volta, desde que haja vontade. Vem aí mais um quadro comunitário bastante generoso que impulsionará ainda mais a economia e felizmente desta vez é mais generoso com quem realmente produz do que quem apenas investe, o que certamente resultará em mais investimento produtivo e menos investimento inactivo.
É preciso também cons­ciencializar-nos para o mundo que nos rodeia e utilizar a nossa localização geoestratégica de uma forma comercial e alargar os nossos horizontes comerciais a lugares que estão à nossa volta. É importante olhar-mos para a Madeira, para Cabo Verde, para as Canárias, que são mercados de relativa pequena dimensão e que nos permite fornecer com a nossa pequenez, e para mercados como o dos Estados Unidos que tem poder de compra para pagar a qualidade.
Finalmente, é necessário que utilizemos a nossa imensa capacidade diplomática, já que somos conhecidos por povo acolhedor e hospitaleiro para coordenar e maximizar iniciativas de aglomeração de recursos e ganhar mais-valias com a sua venda a mercados externos.

- Que conselho dá a quem está a iniciar a sua vida empresarial neste sector?
- Eduquem-se pesquisando e aprendendo com pessoas, instituições, e na imensidão da internet, e comprome­tam-se com o trabalho. A produção primária não é fácil e exige dedicação, paciência e muito trabalho, mas é possível ter uma vida rica e bastante interessante.